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O passado 
em caixa

FOTO Andrew Whittuck/Redferns/Getty

A maior abertura de sempre dos arquivos dos Pink Floyd: “The Early Years 1965-1972”

A caixa parece a estilização de um antigo furgão Bedford preto com uma faixa branca pintada de lado, mas, visto o seu conteúdo, é na verdade uma Arca da Aliança com os extras, sobras inéditas e versões até aqui apócrifas dos Dez Mandamentos. Cinco décadas passadas desde o primeiro gesto de criação, ficamos finalmente com mais elementos para compreender melhor os primeiros oito anos do Génesis de um mundo chamado Pink Floyd. 25 horas de som e imagem que ajudam a definir os contornos de uma música cuja forma ninguém conseguiu fixar. Esta não é apenas a mais fundamental edição de 2016, é um dos acontecimentos culturais das últimas 51 órbitas da Terra em redor do Sol.

No livro “Inside Out”, publicado em 2004, Nick Mason revela fotos do seu arquivo pessoal que registam momentos do período de formação dos Pink Floyd. Foi a primeira vez que um produto oficial referiu outros músicos que tocaram com Mason, Roger Waters, Rick Wright e Syd Barrett. Em duas dessas imagens de 1964 aparece um elemento que, desde o passado dia 11, se tornou um dos mais importantes ícones associados ao grupo: um Bedford Dormobile preto com uma faixa branca vertical pintada desde o tejadilho até ao guarda-lamas traseiro. Numa das fotos, à porta da casa da mãe de Roger Waters, em Cambridge, os Tea Set posam junto ao veículo: Bob Klose, Rick, Roger, Chris Dennis e Mason. Dennis, que era o vocalista, saiu para dar lugar a Barrett. Klose, o guitarrista, ainda se aguentou até ao verão de 65, tempo suficiente para tocar nas primeiras gravações de sempre desta história.

Quando terminou a campanha de reedições “Why Pink Floyd...?”, em fevereiro de 2012 — colocando no mercado o fundo de catálogo do grupo e três caixas contendo “The Dark Side of the Moon”, “Wish You Were Here” e “The Wall” acompanhados por uma inédita montanha de extras —, a pergunta que mais vezes Nick Mason ouviu foi “qual a caixa que se segue?”. Desde então, as novidades foram tão espetaculares (ao ponto de incluírem mais um álbum de estúdio, “The Endless River”, em novembro de 2014) que o assunto quase foi esquecido. Mas há um ano tivemos a aparição surpresa do duplo single ‘1965 (Their First Recordings)’, o que permitia supor que o arquivo dos primeiros anos do conjunto estava pronto para edição e que esse lançamento fora forçado pela renovação dos direitos conexos que expiravam ao fim de 50 anos. O tempo ia passando, o preço desses discos (1050 exemplares) rapidamente disparou para 200 a 300 euros, até que em julho passado tivemos a confirmação oficial: a caixa “The Early Years 1965-1972”, um luxuoso objeto de 500 euros, tinha edição agendada para 11 de novembro.

O que temos à nossa frente é a maior abertura de sempre dos arquivos dos Pink Floyd: 11 CD, 9 DVD e 8 Blu-ray, mais os habituais complementos deste género de edições — réplicas de prensagens originais dos cinco primeiros singles e 42 peças de memorabilia (a edição japonesa tem um livro extra). Os discos vêm divididos em sete volumes em formato de livro, que, à exceção do sétimo, serão no próximo ano postos à venda individualmente. Tudo com um design inspirado na Bedford e na sua barra branca (até os títulos dos volumes são quebrados por uma /). Também no passado dia 11 saiu uma coletânea em 2 CD, “The Early Years 1967-1972 — CRE/ATION”, com 27 faixas retiradas da caixa (incluindo 19 das inéditas).

