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Não há nada de retro em mim, baby

Marianna Massey/ Getty Images

Foi preciso esperar 46 pacientes anos para que Sharon Jones, outrora guarda prisional e cantora em casamentos, se tornasse um fenómeno mundial e recebesse os devidos elogios por reanimar géneros de música que pareciam perdidos. Morreu sexta-feira, deixou uma história que é inspiração e lição: vamos sempre a tempo de ter a vida que queremos

Há cerca de 35 anos, Sharon Jones encontrava-se num estúdio de Manhattan, a cantar com uma amiga numa audição para duetos de vocalistas enquanto eram avaliadas por um executivo da indústria musical. A meio da audição, Sharon espantou-se com um pedido do empresário: queria que a amiga desse um passo em frente e que Sharon se colocasse mais atrás. Quando a aspirante a cantora questionou o motivo para o pedido, ele justificou: “Não tens o visual certo – a tua pele é demasiado escura; devias usar algo para aclarar a pele e perder uns quilos”. “A ideia de gravar um álbum desapareceu”, recordou ela em 2010 à “Vulture”.

A ideia desapareceu, mas a música continuou dentro dela e permitiu-lhe depois dessa audição gravar seis álbuns em estúdio, alcançar fama mundial, ser nomeada para um Grammy e partilhar o palco com lendas como Prince e Lou Reed. No entanto, todos estes feitos tiveram espaço apenas nos últimos 14 anos de vida de Jones, uma vida que mais se assemelhou a uma montanha russa e que terminou cedo demais na sexta-feira passada, quando a cantora contava apenas 60 anos de idade.

O sucesso tardio – o primeiro álbum de Sharon e da sua banda, os Dap-Kings, foi lançado apenas em 2002, já a vocalista cumpria 46 anos de idade – definiu Sharon e moldou a sua forma de estar e de encarar os fãs e uma indústria que a rejeitou desde o primeiro momento (disseram-lhe que era “demasiado baixa, demasiado negra, demasiado gorda”, recordaria ela em anos recentes e por diversas vezes). E Sharon sentia que só tinha de agradecer pelo sucesso finalmente alcançado: “Sinto que pedi isto a Deus e demorou um pouco. Por isso, em vez de perguntar ‘porquê’, digo ‘obrigada’”.

Não há nada de retro em mim, baby!

A humildade moldou-se com um percurso acidentado e, muitas vezes, imprevisível. Nascida em 1956 na cidade de Augusta, Geórgia, como a mais nova de seis irmãos, Sharon começou a cantar num coro de uma igreja de Brooklyn, para onde a sua mãe se mudou numa tentativa de fuga de um marido abusivo. Foi a partir dessa experiência, e das atuações em coros de Natal, que a jovem decidiu perseguir uma carreira na música, fundando assim que terminou o ensino secundário a sua primeira banda, os Inner Spectrum.

Sharon era uma alma velha com uma energia sem precedentes – as suas inspirações vinham de símbolos como James Brown, a quem era comparada pelas performances imparáveis em palco, e mais tarde, quando foi convidada para atuar com Lou Reed ou Michael Bublé, não se mostrou impressionada (para saber quem era o primeiro, recorda a “Vulture”, o manager teve de trautear umas notas de “Walk on the Wild Side”. Quanto a Bublé, teve de fazer umas pesquisas e concluir que era “como o Sinatra, ou algo assim”).

Mas Jones rejeitava comparações: rejeitava os rótulos que tantas vezes lhe foram colados de neo-soul ou retro-soul (“Não há nada de retro em mim, baby. Eu sou soul!”), rejeitava as novas modas da altura, a disco ou o rap – excetuando uma tentativa de reinvenção nos anos 1990, quando escolheu o seu nome do meio para se apresentar como Miss Lafaye e deu voz a faixas de música house (“Podia fazê-lo, mas não estava a senti-lo”, esclareceria mais tarde).

Larry Busacca/ Getty Images

Foi por essa insistência num género que parecia esquecido e por “não ser o que eles procuravam”, segundo a própria, que Jones passou a maior parte da sua vida a fazer tudo menos aquilo que realmente desejava fazer. Cantando em numerosas bandas funk, mas também numa banda de casamentos durante 12 anos, Jones chegou a desempenhar a improvável função de guarda prisional em Rikers Island (e até nessa altura teve de cantar o êxito de Whitney Houston, “Greatest Love of All”, a pedido dos prisioneiros).

Os anos que antecederam a chegada ao estrelato, particularmente a década de 1990, não foram fáceis para Sharon Jones. O consumo da cocaína, as relações com “namorados difíceis” e as complicações financeiras, que frequentemente a obrigavam a viver em casa de familiares, faziam antever o fim de uma carreira que não chegara a começar – e por isso este foi, segundo a “Vulture”, “um dos segundos atos mais improváveis da pop, e quase nem existiu um primeiro ato”. Foi preciso chegar a viragem do milénio para que Jones renascesse.

