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É seguro dizer que esta não é uma vida normal

FOTO KEVIN WINTER / GETTY

Celebrizou-se a cantar versos escandalosos sobre sexo e drogas, mas no ano passado chegou aos Grammys, aos Óscares e aos iPods de fãs adolescentes que o adoram. The Weeknd está a viver uma compreensível crise de identidade – por um lado adora a fama, os carros luxuosos e as gabarolices que agora pode incluir nos seus versos; por outro, amadurece e recusa fazer parte da pop mainstream, embora o novo álbum “Starboy” pareça uma indicação clara de que esse pode ser mesmo o seu rumo

No princípio, Abel Tesfaye escondia-se – ninguém sabe se o fazia porque não queria ser famoso ou se o fazia exatamente porque ambicionava tornar-se uma estrela e usava essa aura de mistério como uma manobra de marketing. Escolhido o nome artístico, Abel, que é The Weeknd para o resto do mundo, ilustrou os primeiros trabalhos com fotografias de mulheres para esconder a sua cara e recusou dar entrevistas.

O passo seguinte foi encher os seus versos sujos de sexo e drogas com melodias apetecíveis e irresistíveis ao ouvido, e aí estava ela: a fama, as intermináveis nomeações para os Grammys deste ano, a possibilidade de ganhar um Óscar, e sobretudo as garantias das revistas especializadas de que ele seria o próximo pioneiro do R&B a ter em conta.

Abel deu a cara – deu a cara em entrevistas, em atuações para espetáculos e entregas de prémios à escala mundial como forma de assumir o seu novo papel de revelação responsável pelos caminhos a traçar para o R&B na próxima década. Agora, e após uns dois anos de sucesso inegável e permanência nos tops musicais, Abel volta com um novo disco – e “Starboy” é, como seria de esperar, aquele disco em que ele explica o que a fama avassaladora significou para ele, enquanto continua a cantar sobre sexo, drogas e (nos momentos mais satisfatórios do álbum) sobre o seu percurso, mais introspetivo e menos exibicionista.

Não é de espantar: é costume que os artistas escolham o assunto da fama como um tópico frequente, muitas vezes em jeito de desabafo ou de terapia, quando ela os atinge daquela maneira que não esperam e que os afeta de forma menos glamorosas ou desejáveis. Mas Abel insiste que sabe o segredo para não se perder ou deixar deslumbrar com a nova vida que conquistou: “Talvez os 25 anos sejam uma boa idade para ficar famoso, ao contrário dos artistas que o conseguem aos 13 ou 14 anos e não sabem lidar com isso. Já ando neste jogo há algum tempo”.

Vou morrer novo

MARK RALSTON / AFP / GETTY

Olhando para “Starboy”, é difícil acreditar que não haja deslumbramento – e ainda mais difícil é engolir os versos de “Ordinary Life”, em que The Weeknd explica que a santidade não é destinada para quem vive aquela vida (e insiste que essa santidade até é uma coisa que deseja alcançar, mesmo quando todas as pistas indicam o contrário): “Como James Dean, vou morrer novo / Se pudesse trocaria tudo por uma auréola / E ela disse que rezaria por mim / Eu disse ‘É demasiado tarde para mim’ / Porque acho que é seguro dizer que esta não é uma vida normal”.

Mesmo livrando-se das traças descoordenadas que eram a sua imagem de marca, é de duvidar que uma auréola assentasse na cabeça de Abel – e ainda mais é de duvidar que ele o desejasse. Logo na primeira faixa, a que dá nome ao álbum e uma das que contam com a colaboração dos Daft Punk, o músico faz uma espécie de inventário daquilo em que se tornou a sua vida, declarando a sua intenção de fazer inveja a quem o estiver a ouvir sem pudor: “Nenhum destes brinquedos é emprestado / Ganhei numa semana o mesmo que ganhas num ano inteiro / Comprei uma casa e um carro à minha mãe e agora ela vai ao supermercado com um ar de luxo”, para depois concluir: “Nós não rezamos por amor, nós rezamos por carros”.

MIKE COPPOLA / GETTY

“Starboy” é uma faixa pop irresistível que dá nome ao disco, um falsete de Abel a coroar um refrão orelhudo, e muitas vezes um resumo eficaz do que se vai passar no resto do álbum – uma fórmula de sucesso para pôr os fãs a dançar, letras sobre carros e dinheiro e uma falta de emoção que muitas vezes prejudica a narrativa, mesmo quando ela evolui e passa a tratar de coisas sérias. De facto, a segunda parte do álbum, a que começa com “Stargirl interlude” e introduz a voz de Lana del Rey a complementar perfeitamente a de The Weeknd, soa a um disco separado, sobretudo liricamente, com este “Starboy” a aparentemente encontrar a sua “Stargirl” e a render-se aos encantos da monogamia, do amor que já não teme e de uma certa forma de plenitude.

Antes disso, são várias as canções que revisitam os temas que são a imagem de marca de The Weeknd e que muitas vezes pouco acrescentam ao seu repertório, levando vários críticos a considerar que o álbum acaba por se tornar demasiado longo na sua hora e vinte de duração. “Party monster” é a declaração à rapariga que já viu “enriquecer no varão”; “False Alarm”, com a batida frenética a fazer lembrar traços de dubstep, é o relato sobre a mulher que ama cocaína e dinheiro, mas não o ama a ele nem a nenhum outro homem (“Diamantes e anéis são a sua fantasia / Tu ama-la, mas nunca serás suficiente”). Em “Rockin’”, que contém mais um daqueles refrães que tão cedo não abandonam a ponta da língua, volta a clássica história da rapariga com quem esteve uma noite e quer mais do que isso (“As pessoas só querem falar daquelas que lhes escaparam / Parece que me calham sempre as que querem ficar(…) Tu não tens de passar a tua vida comigo / Eu só quero o teu corpo junto ao meu”). Caso alguém se tivesse esquecido, a voz sempre sedutora por cima de uma faixa pop contagiante avisa: The Weeknd não é homem de casos sérios.