Os conteúdos vão de 1965 a 1972, mas há pontas soltas: três vídeos de 1973 e uma gravação ao vivo inédita de ‘Echoes’ em Wembley, em 1974. Além dos nossos destaques na página seguinte, estão cá os seis temas dos singles dos Tea Set (quatro de Barrett, ‘Lucy Leave’, ‘Double O Bo’, ‘Remember Me’ e ‘Butterfly’, um de Waters, ‘Walk with Me Sydney’, e ‘I’m a King Bee’, de Slim Harpo); inéditos de Barrett de 67, como ‘In the Beechwoods’ (no qual a voz não chegou a ser gravada), ‘Vegetable Man’ e ‘Scream Thy Last Scream’ (com Nick Mason a cantar); muitos vídeos do grupo a tocar no UFO, em Londres; versões ao vivo de outros inéditos, como ‘Reaction in G’ (alegado protesto contra a pressão de público e promotores para tocarem o último single em vez das longas improvisações a que cada vez mais se dedicavam), ‘Baby Blue Shuffle in D Major’ e um ‘Blues’ com 5 minutos; takes inéditos (‘Song 1’ e ‘Song 2 — Roger’s Boogie’, gravados em 68 nos estúdios da Capitol, em Los Angeles; ‘Nothing Part 14’, um antepassado de ‘Echoes’, de janeiro de 71, em Abbey Road); improvisações várias; atuações e entrevistas na TV (destaque para o playback de ‘Apples and Oranges’ em “American Bandstand”, em Los Angeles, a 7/11/67, ou para o pouco que se salvou da ida ao “Top of the Pops” de 6/7/67); videoclips (‘Arnold Layne’, ‘Point Me at the Sky’, ‘Jugband Blues’, ‘Corporal Clegg’); filmes (“The Committee”/“O Comité”, legendado em português, “More” e “La Vallée”, ambos indesculpavelmente sem legendas); temas extra da banda sonora de “More”; fotos e um pequeno documentário sobre as gravações de “Obscured by Clouds” no Château d’Hérouville; quase toda a música (estranhamente ficou de fora ‘Mademoiselle Nobs’) de “Live at Pompeii”, remisturada em 2016 para 5.1 (a acompanhar as imagens em DVD/Blu-ray) e para estéreo (em CD, com uma versão extra de ‘Careful with that Axe, Eugene’); e ainda uma imensa recolha de gravações áudio e vídeo da BBC (a principal fonte de polémica da edição: como as matrizes das sessões de 67 se perderam, a estação adquiriu nos anos 90 gravações que ouvintes tinham feito a partir do rádio, e são essas que esta caixa usa; acontece que surgiram recentemente duplicados das matrizes feitos na altura por funcionários da casa para uso privado e cuja qualidade é incomparavelmente melhor. Na passada semana, Andy Murray, manager de David Gilmour, disse-nos que têm surgido tantas pessoas a disponibilizar gravações que é muito provável que venham a avançar para um disco de “BBC Sessions”).

Temos também “Atom Heart Mother” na mistura quadrifónica de 1970, nunca reeditada (DVD/Blu-ray áudio), ‘Echoes’ na mistura quadrifónica original que estava inédita desde 1971 (DVD/Blu-ray áudio) e “Obscured by Clouds” numa remistura estéreo de 2016 (CD). Nos sites de fãs corre o rumor de que o engenheiro Andy Jackson teria misturado “Obscured by Clouds” e “Meddle” em 5.1 mas que Waters e o engenheiro James Guthrie as tinham vetado. Na passada semana, um dos primeiros compradores da caixa revelou num fórum que descobriu escondida no Blu-ray de 1971 a versão 5.1 de “Meddle”, sobre a qual não há qualquer referência na edição — será que “Obscured” também anda por lá? (Atenção que o CD de Pompeia vem solto na embalagem, fora da caixa, o que indica uma confusão de última hora — a sua existência foi anunciada no primeiro press release de julho, depois desapareceu da lista de conteúdos, até que, no passado dia 5, em comunicado, se viu transformado em “bónus”).

