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Charles Aznavour: “O dinheiro nunca foi um motor para mim”

Vincent Capman/Paris Match/Getty Images

É um dos últimos monstros sagrados da grande canção francesa. Aos 92 anos, continua a compor e não dispensa a adrenalina dos concertos ao vivo. No próximo dia 10 de dezembro, às 21h30, sobe ao palco da MEO Arena num espetáculo a não perder

Escreveu mais de mil canções e vendeu mais de cem milhões de discos. Com 92 anos de idade, é a última grande estrela viva da chamada grande canção francesa. Já cantou praticamente em todo o mundo, menos na Turquia. É uma pessoa simples e não recorre a truques para escamotear os danos provocados pela idade. É um dos seus filhos que lhe coloca, à frente do jornalista, o aparelho auricular que lhe permitirá ouvir as perguntas. Assume a idade, é brincalhão e passa toda a entrevista bem-disposto, mesmo quando assume ter falhas de memória e informa que necessita de um ecrã de apoio no palco para não se enganar nas letras das canções durante os concertos. Esta é uma entrevista com um homem livre que apenas colocou um limite às perguntas: não falar de política francesa, agora que estamos a poucos meses das eleições presidenciais. De resto, falou de tudo sem problemas, designadamente das causas que mais lhe interessam: a música e a Arménia, o país onde nem primos nem avós do lado turco chegou a conhecer, devido ao genocídio dos arménios. Adorava Amália Rodrigues e Édith Piaf. Só gosta de canções com grandes textos e grandes vozes. E acha que Calouste Gulbenkian não deveria ter legado toda a sua colossal fortuna a Portugal, poderia também ter deixado uma pequena parte aos arménios. Charles Aznavour estava tão ansioso que começou a falar quando o jornalista ainda nem sequer se tinha sentado.

Gosto mais da língua portuguesa do que da espanhola, mas falo melhor espanhol, porque o português é para mim mais próximo do italiano e do francês, e eu confundo-os. Mas conheço Portugal há muitos anos, mesmo muitos anos.

Desde os anos 60?
Desde os anos 50, mesmo... Ia lá todos os anos.

Ia lá para quê? Cantar, passar férias?
Sobretudo para cantar e também porque gostava da comida e do país.

Na época, gostava muito de Amália Rodrigues...
Amália era uma amiga verdadeiramente próxima, entendíamo-nos muito bem, até gostávamos dos mesmos cantores brasileiros, e chegámos a estar juntos no Brasil, uma vez, pouco tempo depois de nos conhecermos. Ela foi buscar-me ao aeroporto do Rio de Janeiro com uma amiga brasileira. A primeira canção que ela interpretou em francês fui eu que lha escrevi.

Sim, ‘Ay, mourir pour toi’. Escreveu essa canção porque estava apaixonado por ela?
Estamos sempre apaixonados pelas pessoas que têm talento, mas com Amália não se tratava de amor sexual.

A vossa relação apenas ficou por aí, pela amizade?
Sim, mas era uma relação muito próxima. Eu podia abraçá-la, beijá-la, como se fosse uma irmã, e esse tipo de relação é frequentemente mais forte do que o amor. Era o que se costuma chamar em francês uma ‘amizade amorosa’.

Nesses anos 50/60 via-a muito, em Lisboa, Paris?
Sim, por vezes até no Líbano, no Egito... Cruzávamo-nos muito e cantámos uma vez juntos em Lyon.

Amália era uma pessoa importante para si, em termos da música e da voz?
Sim, foi importante, como Piaf foi importante. Eram duas grandes artistas.

Piaf tinha uma importância à parte...
Não, nessa época, ao princípio, não. Alguns anos depois é que se transformou em alguém mais particular.

E o fado era o quê para si?
Adorava. Escrevi a canção ‘Ay, mourir pour toi’ porque ouvi a palavra Mouraria. Gosto imenso de fado, sempre adorei o fado.

Então, ‘Ay, mourir pour toi’ tem a ver com Mouraria?
Sim, queria encontrar uma expressão que se aproximasse de Mouraria, palavra que me soava bem, e foi assim que surgiu esse título. Estive sempre apaixonado por Lisboa, gosto dos portugueses, são boas pessoas, bons trabalhadores, e sempre gostei das pessoas que trabalham bem.

Também há bons artistas...
Sim, só que eu não conhecia muitos artistas. Mas havia um que adorava, era o Alfredo Marceneiro, outro grande fadista.

Os portugueses acolheram igualmente um arménio, que se chamava Calouste Gulbenkian e que deixou uma fabulosa fortuna em Portugal. O que acha disso?
Deveria ter deixado também alguma coisa para os arménios. Penso que depois do genocídio arménio, com a guerra, deve ter sido muito bem recebido em Portugal, e por isso deixou lá tudo. Os meus pais também fizeram coisas espantosas em França. Esconderam judeus em nossa casa. Nós, os arménios, somos pessoas muito fiéis, e quando nos tratam bem nós também tratamos bem os outros.

