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O triunfo dos dias de chumbo

MEMÓRIA. Os protagonistas e os espaços da resistência contra a ditadura não têm tido a devida atenção do Portugal saído da democracia. Na imagem, membros do MND, entre os quais Maria Lamas, Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura e José Morgado

d.r.

Adulterar os espaços onde vivem os rastos do combate e da resistência à ditadura é anular a memória. Apagar a memória seria o triunfo do que julgavam serem os defuntos dias de chumbo

Há dias, o escritor Mário de Carvalho publicou na sua página do Facebook uma fotografia com vários membros da Comissão Central do Movimento Nacional Democrático (MND), uma estrutura próxima do PCP criada em 1949 na sequência da ilegalização do MUD-Movimento de Unidade Democrática e do desmantelamento do MUNAF-Movimento Nacional de Unidade Antifascista, no qual se agrupavam múltiplas correntes.

Gerou-se então uma muito interessante troca de opiniões e comentários na tentativa de identificar cada um dos presentes naquele retrato de um grupo que, dinamizado após a desistência da candidatura do General Norton de Matos devido à falta de liberdade e previsão de fraudes eleitorais, incluía, entre outros, Maria Lamas, José Morgado, Virgínia Moura ou Ruy Luís Gomes, que em 1951 era apresentado pelo MND como candidato a Presidente da República. O Movimento Nacional Democrático realizou uma sessão inaugural na “Voz do Operário” no dia 10 de fevereiro de 1949, sob a presidência de Mário de Azevedo Gomes, um académico açoriano que presidira à Comissão Central da candidatura de Norton de Matos.

O campo do Tarrafal, chamado da morte lenta

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FOTO LUÍS VASCONCELOS

Curioso foi perceber como a identificação de todos os retratados só foi possível graças ao contributo de familiares e à memória de alguns a quem a idade terá dado um conhecimento suplementar de importantes factos, acontecimentos e personagens que correm o risco de serem tragados pelas inutilidades geradas pela espuma dos dias.

Neste Portugal construído em democracia a partir do 25 de abril de 1974 começa a haver um gritante conflito com a memória. A memória da resistência ao fascismo. A memória dos que lutaram, sofreram, foram presos e torturados. A memória dos que, mesmo se apenas com pequenos contributos, fragmentos de um combate mais global, nas fábricas, nas universidades, nos meios intelectuais, nas estruturas de serviços, nas forças armadas, contribuíram para o derrube de um regime ditatorial que tinha na repressão um dos principais eixos da sua própria sobrevivência.

Não tem havido o cuidado de preservar os espaços que, pela história neles contida, se constituem como símbolos de algo que, se for escamoteado, não permitirá perceber em toda a sua dimensão o Portugal contemporâneo: a resistência à ditadura de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano, na qual se envolveram democratas de todas as tendências.

As antigas instalações da PIDE/DGS no Porto vão receber a memória da resistência

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RUI DUARTE SILVA

A questão ganha uma nova atualidade quando, depois do atentado cometido com a sede da PIDE/GDS em Lisboa, transformada em condomínio privado de luxo, operação parecida tem estado a ser trabalhada para o Forte de Peniche, onde durante anos foram despejados e submetidos às mais cruéis torturas dezenas e dezenas de resistentes. Depois de um simulacro de julgamento tinham quase sempre como destino a prisão do Forte. Sabiam quando entravam. Não sabiam quando saíam. Nem em que estado sairiam. As célebres “medidas de segurança” faziam das sentenças e das penas nelas aplicadas uma farsa. A ignomínia maior traduzia-se no livre arbítrio que permitia, em nome das “medidas de segurança”, prolongar a pena por sucessivos períodos de três anos.

Uma intervenção recente do Ministro da Cultura, no sentido de suspender o projeto, permitiu acalentar a esperança de que, por fim, o Estado português consiga perceber em toda a sua dimensão a importância dos testemunhos desse tempo passado, que não podem confinar-se à memória de alguns ou ao desabafo de uns tantos.

Interior do Campo do Tarrafal

Interior do Campo do Tarrafal

FOTO LUÍS VASCONCELOS

A repressão, a censura, a tortura, as tentativas de destruição física e moral dos que combatiam a ditadura existiu. Aconteceu em espaços muito concretos. Como nas instalações da PIDE no Porto, agora Museu Militar, mas onde será criada uma zona de evocação da luta dos democratas e antifascistas. Como no agora Museu do Aljube, em Lisboa. São espaços que têm de ser preservados. Que têm de ser respeitados. Que têm de ser compreendidos como testemunho material de algo que, a vencer esta tentativa de amordaçar a história, corre o risco de se transformar em apenas mais uma narrativa de factos eventualmente curiosos. Eventualmente dolorosos.

Adulterar estes espaços é anular a memória. Apagar a memória seria o triunfo do que julgávamos serem os defuntos dias de chumbo.