“The Early Years 1965-1972” permite-nos completar o percurso dos Pink Floyd desde a sua formação até aos tempos de “The Dark Side of the Moon” e da sua afirmação como a maior banda de rock do mundo. 13 versões de ‘Set the Controls for the Heart of the Sun’ (1968), 11 de ‘A Saucerful of Secrets’ (1968), 14 de ‘Careful with That Axe, Eugene’ (1968) e 13 de ‘Atom Heart Mother’ (1970) dão-nos uma panorâmica única da evolução da banda como força coletiva — três são assinadas pelos quatro (‘Atom’ com Ron Geesin) e ‘Set the Controls’ foi escrita por Waters mas é uma espécie de passagem de testemunho, pois é o único tema que reuniu em estúdio Gilmour e Barrett.

Complemente-se isto tudo com a campanha em curso de publicação dos 15 álbuns de estúdio remasterizados e em vinil de 180 gramas e com a grande exposição “Their Mortal Remains”, que irá estar no Victoria and Albert Museum, em Londres, entre 13 de maio e 1 de outubro de 2017. Terá 350 peças expostas e uma forte componente audiovisual, pois, ao contrário de David Bowie, os Pink Floyd têm mais porcos insufláveis do que fatiotas de palco (depressa trocaram as camisas de caxemira das boutiques de Carnaby Street por uma t-shirt rota do Festival de Jazz de Montreux).

Terminamos com a gravação mais recente da caixa, ‘Echoes’ ao vivo em Wembley a 16 de novembro de 1974. Em 2011, o total do concerto gravado pela BBC Radio foi distribuído pelas edições expandidas de “The Dark Side of the Moon” e “Wish You Were Here”, exceto o encore, ‘Echoes’, que ficou para a caixa seguinte — é a peça que completa o puzzle e fecha este ciclo de reedições.

Alguns atalhos para caçadores de tesouros

“the look of the week” (14/5/1967)
Vol. 1 — 1965-67 CAMBRIDGE ST/ATION — DVD/Blu-ray

Dois dias depois de os Pink Floyd conquistarem público e crítica nos Games for May, no Queen Elizabeth Hall, um dos mais famosos musicólogos e críticos de música clássica do país, Hans Keller, emboscou-os no seu programa na BBC TV para os ‘desmascarar’ em público. Diz que são chatos, barulhentos, que não são suficientemente músicos, “mas como têm um público talvez a culpa seja minha por não os apreciar”. Waters e Barrett aguentam-se na entrevista com uma candura desarmante.

“tomorrow’s world” (12/12/1967)
Vol. 1 — 1965-67 CAMBRIDGE ST/ATION — DVD/Blu-ray

Mike Leonard, tutor no Politécnico e inventor de projetores de luz, tinha uma casa em Stanhope Gardens onde viveram Roger, Nick, Syd e Rick e que foi o primeiro local de ensaios do grupo. Em 1967, a BBC TV foi lá fazer uma peça sobre as máquinas de Mike, com os Floyd a tocar no canto da sala. Uma reportagem sobre cor mas a preto e branco, que antevê que, “no futuro, em vez de comprarem quadros para decorar as casas, as pessoas podem investir num projetor que faça padrões de luz em constante mudança”.

‘Interstellar Overdrive’ com Frank Zappa (25/10/1969)
Vol. 3 – 1969 DRAMATIS/ATION – DVD/Blu-ray

A editora BYG Actuel organizou em Amougies, Bélgica, um festival de “pop, free jazz e new music”. Neste vídeo a cores, os Pink Floyd tocam quatro temas. O último é uma versão de 11 minutos de ‘Interstellar Overdrive’ com Frank Zappa (um dos apresentadores do festival) na guitarra. Escreveu o enviado do “Melody Maker”: “Pink Floyd – finalmente algo comparável a ‘2001’ [de Kubrick]. Frank Zappa aceitou o desafio de se juntar a eles em ‘Interstellar Overdrive’ e novas galáxias foram descobertas.”

