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“Silêncio” visto por um jesuíta português: “Há histórias bonitas de fé, mas esta não é uma delas”

Baseado no romance homónimo de Shusaku Endo, “Silêncio” conta a história de dois padres jesuítas portugueses do século XVII perseguidos durante a missão no Japão. A estreia está marcada para 23 de dezembro nos EUA (a Portugal só chega em janeiro), mas o mais recente filme de Martin Scorsese já foi exibido no Vaticano para umas centenas de jesuítas. Entre a audiência estava o português António Ary. Aos 34 anos, é um padre e membro da Companhia de Jesus. Há meio ano que está em Roma, Itália, a estudar Direito Canónico

O padre António Ary, segundo a contar da esquerda, com Martin Scorsese e amigos

O padre António Ary, segundo a contar da esquerda, com Martin Scorsese e amigos

DR

O filme “Silêncio”, de Martin Scorsese, tem estado envolto em algum secretismo, pois ainda pouco se sabe sobre ele. O Padre António Ary foi um dos cerca de 200 jesuítas de todo o mundo que estiveram presentes (foram apenas seis portugueses) num visionamento no Vaticano, na última quarta-feira. No que consistiu este evento?
A informação que tenho é que o realizador, acompanhado por um dos jesuítas que o apoiou durante a realização do filme, teve este gosto de mostrá-lo aos jesuítas, uma vez que é uma história sobre jesuítas. Éramos umas centenas, não foi nenhum privilégio pessoal… foi um gosto de envolver os jesuítas tal como os envolveu ao longo da realização e produção do filme.

Recebeu um convite para assistir a esta estreia?
Não foi um convite muito formal. A informação circulou entre os jesuítas que estão em Roma e quem quisesse, podia ir. Nem havia inscrições. Foi um evento que também não quis ser muito mediático, foi simples.

Além dos jesuítas, quem mais esteve presente?
Estiveram algumas pessoas ligadas ao filme e ao realizador, que também vieram a esta promoção. Lembro-me que além de Martin Scorsese e da sua mulher, foram apresentados o argumentista, a editora e outras pessoas da equipa.

O que achou do filme?
Eu gostei. Foi um filme que me tocou. É muito forte e intenso, mas que me deixa incomodado. Não é algo épico ou heróico. É um filme que me deixa com questões e inseguranças. Não é sobre o lado luminoso da história dos jesuítas ou da fé. Passa-se em tempos de perseguição, sobre mártires e sobre quem deu a vida pela fé. Aqui vemos outro lado, sobre o lado de quem não encontra a força para viver o martírio. A questão principal é a fragilidade humana. Tem a ver com o silêncio de Deus e essa é uma experiencia espiritual comovente.

E quais foram essas questões com que ficou no final do filme?
O que é que significa renegar a fé. Ou o que é que significa encontrar Deus no sofrimento próprio e alheio. Outra das perguntas que atravessa ao filme é: como Deus permite o sofrimento injusto? E depois fez-me pensar se a minha fé, o modo como eu, enquanto padre e jesuíta, quero entregar a minha vida pela fé, que consistência é que isso tem. Faz-me pensar que solidez é que a minha fé tem. Claro, não vivo num contexto de perseguição como as personagens, mas na minha vida há dificuldades e a fé não é algo que seja sempre fácil de viver. A presença de Deus não é uma coisa que eu vejo com muita clareza todos os dias, mas também a fidelidade é posta à prova. Reconhecer os meus limites e as minhas fragilidades e não criar um ideal heróico de que sou um crente com uma fé inabalável. Não há crentes com fé inabalável, ninguém se pode autodefinir assim.

Por vezes, existe alguma polémica no que toca a filmes que entram no tema religioso e abordam questões de fé. O “Silêncio” é um desses filmes?
Acho que é possível fazer-se leituras polémicas. O filme em si, não acho que seja polémico. Polémico seria só ver este lado e não assumir que há outro lado, de quem dá a vida pela fé, que há o lado da fidelidade, do martírio. Diria que não é um filme fácil de ver para católicos, embora seja para eles que a história faça mais sentido. Não é uma história bonita de fé. Há histórias bonitas, mas esta não é uma delas. O filme é bonito, mas o período que retrata, não. Acho que houve muito respeito na realização pela fé, pela Igreja, pela Companhia de Jesus… Isso percebe-se. Pode haver quem não goste, mas o tema foi abordado com honestidade.

O que se pode esperar do filme?
Acho que vão ver uma descrição de uma situação histórica, embora a narrativa seja ficção, o período histórico é verídico e está muito bem representado. Tem a ver com o levar a fé a um nível mais global e o encontro entre a cultura ocidental, neste caso com os portugueses, e a cultura tradicional japonesa. Como interesse histórico, diria que retrata bem. Não é um filme épico, diria até que a parte central é mais um thriller psicológico: o que vai a personagem fazer, como vai fazer… Não é um filme que aconselharia para uma tarde de domingo relaxada [risos].

Acha que as personagens dos três jesuítas portugueses são fiéis àquilo que é o espírito jesuíta?
Acho que são mais verosímeis enquanto jesuítas do que enquanto portugueses. Não deixa sempre de ser um filme, mas parece-me que está bastante fiel e há algumas coisas particulares, como por exemplo, textos fundacionais portugueses e os modos de estar… Esse foi um dos pontos em que se percebe que houve o cuidado de ter os jesuítas envolvidos durante a realização.