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Ian Kershaw:“Hoje temos, talvez, 
duas grandes potências 
e meia”

Ulrich Baumgarten/Getty Images

Conhecido pela sua monumental biografia de Adolf Hitler, o historiador está atualmente a escrever uma história do século XX. O primeiro volume saiu agora em Portugal, o segundo e último ainda está em elaboração

Luís M. Faria

Jornalista

Descreve a Segunda Guerra Mundial como o evento central do século XX. Há uns anos, a propósito do aniversário da Primeira, falou-se desta como o elemento principal, ou gerador, do século. Acha que existe a possibilidade de uma guerra a uma escala comparável no século em que nos encontramos?
O futuro está sempre em aberto. Se houver uma terceira guerra mundial, porém, não será lançada na Europa. Acho que podemos dizer isso com tranquilidade. Não podemos é garantir que um enfrentamento entre superpotências jamais resultará num novo conflito mundial.

A existência de armas nucleares é o fator mais decisivo para evitar isso.
Sim. O meu livro termina em 1949, com a primeira explosão soviética de uma bomba atómica. E eu digo que estamos a entrar numa nova era. A presença de armas nucleares ajuda a manter a paz. Haver armas nucleares faz com que os países pensem duas vezes, três, quatro, antes de se colocarem numa situação em que elas tenham de ser usadas. Toda a gente percebe o desastre apocalíptico que seria. Assim, ninguém se precipita para uma guerra, como aconteceu nos anos 30 e antes da Primeira Guerra Mundial.

Que comentário lhe merece a situação atual entre a Rússia e a Ucrânia? Obviamente, também é, em parte, um efeito indireto da Segunda Guerra.
E do colapso do império soviético entre 1989 e 1991. Putin, o que quer que pensemos dele, não é nenhum Hitler. Tanto quanto vejo, não tem aspirações a expandir-se pela Europa fora. A minha leitura de Putin e da sua abordagem à Ucrânia e a anexação da Crimeia é que ele quer reconstituir um sentido de orgulho soviético, perdão, russo, após a humilhação sofrida em tempos recentes. Quer restabelecer controlo sobre a chamada esfera de influência russa, enviando aos poderes ocidentais uma mensagem de que a Rússia está outra vez no mapa e eles não devem avançar mais na sua direção. Na Ucrânia, as suas ameaças visam evitar a possibilidade de esse país se tornar membro da NATO ou da União Europeia. São medidas defensivas, também concebidas para mostrar à sua população doméstica que a Rússia pode voltar a comportar-se como uma superpotência.

Que medida de culpa tem a NATO, e especificamente os Estados Unidos, em toda a situação?
Bom, a NATO, através do seu impulso para avançar a leste — que se limitou a cumprir o desejo dos estados bálticos, os quais sofreram bastante às mãos dos soviéticos — fez sem dúvida os líderes russos sentirem que tinham de fazer alguma coisa para reforçar a sua posição na sua zona da Europa. Mas é um erro dizer que a NATO tem responsabilidade. Putin é responsável pelas suas próprias ações. O movimento da NATO em direção a leste ajudou a provocar essa reação da Rússia.

Se estivesse a escrever retrospetivamente sobre a situação — e não sei até onde irá o seu segundo volume da sua História da Europa — acha que será possível atribuir culpas a diversos atores, como muitas vezes se faz em relação à Primeira Guerra Mundial?
Espero que sim. Ainda não cheguei lá, mas o segundo volume virá até aos dias de hoje. O ‘Brexit’ e as suas consequências serão provavelmente um fim adequado. Quando chegar a esse ponto, explorarei muito mais profundamente as questões envolvidas, e tentarei fazer o que fiz com a Primeira Guerra Mundial.

Neste momento, ainda não há nada que possa dizer sobre aquilo que o Ocidente ou a NATO devessem ter feito de modo diferente?
Gostava de voltar a falar consigo sobre o assunto quando acabar de escrever o último volume. De momento, e falando na perspetiva de um espectador interessado, eu diria que o Ocidente respondeu a desenvolvimentos naquela zona, em particular nos Estados bálticos. Podemos apontar erros nisto ou naquilo, mas, como disse, a responsabilidade pelos atos jaz na pessoa que os pratica. Isto é, em Putin.

Nos discursos dele, surgem às vezes referências a coisas que os americanos fizeram ou disseram naqueles anos a seguir ao fim da URSS. Por exemplo, aquele discurso da então secretária de Estado Madeleine Albright em que ela chamou aos Estados Unidos “a nação indispensável” (“the one indispensable nation”). Putin critica os países que se descrevem a si mesmos como excecionais e únicos.
Também há aqueles documentos estratégicos onde os EUA afirmam o objetivo de manter o domínio militar total em todas as áreas e evitar que qualquer potência regional se torne demasiado dominante seja onde for.Sim. Em relação àquelas afirmações demasiado confiantes que referiu, não foi muito esperto fazê-las. De todo. O facto é que, após 1991 e durante mais de uma década — até aos ataques do 11 de Setembro nos EUA — tivemos um mundo unipolar. A América sentiu-se livre para fazer o que queria. E cometeu erros, ela e o Ocidente em geral, que não teriam sido cometidos se a URSS ainda existisse e houvesse um duopólio de poder. Agora regressámos a uma situação de competição. Os EUA, em muitos aspetos, encontram-se numa posição defensiva. A China é o poder em ascensão, e a antiga União Soviética, agora Rússia novamente, flexiona os seus músculos e quer voltar a ser um grande poder. Hoje temos, talvez, duas grandes potências e meia. O mundo é um sítio mais perigoso. As políticas americanas, apoiadas pela Grã-Bretanha e por outros países, contribuíram para o ataque-resposta de Putin. O qual explora, obviamente, um período de relativa fraqueza no Ocidente, após o desastre no Iraque em 2003, e também no Afeganistão, na Líbia... O Ocidente sofreu alguns importantes reveses na sua estratégia global, e a Rússia tem sabido explorá-los.

Quando se discute a Primeira Guerra Mundial e o caminho que levou a ela, há um sentimento de que a tragédia foi quase um acidente, que se deveu em larga medida ao acaso, e que os protagonistas estavam longe de controlar inteiramente os acontecimentos ou até de os compreender. Isto recorda uma questão mais geral, sobre a importância do fator pessoal na História. Durante bastante tempo, parecia que só as estruturas contavam, que os “grandes homens”, como antigamente se dizia, tinham-se tornado irrelevantes no pensamento histórico. Esse fator está de volta.
Os historiadores, de qualquer período, têm de lidar com a importância relativa do fator pessoal — o papel dos indivíduos cruciais e as determinantes estruturais que os condicionam. O próprio Karl Marx disse que os indivíduos fazem a sua própria história, mas não em circunstâncias por eles escolhidas. Os historiadores têm que ponderar esse equilíbrio. Se virmos o século XX, a Segunda Guerra Mundial, claro que os fatores pessoais foram importantes. Hitler, Estaline, Churchill tiveram um papel fundamental, e seria fútil tentar eliminá-lo. Mas temos de o situar nas circunstâncias em que operavam.