Pink Floyd Ballet (22 e 26/11/1972 e 12/1/1973)
Vol. 6 — 1972 OBFUSC/ATION — DVD/Blu-ray

A colaboração com o coreógrafo Roland Petit originou 13 espetáculos em Marselha e Paris (de 22/11/72 a 4/2/73). O Ballet de Marselha dançava com a banda a tocar ‘One of These Days’, ‘Careful with That Axe, Eugene’, ‘Obscured by Clouds’, ‘When You’re In’ e ‘Echoes’. Não temos o ballet completo, mas quatro reportagens televisivas com boas imagens e uma misteriosa revelação: “Os Pink Floyd criaram uma partitura de 40 minutos chamada ‘À Corps Perdu’, uma espécie de apocalipse sonoro.”

‘John Latham’ (20/10/1967)
Vol. 1 — 1965-67 CAMBRIDGE ST/ATION — CD 2

Meia hora de música gravada nos estúdios De Lane Lea para “SPEAK” (disponível no Vimeo), uma animação abstrata a cores, com 11 minutos e efeitos estroboscópicos, criada em 1962 pelo artista conceptual John Latham (1921-2006). O seu espólio inclui um press-release que conta que fez “filmes rítmicos” que eram projetados em concertos dos Pink Floyd. “O filme e a música estavam em contraponto natural, não necessitando de sincronização, um sentido mais tarde desenvolvido pelo grupo. Contudo, quando os Floyd fizeram uma proposta de banda sonora para ‘SPEAK’, Latham rejeitou-a e usou uma feita por si com o som de uma serra circular.”

‘the man’/’the journey’ (14/4 e 17/9/1969)
Vol. 3 — 1969 DRAMATIS/ATION — DVD/Blu-ray e CD 2

A dupla suíte ‘The Man’ e ‘The Journey’, composta a partir de músicas antigas, algumas inéditas e outras que acabariam em “More” ou “Ummagumma”, narra, num concerto encenado, 24 horas na vida de um homem e os desafios que enfrenta ao longo da sua existência. Foi estreada a 14 de abril no Royal Festival Hall. O vídeo a preto e branco, com 14 minutos, dos ensaios no dia da estreia revela Waters no comando das operações e Rick a tocar ‘The End of the Beginning’ no órgão de tubos. No CD temos pela primeira vez uma gravação completa: 76 minutos em Amesterdão, no penúltimo concerto da digressão.

‘Moonhead’ (10/7/1969)
Vol. 7 — 1967-72 CONTINU/ATION — CD

Seis dias antes da contagem decrescente para Neil Armstrong, Michael Collins e “Buzz” Aldrin partirem em direção à Lua, os autores de ‘Interstellar Overdrive’ foram chamados à BBC TV para gravar uma improvisação com vista a ser usada num dos muitos programas com que a estação iria fazer a cobertura da missão da “Apollo 11”. ‘Moonhead’, com 7 minutos, seria transmitida a 20, o dia da alunagem, musicando o documentário “So What If It’s Just Green Cheese?”, com os atores Ian McKellen e Judi Dench.

inéditos de “Zabriskie Point” (11 e 12/69 e 1/70)
Vol. 4 — 1970 DEVI/ATION — CD 2

Dois meses em Roma a gravar música para “Zabriskie Point” (“Deserto de Almas”, 1970), de Michelangelo Antonioni, que se entretinha a rejeitar tudo o que lhe mostravam. “Queixava-se que a música assoberbava as imagens. Discretamente, juntámos as sobras. Decerto que irá surgir a oportunidade para as usar” (Mason, 2004). No filme só entraram três músicas (12 minutos) dos Floyd. Em 1997, uma reedição da banda sonora revelou 24 minutos de outtakes. Acrescentam-se agora 47 minutos de inéditos.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 19 de novembro de 2016