Um Starboy também se apaixona

KEVORK DJANSEZIAN / GETTY

“Stargirl interlude”, curto demais mostrar a beleza da participação de Lana del Rey e da textura da sua voz, parece começar a ser preparado pelas histórias que o Starboy canta em faixas anteriores como “Secrets” ou “True Colors”. Nesta última, Abel parece render-se às evidências – afinal, parece que ele também se apaixona – e esclarece, como numa pausa para deixar respirar quem ouve o disco todo seguido: “Mostra-me as tuas cores verdadeiras / Estas são as perguntas do teu amante novo”.

Se conhecemos um The Weeknd inusitadamente romântico em faixas como “Die for You” ou “I feel this coming” (esta última uma mistura de música house e pop dos anos 1980 e um dos sons mais refrescantes de todo o disco, de novo com a ajuda dos Daft Punk), também voltamos recorrentemente ao tema da fama e da crise de identidade que Abel parece estar a percorrer, sem certezas de estar a gostar ou a detestar a sua subida ao trono de novo rei da R&B (ele que mexe em tantos géneros, tantas influências, de Bowie – a quem diz dever-se o nome do álbum, em homenagem a “Starman” - a Michael Jackson passando por The Smiths, e que é capaz de nunca ter cabido bem nesse molde).

A maior pista chega com “Reminder”, a quarta faixa do álbum, uma nota de aviso útil sobre o Abel que mantém os pés na terra e recorda as suas origens, perplexo com as proporções da fama que atingiu – mesmo que muitas vezes esteja satisfeito com isso. Num ataque direto aos prémios do público adolescente Teen Choice Awards, o artista mostra a sua estupefação com o sucesso que o seu grande hit “I can’t feel my face” faz entre os mais novos, tendo em conta que a letra foca obviamente o vício da cocaína (“Sei que ela vai ser a minha morte (…) Pelo menos seremos ambos bonitos e ficaremos para sempre jovens / Não consigo sentir a minha cara quando estou contigo, mas adoro”). “O homem dos discos toca a minha canção na rádio / Estás a tentar demasiado encontrar uma alma com olhos azuis / Eu deixo o meu cabelo negro crescer e fumo a minha erva”, declara diretamente à fama mainstream que atingiu, acrescentando então: “Acabei de ganhar um novo prémio num espetáculo de miúdos / A falar de ficar com a cara dormente por causa de tomar drogas / Eu não sou um Teen Choice”.

BRYAN STEFFY / GETTY

Uma das mais icónicas faixas do álbum faz-se com a participação de Kendrick Lamar, numa parceria certeira em que The Weeknd volta a mostrar que consegue avaliar o que está à sua volta e recordar o lugar de onde veio, neste caso a cidade de Toronto em que cresceu com a sua mãe, uma emigrante etíope, abandonado pelo pai quando não passava de uma criança. Em “Sidewalks”, um hino às ruas da cidade que o viu crescer, Abel recorda: “Gastei todas as minhas lágrimas quando tinha 18 anos / Por isso, foram as ruas que me fizeram / Demasiadas pessoas acham que me fizeram / Cresci sem pai, por isso nunca me chamaram filho”. “Sem abrigo até à lista da Forbes”, Abel, por entre raros picos de guitarra elétrica, explica que esses passeios de Toronto lhe salvaram a vida: “Eles não me mentem / Mostraram-me todos os sinais”.

Mesmo com a redenção que faixas como “Sidewalks” e “Reminder” trazem, há momentos em que é difícil acreditar que Abel não esteja efetivamente a encaixar no molde de estrela da pop mainstream que os tops lhe colaram, com a ajuda do produtor Max Martin - que agora o acompanha. “Starboy” não é um álbum especialmente inovador, no som e nos temas que trata; os versos cantados por Abel são sempre eficazes, mas nem sempre soam genuínos e por isso acabam por ser frequentemente condenados a canções pop orelhudas e não a grandes êxitos como tantos críticos anteviam para ele no pós-“Beauty Behind the Madness”, o álbum de 2015 que lhe trouxe sucesso à escala mundial.

“The Weeknd passou nos últimos anos de ser o obscuro dono do deboche e do pecado a ser o brilhante dono do deboche e do pecado”, escreve o “New York Times” sobre os últimos dois anos da carreira de Abel, sem certezas sobre o caminho que o artista decidirá tomar – o do conformismo ou do risco de uma arte nova. Afinal, ser um artista de R&B – embora numa transição para uma pop mais mainstream – em 2016 é difícil: depois de tantos dos seus pares (de Beyoncé à irmã Solange, de Kanye a Frank Ocean) terem apostado em trabalhos inovadores, que quebram barreiras de género e destroem os rótulos até aí impostos, “Starboy” acaba por soar a um bom álbum pop, contagiante e sexy como é costume de Abel, mas dificilmente um álbum definidor ou com o estatuto de pioneiro que tantos desejam ver confirmado.