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Lembram-se do Sílvio?

d.r.

Enquanto a Casa Branca ameaça tornar-se num “reality show”, a Netflix disponibiliza um documentário absolutamente inédito e esclarecedor sobre a figura de Sílvio Berlusconi. Em ambos os casos, a realidade ultrapassa a ficção

Reinaldo Serrano

“Pode um partido que assenta quase exclusivamente na ganância nomear alguém para Presidente no qual vote a maioria dos americanos?”
Gore Vidal, comentando com William F. Buckley a Convenção do Partido Republicano em 1968

O tempo, o melhor e o pior amigo da vida, possibilita, de quando em vez, uma ou outra coincidência saída das suas margens. Na mesma altura em que os Estados Unidos escolhiam Donald Trump para principal inquilino da Casa Branca, a Netflix difundia uma biografia televisiva sobre a figura de Sílvio Berlusconi.

Na realidade, este documentário de 100 minutos sobre o polémico ex-primeiro-ministro italiano, não é mais que a transposição para o universo televisivo de “My Way – Berlusconi ou A Ascensão de um Bilionário a Primeiro-Ministro”. É este o longo nome da edição portuguesa, mas não é menor que a edição original, surgida em 2015 pela pena do jornalista Alan Friedman. Desde que a obra chegou aos escaparates, em outubro do ano passado, foi traduzida em 19 línguas e editada em mais de 30 países, entre os quais este que já foi nosso. O sucesso explica-se: afinal de contas, trata-se, até à data, da primeira e única biografia autorizada pelo excêntrico político italiano.

E, no entanto, das 300 páginas do livro, sai um sabor minguado por um retrato que, não sendo hagiográfico parece, ainda assim, algo... anódino, face à oportunidade que foi posta à disposição de Friedman. Este será, efetivamente, um profundo conhecedor da realidade italiana, pese embora norte-americano nascido nos idos de 56; mas os anos passados como correspondente do “Financial Times” em Itália, nomeadamente em Milão, terão seguramente ajudado ao enquadramento das grandes questões que envolveram os 4 tempos de Berlusconi à frente do governo italiano. Ou não terá sido assim?

É que as dúvidas que se me instalaram aquando da leitura do livro, mais evidentes se tornaram no visionamento do documentário. Porque se “My Way: Berlusconi in His own Words” resulta de mais de 100 horas de encontros, conversas e gravações, num acesso inédito à intimidade de “Il Cavaliere”, o que fica é uma desconfortável sensação de quase cumplicidade entre entrevistador e entrevistado pese embora, num ou noutro momento, lá surja um lampejo de crítica.

E, no entanto, o documentário é, mais que o livro, uma inequívoca revelação, diria até uma inequívoca confirmação: Berlusconi é, à semelhança de Trump, profundamente vaidoso, ostensivo, histriónico, muito rico (com fortuna feita também no ramo imobiliário) e com amizades nem sempre recomendáveis.

Sem querer (nem dever) revelar demasiado sobre a hora e quarenta que convido a ver, aqui me permito dar conta dos 73 hectares da “villa” que é morada de Berlusconi, do seu campo de futebol, as fontes e a casa-mãe com as suas 72 divisões, 10 por cento das quais preenchidas com incontáveis obras de arte e inúmeros presentes recebidos por Berlusconi dentro e fora do governo. É particularmente sintomática a forma desabrida com que o antigo primeiro-ministro mostra, com um orgulho quase infantil, as quatro peças que lhe foram ofertadas pelo seu amigo Muammar Khadafi.

Desta e doutras amizades, de festas, de escândalos, de memórias e de política (egocêntrica) fala Berlusconi; e quanto mais fala mais torna literal o título de um trabalho jornalístico que devia ter ido um pouco mais longe nas suas intenções, pois que dessa longevidade sairiam mais conclusões. Assim, o que fica do que passa é a imagem passada: Berlusconi emerge como uma figura caricatural, artificial até no evidente excesso de maquilhagem, na leviandade com que aborda diversos temas sensíveis, na convicção firme de uma impunidade quase total perante tudo e perante todos. Até perante si próprio. Onde é que já vimos isto