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À procura de Maria

tiago miranda

Esta sexta-feira foi inaugurada uma exposição inédita, onde 25 artistas se juntaram em torno da figura da mãe de Cristo para refletir o sagrado na arte contemporânea

Ana Soromenho

Ana Soromenho

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Na sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, à Rua da Alfandega, o barulho insistente de uma picareta sobrepõe-se à voz do padre Mário Rui Pedras. Há várias semanas que as obras tomaram conta das entranhas desta igreja — que foi a primeira Casa da Misericórdia em Lisboa e a única da Baixa que sobreviveu parcialmente ao terramoto de 1755 e ainda conserva a sua fachada manuelina —, enchendo de pó e ruído os seus corredores. As obras estão quase a terminar, e esse momento coincidirá com a inauguração de uma exposição de artistas portugueses que irá encher de ressonâncias contemporâneas o espaço renovado da igreja. O acontecimento, aparentemente inusitado, tem um contexto, e era sobre ele que nos falava o padre Mário Rui quando foi interrompido pelo barulho das máquinas: as celebrações dos 300 anos do Patriarcado de Lisboa e os 100 anos de Fátima, que irão decorrer em maio de 2017. “Um momento único na história do nosso Patriarcado”, explicava o padre. “Para o assinalar vamos receber uma exposição que depois será oferecida a Fátima. Mas o tema não se circunscreve a Nossa Senhora de Fátima.”

O tema é Maria. “Mater Dei”, assim se chama a mostra, e merece reflexão. Foi em redor desta referência matriz da cristandade que foram convocados vários artistas. Vinte e cinco aceitaram. A exposição inclui pintura, desenho, escultura e cerâmica, e a ideia partiu de um trio de fiéis que já há alguns anos trabalha em adventos da Igreja — a jornalista Maria João Avillez, o economista Francisco Noronha de Andrade e o padre Mário Rui Pedras —, ao qual se juntaram Maria da Graça Carmona e Costa, da Fundação com o mesmo nome e do Espaço de Arte Contemporânea (EAC), e o curador e artista Manuel Costa Cabral. Há um ano que preparam a exposição, que na esta sexta-feira (dia 25) abriu portas ao público

Renovação. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha é a única da Baixa que conserva a fachada manuelina de origem e a capela-mor renascentista que sobreviveu ao terramoto de 1755

Renovação. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha é a única da Baixa que conserva a fachada manuelina de origem e a capela-mor renascentista que sobreviveu ao terramoto de 1755

tiago miranda

Atravessamos a capela e entramos numa sala acabada de pintar, a única que já tem peças instaladas. Paredes brancas, chão de mármore. É um espaço despojado que contrasta com uma certa exuberância barroca que cobre os revestimentos da igreja, restaurada no século XVIII. Visitámos parte da exposição na companhia de Mário Rui Pedras e de Manuel Costa Cabral, que coordena a montagem. É ele quem nos informa: “Todos foram solicitados a produzir trabalhos sem estarem sujeitos a qualquer espécie de limitação. Há obras de diferentes intensidades e interioridades, muitos afirmaram-se agnósticos, não crentes, outros reclamaram-se crentes e até católicos. O mais interessante será perceber a diversidade e as interrogações que uma exposição atravessada por este tema coloca sobre os artistas e o sagrado, as relações entre a Igreja e a arte contemporânea, e como é que isto tudo pode funcionar.” Num catálogo que irá acompanhar a exposição serão incluídos textos de personalidades da cultura e da teologia, no sentido de promover uma reflexão sobre as relações da arte com o sagrado nos nossos dias, e foi pedido aos artistas que escrevessem um texto a explicar a origem de cada peça e de obras evocadas no trabalho.

Que rosto tem Maria?