Portanto, acha normal que ele deixasse essa fortuna colossal toda em Portugal.
Penso que deveria ter guardado um pouco para a Arménia, mas na época a Arménia era soviética, por isso não se pensava nela. Foi depois que se começou a pensar na Arménia. Até comigo aconteceu assim. Fiz muitas coisas pelo país, mas só depois da época soviética.

É embaixador da Arménia, talvez o maior dos grandes defensores da causa do seu país...
Sim, é o país das minhas raízes. Eu não tive avô nem avó, nem primos nem primas. Na minha família éramos apenas quatro: os meus pais, eu e a minha irmã. Depois, pouco a pouco, encontrámos outros arménios, não muitos... O meu pai era mais próximo dos russos.

Mas hoje o senhor é uma glória na Arménia, até tem lá uma estátua.
Tento ajudar o mais que posso. Quando soube que as mães não podiam lavar a roupa das crianças porque não havia eletricidade a horas fixas, fiz tudo para resolver esse problema, para que as mães soubessem que teriam eletricidade, por exemplo, às 13 horas durante uma hora, para poderem funcionar com as máquinas, para costurar, etc... Sim, sou uma pessoa muito próxima da Arménia.

É uma tragédia. Quem são os inimigos da Arménia? Os russos, os turcos?
Não temos inimigos, temos é pessoas que não querem reconhecer as suas faltas.

O genocídio?
Sim. Essas pessoas não são minhas inimigas, são inimigas delas próprias, porque a toda a hora lhes apontam o dedo dizendo: “Eis os assassinos.” Eu não tenho nada contra o povo turco, não vou dizer às novas gerações, que na época ainda nem tinham nascido, “vocês mataram a minha família”. O que desejava era que eles fossem tão abertos como eu sou.

Foi um verdadeiro genocídio.
Sim, foi. Toda a minha família do lado turco desapareceu, nunca ouvi falar deles, nunca nenhum deles foi encontrado.

Em criança, conheceu a pobreza em Paris, onde nasceu, com os seus pais?
Não éramos pobres nem infelizes, os meus pais trabalhavam. Os arménios têm isso em comum com os portugueses, sabem trabalhar e não receiam meter as mãos na massa. Os turcos também trabalham. Ao mesmo tempo que os critico por não reconhecerem o genocídio até chego a ter relações amigáveis com alguns turcos.

Quando alguém lhe diz “o senhor é um monstro sagrado da grande música francesa e internacional”, como é que reage?
Não acontece nada. Eu escrevo, não passo o tempo ao espelho a dizer “sou o maior”, tenho horror disso. Sou um homem simples, um artesão, não sou uma estrela, tenho a minha profissão, só encontrará neste escritório coisas sobre as canções. Gosto de literatura, de línguas estrangeiras, gosto de encontrar pessoas que aprendam coisas novas umas com as outras. É isso que me 
interessa.

Cantou em quase todos os países do mundo, vendeu milhões de discos...
E continuo a cantar, quase só não cantei na Turquia. Mas a questão não é essa do dinheiro, o que interessa é que o dinheiro sirva para qualquer coisa. Ajudei muito a Arménia, ajudei amigos e sei que nunca receberei essas ajudas de volta. O dinheiro nunca foi um motor para mim, o motor é sim a bela escrita.

‘La bohème’, por exemplo, como nasceu?
Não fui eu que escrevi a letra, foi um amigo, mas é uma das mais belas que tenho no meu reportório.

É uma das mais belas canções do mundo!
Bem, mas há outras.

Conheceu e foi amigo de gente famosíssima, como Édith Piaf...
Sim, sempre fui muito próximo das pessoas. Adorava Piaf, mas fui amigo também de Ray Charles, Frank Sinatra, Nina Simone, Charles Trenet, Maurice Chevalier, Amália...

E de Yves Montand?
Nunca fui muito amigo dele, apresentava-lhe projetos e ele recusava-os.

Demorou alguns anos a alcançar o sucesso. Qual foi o seu primeiro grande êxito?
Foi ‘Je m’voyais déjà’, uma canção que Yves Montand, precisamente, tinha recusado cantar. Tive muita sorte na minha vida. Muita gente não gostava de mim no início, durante muitos anos, nem a imprensa, mas as pessoas gostavam. O que aconteceu comigo é quase inimaginável, sabe? Como não gostavam de mim em França, decidi ir cantar para o estrangeiro, para os Estados Unidos, por exemplo... Lá também foi difícil, mas acabou por funcionar.

