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A guerra é a guerra

PRESENTE E PASSADO. Cena de “What your Fathers Did: A Nazi Legacy”

d.r.

Um documentário estreado em 2015 sobre os filhos de dois dirigentes nazis coniventes e atuantes na Solução Final coloca várias questões sobre a condição humana, nomeadamente sobre o modo como vemos os outros e a nós próprios

Reinaldo Serrano

“A condição do homem é a condição da guerra de todos contra todos” - Thomas Hobbes

Admito que muitos possam estar saturados com a longa e nem sempre benéfica exposição da II Guerra Mundial em várias plataformas, como agora soi dizer-se; com efeito, o mercado está desde há décadas inundado com documentários, séries, filmes, livros, ensaios, teses, reflexões, arquivos e revelações, segredos e teorias alusivas àquele que terá sido o acontecimento mais marcante do século XX. E, no entanto, de quando em vez, surge um lampejo que trás consigo um novo enfoque, uma nova abordagem, uma outra perspetiva do conflito.

Desta feita, o lampejo surge sob a forma de um documentário estreado em 2015 e que terá passado despercebido a muitos interessados ou simples curiosos sobre a guerra que devastou a Europa e demais mundo entre 1939 e 1945. Chama-se, sugestivamente, "What Our Fathers Did: A Nazi Legacy". O documentário tem a assinatura de David Evans que, entre muitas outras coisas, dirigiu seis episódios de "Downton Abbey". No entanto, o destaque vai para o homem que concebeu este documento único sobre a participação nazi no extermínio dos judeus; chama-se Phillippe Sands e é um advogado sobejamente conhecido no domínio da defesa dos direitos humanos. É por sua iniciativa que contactamos, numa intimidade desconcertante, com duas figuras que carregam sobre os ombros a herança de uma paternidade polémica: Niklas Frank e Horst von Wachter são ambos filhos de dois altos dirigentes do regime nazi, cada qual com o seu papel atribuído e desempenhado na "solução final" de Adolf Hitler.

O documentário é uma viagem a dois tempos, que se cruzam, se enleiam, se reconhecem e se negam: o passado sombrio dos oficiais nazis, por uma lado, e o legado deixado no sangue dos descendentes. Como sobreviver à dúvida, como conviver com os factos, como lidar com o peso no coração de uma herança sobre a qual não se tem, nem se pode ter qualquer tipo de responsabilidade? E até que ponto os laços familiares determinam ou não a apreciação que é feita aos progenitores? As questões têm respostas diferenciadas em função dos interlocutores, "abraçados" por um processo de catarse que decorre da própria motivação do homem que deu origem ao documentário: Phillippe Sands é descendente de judeus que foram mortos durante a era nazi. Daqui decorre uma das questões mais prementes saídas do visionamento de "What Our Fathers Did: A Nazi Legacy": até que ponto existe distanciamento suficiente deste advogado perante os acontecimentos nos quais as famílias dos dois alemães se envolveram, e até que ponto a sua própria viagem interior condiciona o seu juízo de valor sobre cada um deles? Sim, porque entre Niklas e Horst há divergências de fundo na avaliação que cada um faz do respetivo pai. Não vou revelar o sentido destas divergências, mas o visionamento do documentário vai construindo, inevitavelmente, uma narrativa própria do espetador, em função das narrativas a que o próprio assiste com um misto de espanto, quem sabe se de repulsa.

O documentário é poderoso, pela crueza das revelações e por estar, aparentemente, despojado de subterfúgios. Mas a moralidade que acaba por vir ao de cima encerra, ele própria, questões bem mais fundas no processo de múltiplas reflexões em que acaba por transformar-se a vida dos protagonistas. Não há, ainda assim, espaço para o sentimentalismo bacoco ou para a lágrima fácil: o que este documentário propõe é uma leitura de vidas a 3, pese embora seja quase inevitável perceber que o advogado se vai transformando, paulatinamente, num juiz que parece julgar, em última análise, em causa própria. Também por este motivo, é legítimo (seja justo ou injusto) questionarmo-nos sobre as reais razões que levaram Phillipe Sands a chamar a si esta tarefa; ou não será, antes, esta missão?

O juízo cabe a cada um dos espetadores que decidirem ver com olhos de ver as linhas e as entrelinhas de uma viagem ao interior do nazismo, ao interior da condição humana, e ao interior de cada um de nós. Uma das perguntas que pode saír de "What Our Fathers Did: A Nazi Legacy" é: serão forçosamente odiosos os filhos de pais que a História odiou?