Um improvável segundo ato

Em rigor, foi em 1996 que a sua nova carreira começou, quando um dos seus namorados colaborou com a banda de soul e funk local Soul Providers e recomendou o nome de Sharon para os coros de uma das faixas. A banda ficou imediatamente impressionada com ela – e quando mudou de nome para “Dap-Kings” e participou na fundação da discográfica de Brooklyn Daptone (a mesma que lançou Amy Winehouse, que representou a abertura daqueles artistas ao mainstream), Sharon passou a fazer parte da banda e gravou com os seus membros o primeiro álbum da sua vida, “Dan Dippin’ with Sharon Jones and the Dap-Kings”, em 2002.

Foram 14 anos de tremendo sucesso, um sucesso inesperado que chegou a fãs por todo o mundo e aos críticos da indústria, que lhe reconheceram o mérito de reavivar o “soul” e ser a responsável pela reanimação de um género inteiro. A voz profunda, mas sobretudo as atuações enérgicas em palco e a capacidade para hipnotizar o público e, como diz o “Guardian”, “nos deixar a sentir que pagámos pouco para a ver”, ganharam elogios e inclusivamente uma nomeação ao Grammy para melhor álbum R&B de 2014, com “Give the people what they want”.

O disco deveria ter sido lançado em agosto de 2013, e não nas primeiras semanas de 2014, não fosse a dor que Sharon sentiu numa atuação em Boise, Idaho, desse ano e que a obrigou a dobrar-se imediatamente sobre si própria enquanto cantava. “A dor atingiu-me com tanta força que me dobrei. Mas ignorei-a, saí do palco. Nessa noite mal me conseguia endireitar por causa das dores. (…) Os sinais estão no nosso corpo, dizem-nos tudo. Mas nós não prestamos atenção”, explicava Sharon, citada pela NPR.

Os sinais eram claros e intensificaram-se com o tempo – Sharon tinha um cancro do pâncreas, uma doença grave que a obrigou a cancelar alguns dos concertos para ser operada e fazer quimioterapia. Quando cantava, toda a gente lhe dizia que a energia era a de sempre, mas Sharon não concordava. “Eu não conseguia cantar. Toda a gente dizia que a minha energia estava ótima, mas eu não sentia nada disso.” E depois de um período de remissão, o cancro voltou, mais agressivo do que nunca, e Sharon viu-se obrigada a cancelar a sua digressão europeia (que incluía um concerto na edição deste ano do Vodafone Paredes de Coura).

Jeff Fusco/Getty Images

Eu tenho cancro, o cancro não me tem a mim

Nesse intervalo de tempo em que melhorou, Sharon explicou a forma como a doença a afetou e a mudou, mostrando-se “feliz por voltar ao ritmo, mas nervosa”. Conseguiu, em três anos a batalhar contra o cancro, gravar o videoclip para “Stranger to my Happiness” (“Pensei: será que quero mesmo fazer este vídeo, sem cabelo? E decidi: sim, vou fazer isto. Vou deixar que os meus fãs vejam aquilo que estou a passar”); ver o lançamento do documentário que explica a sua história extraordinária, “Miss Jones!”, no Toronto international Film Festival; e até conseguiu sentir-se a verdadeira Sharon de novo, enquanto o cabelo, as sobrancelhas e as pestanas cresciam: “Durante o tratamento não ouvi nada de música, nada de headphones. A música é a minha alegria, a minha felicidade, e ninguém parece perceber isto. Não queria pensar nisso, porque aquela era uma Sharon diferente”, explicava em entrevista à NPR em 2014.

“Eu tenho cancro, o cancro não me tem a mim”, explicava Sharon, a diva conhecida pela sua força e nunca pela fragilidade: pela forma como conseguiu impor-se já perto dos 50 anos de idade e gravar seis álbuns de estúdio; pela forma como era comparada às grandes vozes das décadas de 1960 e 1970, apenas para se concluir que ela era original e única e apenas por isso essas comparações se tornavam injustas. Sobre Sharon, que nos deixou na passada sexta-feira depois de sofrer dois AVC que a impediram de continuar a falar (mas não de murmurar ritmos de músicas gospel, acompanhada pela sua banda, até ao fim, porque “ela não queria parar de cantar”) e explicar que os ataques se deveram ao choque causado pela eleição de Donald Trump, escreve-se agora que a homenagem certa é ouvir a faixa “Retreat” (do álbum de 2014 “Give the people what they want”), que ela disse interpretar de forma diferente desde que ficou doente, como se nela se dirigisse afinal à doença em vez de a um homem.

“Recua, recua, iça a tua bandeira brança bem alto, porque vou voltar em força (…) recua, porque este é o meu caminho e não quero saber do resto de vocês”, canta a mulher descrita pela “Bustle” como uma “titã moderna” ou um “pedaço de luz” – ainda assim, o termo mais usado para descrever Jones continua a ser o de uma “sobrevivente”, atravessando todas as páginas da imprensa no fim de semana em que assinala a partida da nova voz da velha soul. Era exatamente assim que ela se sentia: “Quando eu chego ao palco, a dor vai-se embora. Esqueço-me de tudo. Não há cancro. Não há doença. Estou a flutuar, a olhar para as caras deles e a vê-los gritar. Para mim, isso é tudo o que existe”.