Tem uma longa vida, e desejo que seja ainda mais longa... Quando pensa no passado, pensa em quê?
O passado serve-me para escrever. Ainda há pouco tempo saiu um novo disco meu. Escrevo todos os dias, leio todos os dias, aprendo todos os dias, incluindo línguas estrangeiras, estudo...

Em Portugal, houve um cineasta, Manoel de Oliveira, que nunca deixou de trabalhar mesmo com mais de 100 anos...
Pois, eu sei... Eu acho que vou trabalhar ainda mais tempo. Estive duas vezes com a pessoa mais idosa do mundo, creio que tinha mais de 120 anos e bebia vinho e fumava um cigarro depois das refeições.

O senhor fuma?
Fumei até aos 47 anos três pacotes de Gauloises por dia.

Bebe álcool?
Também deixei de beber fora das refeições e aprendi a apreciar melhor o vinho às refeições.

Pode dizer-se que Piaf foi uma das suas verdadeiras grandes amigas?
Sim, e Amália também foi. Eram pessoas muito boas.

Um dia, Georges Moustaki, que já faleceu, disse-me que Édith Piaf o ajudou imenso a singrar na canção. Também o ajudou a si?
Verdadeiramente, não. Eu vivi em casa dela, ela gostava muito de mim, mas dava preferência aos seus apaixonados, esses estavam sempre em primeiro lugar. Mas mesmo assim uma vez disse-me: “Vais fazer uma grande carreira.” Mas não era na cama dela a que se referia...

O que vai apresentar no próximo concerto em Portugal? O reportório clássico?
Não tenho reportório clássico, misturo coisas novas com antigas.

Vai cantar ‘La bohème’, claro...
Bem, isso é o que eu chamo a descida aos infernos... Canto, mas também interpreto muitas coisas novas.

Francis Tsang/Getty Images

Há pouco cortei-lhe a palavra quando falava sobre Amália, dizia que ela era verdadeiramente sua amiga...
Para mim, era a Santa Amália. Falávamos de música, de arte... Conheci-a na Bélgica, no fim dos anos 50, ela cantava numa sala do primeiro andar e eu no rés do chão.

Como nasceu ‘Ay, mourir pour toi’? Foi o senhor que lhe propôs essa canção?
Não, foi ela que me disse um dia: “Gostaria de cantar uma canção em francês.” E eu disse-lhe: “Vou escrever uma para si.”

E inspirou-se na palavra Mouraria por que razão?
Pensava que estava relacionada com a morte e quando soube que não fartei-me de rir. Na realidade, foi a palavra que cantou no meu 
ouvido.

Tratavam-se por você?
Sim, eu sou assim, quando admiro muito as pessoas trato-as por você. Também tratava a Piaf por você.

Voltando a Calouste Gulbenkian. Senti uma certa mágoa sua quando lhe disse que ele deixou toda a sua fortuna a Portugal...
Sim, mas eu não sei tudo... Sei que há uma Fundação, mas não sei o que faz essa Fundação... Creio que há ou houve programas para apoiar arménios, bolsas de estudo, por exemplo. Isso seria importante. Em vez de construírem qualquer coisa na Arménia, uma ou duas casas, seria bom apoiarem com bolsas os estudantes que não podem estudar sem ajudas. Acho que já o fizeram no passado, mas não sei se o continuam a fazer. Para mim, a instrução é importante. Eu não estudei na escola, aprendi tudo sozinho na rua.

A grande canção francesa, com grandes textos, fortes composições musicais, grandes encenações, que o senhor representa tão bem, acabou?
Não, não acabou, porque continua a existir, mas evoluiu noutro sentido, porque os artistas agora gostam de trabalhar à moda da música americana e inglesa... Mas as pessoas continuam a apreciar os cantores que cantam em francês, sem dúvida, e esses, os que trabalham à moda americana, não dão a volta ao mundo, como eu dou, e canto sobretudo em francês. Por exemplo, vocês, em Portugal, também não têm necessidade de cantar à moda americana, têm o fado, que é uma canção bem específica. Nós não temos isso, temos os textos. Nunca se deve estragar as coisas importantes do passado. Mas, de qualquer modo, as coisas verdadeiramente importantes, fundamentais, voltam sempre. Vou adorar voltar a Lisboa, uma cidade de que gosto muito, incluindo a calçada e naturalmente a comida e os azulejos...

Porque é que continua com vontade de cantar em concertos, no estrangeiro, por exemplo?
Certamente porque sou um pouco aventureiro, gosto de correr riscos. Comecei assim a carreira e assim continuarei. Aliás, alguns dos países estrangeiros onde comecei a cantar foram precisamente a Espanha 
e Portugal.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 26 de novembro de 2016