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De olhos bem abertos para ver o mundo Leica no Porto

DANIEL ROLAND/GETTY

A exposição “Eyes Wide Open: 100 anos de fotografia Leica”, patente na Galeria Municipal do Porto, conduz o público numa viagem pelo universo das pequenas e revolucionárias máquinas alemãs que mudaram a forma como vemos o mundo

André Manuel Correia

A história do séc. XX conheceu diversos capítulos. Desenvolvimentos tecnológicos, grandes guerras, revoluções, ditaduras, crises económicas, a tensão escaldante da Guerra Fria, a chegada do Homem à Lua e também a era nuclear. Episódios ainda bem presentes na memória coletiva, muito por força da proliferação da fotografia enquanto arte e veículo único para captar momentos irrepetíveis. Em 1914, o alemão Oskar Barnack teve o sonho de tornar as câmaras mais pequenas, transportáveis e com um manuseamento mais simples para utilizadores amadores. Assim nasceu a Leica e a loucura por estas pequenas máquinas fotográficas rapidamente se propagou.

A exposição “Eyes Wide Open: 100 anos de fotografia Leica”, patente na Galeria Municipal do Porto, leva o público numa viagem centenária, desde o preto e branco até à realidade a cores, a partir desta quarta-feira e até 5 de fevereiro.

A mostra, com a curadoria de Hans-Michael Koetzle, está dividida em duas partes e 14 capítulos, organizados por temáticas. Durante uma visita guiada à comunicação social, o responsável explicou que “a ideia da exposição não é mostrar a técnica fotográfica, mas mostrar como estas máquinas mudaram a visão que temos do mundo”.

E assim somos levados até ao início do séc.XX, mais concretamente até 1914. Numa Alemanha mergulhada na Primeira Guerra Mundial, Oskar Barnack desenvolveu o protótipo para uma nova máquina fotográfica. Mais pequena, mais leve e mais fácil de utilizar. Na exposição pode ser vista uma réplica dessa quimera. Similar a uma qualquer “compacta” que atualmente estamos habituados a ver, mas verdadeiramente inovadora em comparação com as colossais e pouco práticas câmaras do início do séc.XX.

“Consegue-se obter um manuseamento muito rápido e é a primeira câmara que usa rolo de filme de 35mm. Foi uma verdadeira revolução técnica”, frisa o curador sobre a máquina que só viria a ser comercializada em 1925, com o nome de Leica I.

Estas compactas ancestrais, mas com um design bastante moderno para o período histórico em que foram concebidas, vieram tornar as fotografias mais “espontâneas e naturais”, assim como permitiram a “introdução de novas técnicas e perspetivas”, explica Hans-Michael Koetzle, enquanto prosseguimos na viagem histórica.

Fizeram com que a fotografia passasse a ser um instrumento fundamental também para o meio jornalístico, dando origem a algo completamente novo: o fotojornalismo. E foi através do olhar de repórteres fotográficos que alguns momentos ficaram eternizados nas capas dos jornais de todo o mundo e nos livros de História.

Os “disparos” mais famosos de um século marcado por guerras

Um desses exemplos foi o fotojornalista húngaro Robert Capa (Andrei Friedmann, nome verdadeiro), que se tornou no mais famoso repórter de guerra até hoje. Passou por diversos palcos de destruição, mas foi na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) que obteve um dos “disparos” mais célebres até aos nossos dias, durante a batalha de Cerro Muriano.

A fotografia “Death of a Loyalist Soldier” mostra um elemento das milícias republicanas na hora em que é abatido pelas forças nacionalistas, leais a Francisco Franco. A imagem dispensa grandes apresentações, mas o que poucos sabem é que também ela foi capturada com uma Leica e que existem somente três cópias em todo o mundo. Uma delas está integrada nesta exposição com entrada gratuita, aos olhos de todos até 5 de fevereiro.

Continuamos o percurso e, volvidos alguns capítulos, chegamos até às imagens desoladoras da Segunda Guerra Mundial. É também possível encontrar nesta mostra imagens triunfantes de soldados alemães durante a invasão à Rússia, utilizadas pela propaganda do III Reich e publicadas em revistas como a “Signal”.

Avançamos para a segunda parte da exposição e também para a segunda metade do século XX. Deparamo-nos, imediatamente, com o retrato de Che Guevara, captado em 1960 e da autoria do fotógrafo Albert Korda. Sim, é mesmo essa fotografia em que provavelmente estará a pensar, aquela que pode ver ainda hoje estampada em t-shirts por todo o mundo e que durante estes dias pode admirar bem de perto no Porto.

Prossegue a incursão histórica e a lente fotográfica faz-nos desembarcar no Vietname. Ou melhor, através do olhar de Nick Út e da sua fotografia “Napalm attack in Vietnam” somos levados até um dos episódios visualmente mais dramáticos daquele período. A imagem, de 1972, captada em Trang Bang, correu o mundo e mostra uma criança de nove anos, despida, a correr pela rua, vítima de um ataque de napalm por parte de militares vietnamitas.

Estas são algumas das obras mais célebres que podem ser encontradas na exposição, todas elas captadas com máquinas Leica, mas há muito mais para ver na “Eyes Wide Open”. Fotografia de moda, fotografia subjetiva ou séries de retratos contemporâneos, que mostram o quotidiano e a beleza de pessoas comuns, por exemplo.

Os pontos de interesse são vários e os cenários em que imergimos com os olhos bem abertos nesta exposição são tantos como as faces do passado século. A mostra já passou por vários países e chega agora a Portugal, numa organização conjunta da Câmara Municipal do Porto e do grupo Leica.

Na exposição estão incluídas fotografias de Oskar Barnack, Noburyoshi Araki, Julia Baier, René Burri, Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, Gérard Castello-Lopes, François Fontaine, Bruce Gilden, Eva Kemlein, Saul Leiter e muitos outros, entre os quais também autores nacionais.