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A recomposição do mundo

Com “Sonho de uma Noite de Verão”, a Companhia Maior alarga as possibilidades de entendimento de uma das grandes peças de Shakespeare

Um divertimento, uma comédia romântica, “Sonho de uma Noite de Verão” costuma ser assim descrito. A peça é tida, com razão, como uma das mais perfeitas de Shakespeare. É uma peça complexa, com uma ação distribuída por pares e por grupos, ou seja, por casais e por personagens que não estão necessariamente a ponto de contrair matrimónio; todos se cruzam na complexidade dos acontecimentos.

Teseu e Hipólita são o primeiro dos casais a aparecer, ele duque de Atenas, ela rainha das Amazonas. Vão casar dentro de dias. Oberon e Titânia, entrando ligeiramente mais tarde, rei e rainha das fadas, são a contrapartida fantástica do primeiro par, e estabelecem uma espécie de polaridade entre poderes, a cidade por um lado, o bosque por outro; a vigília e o sonho, a realidade e a fantasia. Hérmia, Lisandro, Helena e Demétrio são jovens, querem casar, e espera-os o momento das provações, das tentações, dos sofrimentos e, enfim, a conciliação dos interesses amorosos. Pelo meio estão os artesãos, gente do povo, do campo, a preparar uma peça para o casamento do duque; as fadas e, peça fundamental, Puck, ‘génio’ ao serviço de Oberon — como Ariel, em “A Tempestade”, ao serviço de Próspero.

O Bosque é o lugar privilegiado da ação, é para lá que fogem Hérmia e Lisandro, para escaparem à lei paternal, que entende dar Hérmia a Demétrio — a alternativa para Hérmia seria o convento ou a morte; é para o bosque que vai Demétrio, em perseguição de Hérmia, que não gosta dele; é para lá que vai Helena, em perseguição de Demétrio, que não gosta dela. É no bosque que Oberon discute com Titânia, e a faz apaixonar-se por um burro, que é um homem transformado. É no bosque que Puck se engana nos encantamentos e provoca discórdia e sofrimento entre os quatro namorados, para depois emendar a mão, e harmonizar corpos e desejos. E é no bosque que Titânia volta ao seu lugar ao lado de Oberon, quando as disputas entre eles se acalmam, e com essa calma a ordem do mundo se restabelece — afinal, os reis das fadas reinam para lá dos bosques e dos sonhos, regulam as estações, as tempestades, os sonhos e as vigílias de fadas e homens.

Para Tónan Quito, o encenador, escolher esta peça foi quase uma imposição lógica, depois de “Ricardo III”, também de Shakespeare. Depois da chacina e do poder, o sonho e o bosque. E para trabalhar com a Companhia Maior, era ideal — muitas personagens, num espetáculo com 20 atores. A Companhia, criada em 2010, integra artistas com idades superiores a 60 anos. E foi, também, um grande desafio: como é que estas pessoas reagiriam à criação de personagens muito diferenciadas entre si, em grande parte jovens, movidas essencialmente pelo amor e pelo desejo?

Com um dado único, a experiência de vida. O resultado foi, para o encenador, uma aprendizagem além do esperado. A maravilhosa resposta dos elementos da Companhia, modelos de generosidade e disponibilidade, não só ultrapassou as suas expectativas, como o ajudou a alargar o entendimento inicial da peça, na sua aparentemente infinita possibilidade de leituras e de organização de sentidos.

Sonho de uma Noite 
de Verão

De William Shakespeare
CCB, Lisboa, hoje e amanhã