Em cima de uma prateleira em madeira, uma escultura moldada em gesso recortado em forma de manto apresenta totalmente oco o seu interior. É uma “Mater Dolorosa”, assinada pelo escultor Rui Sanches, que partiu desta figura canónica da representação do sofrimento para trabalhar plasticamente a evocação do rosto vazio, que aqui ganha uma força estranha ao ser materializado pela ausência. Parado em frente à escultura, Mário Rui, o padre, interpreta a metáfora que transporta o rosto da Virgem e a força que esta ausência evoca no mistério da matriz cristã, comparando-a com outra peça, de Maria José Oliveira. É uma túnica feita em tripa, cânhamo, algodão e tarlatana, pendurada num cabide, que cobre a parede da sala, evocando também, pela ausência do corpo no vestido despido, o mistério da Ascensão. Ao lado, dois desenhos simétricos de uma figura de mulher, nua, grávida, unem-se por um cordão simbólico de sangue. Num dos desenhos escritos à mão lê-se a frase: “havia dois frutos: uma criança e uma morte”. A frase, inspirada nas palavras do poeta alemão Rainer Maria Rilke, contém a chave do enigma. Foi a partir dele que Rui Chafes, o autor deste díptico, trabalhou um dos dogmas maiores do culto mariano: a conceção de Cristo no ventre da Virgem, que será, tal como nos esclarece o artista, o mistério fundador do cristianismo: “A Virgem Maria transporta em si o mistério duplo da imaculada conceção e da morte anunciada, desde o início, como forma de salvação. Quem tem tanta coragem para trazer ao mundo esse anúncio de luz em forma de condenação?”, escreve Chafes no texto do catálogo, acompanhado de uma imagem do “Evangelho segundo São Mateus”, de Pasolini, onde se inspirou para a sua virgem.

CONTEMPORÂNEOS. Mário Rui Pedras vendo obras de Manuel Baptista, Manuel Amado, Maria José Oliveira, José de Guimarães e (em baixo) Jorge Martins

CONTEMPORÂNEOS. Mário Rui Pedras vendo obras de Manuel Baptista, Manuel Amado, Maria José Oliveira, José de Guimarães e (em baixo) Jorge Martins

tiago miranda

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A mesma ideia de nascimento e morte estão unidas num desenho de grandes dimensões do pintor Jorge Martins, onde a Virgem segura o filho que acabou de nascer e, simultaneamente, tem no colo o filho morto. “É uma imagem que eu nunca tinha visto representada em toda a história da arte”, refere Manuel Costa Cabral. Para esta “Stabat Mater”, o pintor Jorge Martins, que se revela ateu mas considerou irrecusável o desafio de fazer um trabalho sobre a mãe de Jesus, conta que fez um desenho como “para ilustrar um livro de catequese”. Partiu de algumas das referências iconográficas e memórias dos seus dias de criança passados no Museu Nacional de Arte Antiga e misturou numa só imagem “o corpo de Cristo numa descida da cruz de Rogier van der Weyden que está no Prado e a mãe que dá o peito ao bebé que vem duma pintura do Museu de Arte Antiga hoje atribuída ao ateliê de Gerard David.”

Um sopro dA história

“Muitos artistas foram buscar referências à história da arte, e esta ponte pode ser interessante para o público. Como é que uma peça feita no passado pode inspirar e ser interpretada hoje? Como é que essa ponte se faz?”, interroga Costa Cabral, que também participa na exposição com uma pintura inspirada no anjo Gabriel do filme “As Asas do Desejo”, do realizador alemão Wim Wenders.

Anunciação, conceção, nascimento, morte, assunção... O coração da humanidade cristã moldou-se em alguns destes dogmas, que durante séculos marcaram a representação da arte na cultura ocidental. “A história da arte existe precisamente porque, ao contrário do judaísmo e do islamismo, a Igreja Católica permitiu que houvesse imagens. A possibilidade de representar Cristo dá-se na consciência que o cristianismo tem da noção de encarnação”, explica o filósofo e professor de estética Paulo Pires do Vale. “Esta é a origem da nossa relação com a imagem, e é fundamental para se compreender toda a história da arte no Ocidente. Se formos ao Museu de Arte Antiga, por exemplo, verificamos que noventa por cento das obras provêm de um contexto religioso. A Igreja como patrono foi determinante para que todos — Giotto, Piero Della Francesca, Michelangelo, Da Vinci, entre tantos outros — realizassem obra. Entre todas as figuras bíblicas, Nossa Senhora e Jesus serão seguramente as mais representadas”, reflete Pires do Vale. Maria é transversal. Tem o papel de intermediária entre Deus e os homens. “Ao longo da História, essa iconografia — mesmo durante o século XX, onde houve um divórcio entre a arte e a Igreja — é referenciada de múltiplas formas, seja em obras de artistas seja no cinema.” E o que nos comove tanto em Maria? “Aceita o mistério da fecundação divina e carrega nos braços um Deus menino que nasce num contexto de adversidade. Dá à luz numa manjedoura e acompanha o filho até à morte. A imagem da ‘Pietà’, que é a da dor tremenda de perder um filho, toca-nos a todos. O que nos comove em Maria é a sua imensa humanidade.”

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 19 de novembro de 2016