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Jane Austen comentadora política?

EMBLEMÁTICA. Os correios britânicos emitiram selos alusivos aos seis romances de Jane Austen

Ver além do óbvio na obra de uma das escritoras mais famosas do mundo é a proposta que trazemos esta semana

Se há escritora a que os ingleses e o mundo não se cansam de regressar, é Jane Austen. Os seis romances que deu à estampa já geraram pelo menos 30 adaptações cinematográficas e televisivas, a mais recente das quais chegou este ano ao grande ecrã (“Amor e Amizade”, baseado na novela “Lady Susan”). Há que somar-lhes adaptações mais livre, encenações no palco e obras sobre a própria Austen, que, pasme-se, surge até como narradora de um videojogo.

Tanta iteração leva, contudo, à perpetuação de mitos, mais do que a uma melhor compreensão de quem foi esta mulher. Quase 200 anos após a morte da escritora, quando o Reino Unido está prestes a incluir a sua imagem na nova nota de 10 libras, novos livros tentam perceber o sentido último da sua obra. Para Helena Kelly, doutorada em literatura inglesa, Austen é uma perspicaz observadora dos assuntos políticos do seu tempo (viveu de 1775 a 1817). Preferia, por isso, que o Banco de Inglaterra tivesse optado por uma imagem menos “idealizada”: a uma campanha para que mais mulheres aparecessem nas notas, seguiu-se um retrato ameno e idílico, com expressão passiva e, em pano de fundo, uma mansão onde Austen não viveu.

PASSIVA. A autora do livro não gostou do retrato de Austen na nova nota de 10 libras

PASSIVA. A autora do livro não gostou do retrato de Austen na nova nota de 10 libras

Kelly quer desfazer o mito, escreve “The Guardian”. Garante que Austen tinha ideias políticas “radicais” e que, se elas não são declaradas na sua ficção, isso se deve ao período agitado em que viveu. Durante a vida da autora de “Orgulho e Preconceito” ocorreram as grandes revoluções do Iluminismo (americana e francesa) e a Inglaterra esteve envolvida em guerras várias. O livro de Kelly descreve um país quase totalitário, em que o confronto militar era pretexto para coartar liberdades e levar a cabo perseguições paranoicas.

Kelly garante que os romances de Austen têm sido “profundamente e quase universalmente incompreendidos” pelos que os consideram terreno seguro, propício a escapar a tempos incertos com narrativas mansas e conservadoras. Identifica uma crítica à escravatura em “Mansfield Park”, uma reflexão sobre a importância do dinheiro em “Sensibilidade e Bom Senso”, a antevisão do colapso de uma sociedade em “Persuasão”, as agruras da vida real em “Emma”, além de uma denúncia geral do estatuto da mulher. As desigualdades da sua era estavam a milhas das que, desgraçadamente, hoje persistem.

Não é a descoberta da pólvora...

“The Guardian” assegura que Kelly não descobriu a pólvora, já que a consciência social e política de Austen é conhecida há muito e até objeto de discussão entre os que a consideram mais radical ou mais conservadora (um livro de há 30 anos chamava-lhe anti-jacobina). O jornal também considera especulativas algumas comparações e alusões, a mais arrojada das quais equipara a abertura de um armário a gestos de masturbação feminina e lastima que, na ânsia de detetar factos desconhecidos, a autora salte por cima de indícios mais sólidos.

SOCIEDADE. Ilustração de “Sensibilidade e Bom Senso”; Austen retratou as desigualdades do tempo em que viveu

SOCIEDADE. Ilustração de “Sensibilidade e Bom Senso”; Austen retratou as desigualdades do tempo em que viveu

Isso não impede a obra de contribuir para uma perceção mais justa e menos frívola de Austen: “O casamento no tempo de Jane implicava que uma mulher entregasse tudo ao marido: o dinheiro, o corpo, a sua própria existência como adulto com direitos legais. Os maridos podiam bater nas mulheres, violá-las, aprisioná-las, tirar-lhes os filhos, tudo dentro dos limites da lei”, escreve Kelly. Vistas como procriadoras, cumpriam essa função com risco da própria vida, pois “quase todas as famílias tinham a sua história de morte maternal”.

“Jane Austen, the secret radical”, Helena Kelly, Icon Books, 304 páginas, £13,60 (€15,8)

“Jane Austen, the secret radical”, Helena Kelly, Icon Books, 304 páginas, £13,60 (€15,8)

Feitas as contas, o livro parece resgatar uma das autoras mais populares do mundo da visão “calma e despreocupada” que iludiu gente da craveira de Winston Churchill. Elogiando a “precisão” de algumas das leituras de Kelly, “The Guardian” aponta o medo da guerra, o efeito da privatização de terrenos públicos, a miséria e a desigualdade como resultados de um “trabalho de detetive” meritório.