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Cultura

A indolência do poder

GUIMARÃES O Centro Internacional de Artes José de Guimarães sobrevive sem qualquer apoio do Estado e apenas com o financiamento da autarquia local

FOTOS PAULO PACHECO

Há uma certa indolência do poder, benevolamente confundida, por vezes, com preguiça, que desemboca num afunilamento centralista, sem qualquer preocupação com o desenvolvimento das regiões

Guimarães é hoje uma das cidades portuguesas de média dimensão com uma das mais intensas, mais variadas e mais coerentes programações culturais do país. O estatuto de Capital Europeia da Cultura em 2012 surgiu como o corolário natural de um percurso de muitos anos, assente na construção da diferença, na opção pelo risco, na vontade de explorar outros caminhos não radicados na exploração contínua do gosto comum ou já confirmado.

Um dos exemplos maiores dessa opção será o Guimarães Jazz, que assinalou este ano a sua 25ª edição e sempre se distinguiu por uma programação cuidada, com espaço para nomes consagrados do jazz, mas com uma especial apetência para o abrir de portas a novos protagonistas com outras estéticas, outras propostas.

Os Festivais Gil Vicente constituem um especial momento de celebração do teatro numa cidade com uma forte programação na área da dança contemporânea, como em outras artes do palco.

A construção do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), em resultado do restauro do Palácio Vila Flor e dos seus jardins, equipou Guimarães com um auditório com quase 800 lugares e um pequeno auditório com 200 lugares. Inaugurado em setembro de 2005 com um concerto dos Madredeus, o CCVF é já uma referência absoluta no âmbito da programação cultural, com um raio de influência que há muito ultrapassou os limites geográficos do Norte.

O Centro foi o maior investimento da Capital Europeia da Cultura 2012

O Centro foi o maior investimento da Capital Europeia da Cultura 2012

FOTOS PAULO PACHECO

A Capital da Cultura levou uma outra dinâmica à cidade, não apenas no âmbito das atividades culturais, mas com consequências positivas também ao nível dos equipamentos. A obra mais importante foi a reconversão do antigo mercado no Centro Internacional de Artes José de Guimarães. O investimento orçou os €16 milhões, e foi, no essencial, suportado pela Câmara Municipal de Guimarães.

Estruturado à volta das coleções de arte africana, pré-colombiana, arte antiga chinesa e obras de José de Guimarães, inclui a produção contemporânea concebida a partir do próprio Centro. São ali organizadas diferentes exposições temporárias, que podem ir da arquitetura à fotografia, com passagem pelas mais diversas vertentes da arte contemporânea.

Com uma equipa constituída, um programa definido e aberto à produção de obras de diferentes artistas em residência, o Centro padece, no entanto, das dificuldades características de estruturas deste tipo construídas fora dos grandes centros do Porto e de Lisboa, e que o tempo avoluma. Se no início há um compreensível entusiasmo capaz de tudo minimizar, a verdade é que a entrada na velocidade de cruzeiro não é isenta de perigos e crescentes problemas.

O Centro tem uma importante coleção de arte africana

O Centro tem uma importante coleção de arte africana

FOTOS PAULO PACHECO

O maior, o mais decisivo, decorre dos dilemas do funcionamento. Um Centro com esta dimensão e com esta ambição não pode continuar a ser financiado apenas pela autarquia local. Por maior que seja a vontade e a disponibilidade dos eleitos locais – e essa vontade e disponibilidade têm existido – não é razoável admitir ou exigir um continuado esforço financeiro desta dimensão a uma Câmara com tantas respostas para dar em tantas outras áreas.

Acontece, porém, que tem sido essa a realidade do Centro Internacional de Artes José de Guimarães. Notícias recentes dão conta da possibilidade de o estado poder vir a contribuir para o financiamento daquela estrutura. É o mínimo que se pode esperar, em particular quando o Estado está sempre tão disponível para apoiar uma infinidade de equipamentos situados em Lisboa, uma capital já a abarrotar de ofertas culturais nos mais diversos domínios.

Embora em menor escala, o Porto também tem razões de queixa, como se pode ver pela situação pouco favorável em que se encontra a Casa da Música, em resultado dos sucessivos cortes de financiamento, responsáveis por um cada vez maior estrangulamento das possibilidades de programação.

Ainda assim, quer a Casa da Música, quer o Centro Cultural de Belém, duas construções resultantes das capitais da cultura de Porto e Lisboa, recebem, em diferentes escalas, apoio estatal.

Nada disso acontece com o Centro de Artes de Guimarães, não obstante a sua crescente importância na afirmação da criatividade contemporânea em diversificados campos artísticos.

Aspeto de parte da exposição permanente

Aspeto de parte da exposição permanente

FOTOS PAULO PACHECO

O mundo é muito maior que o espaço a que por vezes parece reduzido. E não se trata de olhar com desconfiança para tudo quanto se faz na capital. Não é, sequer, nenhuma forma de despeito, pelo modo como ali tudo parece tão fácil de acontecer. É antes a constatação de uma certa indolência do Poder, benevolamente confundida, por vezes, com preguiça, que desemboca neste afunilamento centralista, sem qualquer preocupação com o desenvolvimento das regiões.