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Foi uma mulher entre homens e deles disse: “Na sua generalidade, amam menos e pior do que nós”

Numa altura em que 82% das mulheres portuguesas eram analfabetas, Cláudia de Campos escreveu e publicou ao lado dos maiores escritores do fim do século XIX. Defendeu a emancipação da mulher e o direito a entrar nos círculos intelectuais, mas sentiu-se sempre muito isolada em Portugal. Cem anos após a sua morte, um congresso em Lisboa quer resgatar do esquecimento a vida e a obra de uma autora singular

Joana Beleza (texto) Diogo Vilhena (vídeo)

Não era fácil encontrar em 1895 uma escritora de romances e ensaios em Portugal, mas seria ainda mais difícil encontrar uma que, num meio cultural absolutamente dominado por homens, escrevesse sem subterfúgios “há muito que formulei este axioma e dele me não desdigo: um homem estúpido é duas vezes mais estúpido que uma mulher que o seja”. Cláudia de Campos fê-lo com a maior das determinações numa revista literária intitulada “A leitura”, onde na décima edição é a única mulher a figurar ao lado de autores como Stevenson, Tolstoi e Mark Twain.

Nascida em Sines em 1859 no seio de uma família abastada, Cláudia de Campos teve uma educação exigente num colégio inglês em Lisboa. Segundo a investigadora e antiga professora da Faculdade de Letras de Lisboa Isabel Rocheta, “Cláudia não frequentou a universidade, mas teve uma formação muito completa”. “Leu as autoras inglesas na língua original, aprendeu francês e um pouco de alemão e depois casou aos 16 anos, o que para a época era corrente.” Aos 18 anos teve uma filha e anos mais tarde separou-se judicialmente do marido. É após essa separação que se dedica à publicação de obras literárias. A viver em Lisboa, priva com a mais alta sociedade da altura, frequenta a Academia de Ciências de Lisboa e os Salões Literários do Casino.

O congresso que agora evoca a autora (saber mais AQUI) no centenário da sua morte acontece entre 24 e 25 de novembro na Biblioteca Nacional e conta com a presença de investigadores nacionais e internacionais. Será ainda exibido em estreia mundial o documentário “Eu”, sobre Cláudia de Campos, realizado por Diogo Vilhena, e aberta uma mostra bibliográfica em torno da literatura e da intervenção cívica da escritora.

O objetivo é debater e divulgar a obra de uma mulher que se insere na história da literatura feminina em Portugal. Para Teresa Almeida, professora da FCSH e uma das investigadoras presentes no congresso, “todas as mulheres que escrevem têm necessidade de se filiar numa tradição que tem que ver com as autoras que escreveram em português”. “Portanto, descobrir uma nova escritora é muito importante para aquelas que escrevem hoje em dia, porque existe uma espécie de orfandade na literatura nacional.”

Além de ter escrito romances e contos, Cláudia foi uma intelectual inovadora e destemida, ensaísta da condição da mulher num mundo dominado por homens. Para Isabel Lousada, uma das organizadoras do congresso, “Cláudia foi uma mulher arrojada e pioneira na vida pessoal e na escrita”. “Compôs romances de algum fôlego, em que personagens femininas e masculinas assumem posições que não são as mais canónicas para a época”. E acrescenta: “Ao longo da carreira, Cláudia de Campos teve críticas positivas e negativas, conforme os espíritos eram mais dados ao progresso e à emancipação feminina ou menos”.

Cláudia de Campos estreou-se em termos literários com um volume de pequenos contos intitulado “Rindo...”. Seguiram-se “O Último Amor”, “Mulheres”, “A Esfinge”, “A Baronesa de Staël”, “O Duque de Palmela” e o polémico “Ele” (“Elle”, na grafia da altura, que poder ser lido AQUI). A autora assinou ainda um “Ensaio de Psicologia Feminina”, onde analisa Charlotte Brontë, Condessa de Lafayette, Baronesa de Staël, entre outras figuras femininas.

O esquecimento a que a obra desta portuguesa esteve tantos anos votada justifica-se não só por ter existido ao longo do tempo um discurso muito mais forte sobre autores masculinos, mas também porque aquilo que escreveu “não é de primeira linha”. Para a professora Isabel Rocheta, “apesar de não ser de primeira linha, lê-se muito bem, os diálogos têm muita naturalidade e há um grande equilíbrio”. “É uma escrita sentimentalista e moralista. Além disso, os autores de segunda linha devem também ser lidos, porque apesar de não trazerem inovações à escrita, são fundamentais para compreender as mentalidades e costumes da época.”

“O que é uma verdade incontestável é que o talento não é monopólio dos homens; que eles escrevem bem e escrevem mal - o mesmo que nos sucede - e que, na sua generalidade, amam menos e pior do que nós. Sensualismo, orgulho, vaidade, eis as três notas dominantes do seu caráter, e nenhuma delas é sacrificada em holocausto a um afeto. Sacrifícios, abnegações masculinas, encontrá-los-eis descritos em bordada prosa ou verso; mas praticados na vida real, somente como exceção”, escreveu Cláudia de Campos no fim do século XIX.

Leia AQUI o ensaio completo da escritora portuguesa na revista “A leitura”. E ouça o conto “O ideal”.