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Museu FC Porto dá lição de História com marionetas para que não seja “lorpa”

Afonso Nunes / Museu FC Porto

Espetáculo de teatro de marionetas concebido pelo Museu FC Porto e encenado por Ricardo Alves dá a conhecer a história do clube, da cidade e do mundo. Desde os dinossauros até à atualidade, embarque nesta viagem histórica recriada pelos “dragões”

“O Porto é uma Lição”, assim se intitula a peça de teatro concebida pelo Museu FC Porto e que pretende dar a conhecer a história do clube, da cidade Invicta e do mundo, porque, “afinal, o planeta é azul”, frisa a organização. Com encenação e texto de Ricardo Alves, o espetáculo leva o público numa odisseia que recua até a uma época onde os dinossauros dominavam a Terra e estende-se até à contemporaneidade, sempre com muito humor e música num entretido jogo lúdico. Trata-se de uma aula de História transgeracional, para portistas, portuenses e cidadãos do mundo, que estreia este sábado, pelas 16h, no auditório do museu portista.

Após um dos ensaios, em declarações à comunicação social, o diretor programático do museu, Jorge Maurício Pinto, frisa que “todos temos uma criança dentro de nós”, mas que o objetivo é que “não seja só para crianças”. Transformar o palco numa sala de aula, fazer uma revisão da cultura geral, promover a partilha de conhecimento e exaltar a história de resistência e resiliência da cidade são os “golos” que esta criação pretende marcar, explicou o responsável.

O cenário recria precisamente uma sala de aula, onde o professor transmite a duas crianças traquinas, mais interessadas nas questões relacionadas com a equipa dos dragões, vários ensinamentos históricos que marcaram a humanidade e a cidade do Porto.

Porque é que os T-Rex têm membros superiores tão pequenos? “Para não cometerem penáltis”

Afonso Nunes / Museu FC Porto

Por exemplo, porque é que os T-Rex possuem membros superiores tão pequenos, interroga o educador. Futebolisticamente, a resposta parece óbvia e está na ponta da língua de um dos alunos. “Para não cometerem penáltis”, responde um dos petizes, a quem a colega chama imediatamente de “lorpa”.

Ao longo da lição, recua-se até aos primórdios das primeiras manifestações culturais que deram origem ao futebol. Há sete mil anos, na China, os soldados já praticavam uma atividade semelhante, embora com a função bélica de preparar o exército para a arte da guerra. Mas há vestígios de outros práticas semelhantes ao “desporto-rei” nas civilizações pré-colombianas – inseridas em cultos religiosos –, bem como na Grécia Antiga. Mais tardiamente, em Inglaterra surge o “foot ball” e em Itália, emerge uma modalidade que ainda hoje é conhecida como “calcio”.

Inventado pelos britânicos, o jogo nem sempre foi tal como o conhecemos nos dias correntes e só em 1846 se divide, definitivamente, o futebol do rugby, algo que também é dado a conhecer durante a peça “O Porto é uma lição”, veículo para evidenciar igualmente o caráter forte e resiliente das gentes da Invicta.

O apoio às tropas liberais de D. Pedro IV, que reivindicava o trono português, e a resistência ao cerco das forças conservadoras, lideradas pelo irmão D. Miguel, durante o cerco de um ano à cidade, entre 1832 e 1833, é outro dos episódios relatados. Também o momento em que o Porto conseguiu expulsar os Mouros merece destaque e é motivo de perplexidade por parte de um dos alunos que, atentamente, escuta as palavras do professor. “O Porto era dos Mouros?”, pergunta com alguma indignação.

Em 1893, um homem de negócios chamado António Nicolau d’ Almeida – ou o “senhor do bigode” – criou o “Foot-Ball Club do Porto , após ter-se encantado pelo desporto durante uma viagem a Inglaterra. A 1 de outubro do mesmo ano, a equipa começa a treinar no Campo do Prado, em Matosinhos, e a de março de 1894 os dragões disputam o primeiro “match” contra aquele que à época era o maior clube da capital, o “Foot-Ball Club Lisbonense”. A viagem de comboio da equipa lisboeta demorou umas longas 14 horas, mas os azuis e brancos acabariam por sair derrotados nessa primeira partida, pelo resultado de 0-1.

Afonso Nunes / Museu FC Porto

O espetáculo conta também com outras personagens icónicas e sempre bem-humoradas. O “Zé do Boné”, que diz que só lhe apetece chorar de alegria, é uma delas e qualquer semelhança com José Maria Pedroto, emblemático treinador do F.C. Porto, (não) é mera coincidência.

Os momentos musicais estão sempre presentes e tornam a “aula” mais dinâmica. Nesta divertida lição “tudo está ligado/ e para o perceber/ tu tens que aprender o que foi o teu passado. / Nada vem do nada/ vem tudo de algum lado/ e tudo o que hoje tens/ foi uma invenção de alguém”, assim cantam as personagens durante a peça.

Pegar nas pequenas vitórias do dia-a-dia

À conversa com os jornalistas, o encenador Ricardo Alves afiança que “a preocupação foi abranger o máximo de público possível”, até porque, confessa, não sabe fazer peças apenas para crianças ou somente para adultos. “Quando concebo um espetáculo, esqueço as idades. Sei que há piadas a que as crianças reagem melhor, outras a que reagem melhor os adultos. Tenho essa noção, mas o espetáculo é feito para a criança que há dentro de cada um de nós, seja ela efetiva ou a criança que reside numa pessoa de 50 anos”, explica o criador artístico.

Relativamente à abordagem, conta que a filtragem dos episódios históricos não passou tanto pelas conquistas do clube, mas mais pelos acontecimentos que contribuíram para a cidade e para a criação da “mística” do Porto. “Há uma quantidade de histórias que vivem do Porto e que são mais do que o clube. É pegar nas pequenas vitórias do dia-a-dia e nessa luta que se faz sempre”, explica Ricardo Alves, fundador da companhia Palmilha Dentada.

“O Porto é uma Lição” resulta de um trabalho de pesquisa e recolha efetuado pelo Museu FC Porto, numa produção própria em parceria com o Teatro do Ovo Alado e o Armazém 22. Além da apresentação agendada para este sábado, estão programadas também sessões para 8, 10 e 17 de dezembro, sempre às 16h.

O objetivo passa também por ir ao encontro do público fora do espaço físico do Museu e pode ser apresentada, na totalidade ou parcialmente, em escolas e, para tal, basta fazer a solicitação atempadamente.