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Hans Ulrich Obrist: Gosto da ideia 
de editar o tempo

O suíço tido como o mais influente curador de arte do mundo já fez experiências para viver sem dormir, dirige as Serpentine Galleries e falou com o Expresso sobre a importância do espaço e do tempo na arte

Valdemar Cruz

Valdemar Cruz

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Jornalista

Lucília Monteiro

Lucília Monteiro

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Fotojornalista

lucília monteiro

Qual é a sua relação com o tempo?
Vivemos num mundo em que a coisa mais importante é pensar como podemos organizar o tempo e o espaço. Experienciamos o tempo de formas diferenciadas. Acelerando, resistindo a harmonizações, estandardizações. Isso é verdade para as minhas exposições, mas também para a minha vida porque acredito que podemos fazer todo o tipo de experiências com o tempo. Faço muitas experiências com o sono, por exemplo.

Que tipo de experiências?
Nos meus vinte anos não queria dormir e tentava perceber como poderíamos viver dormindo cada vez menos. Andava particularmente fascinado com o ritmo de Da Vinci: se dormisse 15 minutos a cada três horas, então dormia sete ou oito horas por dia, o que me permitia andar sempre fresco. Quando se passa a ter responsabilidades institucionais isso é inviável. Depois tentei beber muito café para reduzir a necessidade de dormir, mas também não era sustentável. Uma amiga minha, a escritora francesa Helen Cious, costuma dizer que quando não se dorme não se sonha.

Já encontrou tempo para sonhar?
Nos últimos anos comecei a ter um jovem assistente que prefere trabalhar de noite. Ter alguém que trabalhe para mim enquanto durmo tem-se revelado muito produtivo. É assim que consigo manter as diferentes atividades. Gosto desta ideia de editar o tempo.

O espaço é uma das componentes mais importantes do seu trabalho, mas está dependente das respostas dadas por edifícios como este museu concebido por Álvaro Siza...
É uma questão muito interessante, porque como curador acima de tudo negoceio espaço. Mas deixe-me dizer, primeiro, que este é um dos meus museus favoritos em todo o mundo. Serralves é muito especial.

Porquê?
Porque tem uma fantástica diversidade. Em termos de luz, por exemplo. Frequentemente, o problema dos museus é que proporcionam espaços monumentais, embora a arte nem sempre seja monumental. Por vezes precisamos de espaços mais íntimos. Gosto do modo como as coisas funcionam neste museu. Temos gabinetes muito íntimos para desenhos, para trabalhos pequenos, e depois temos grandes espaços para grandes instalações. Regressando à sua questão, penso que precisamos de libertar o espaço e libertar o tempo. A homogeneizada noção de tempo é reforçada na era digital. Para mim, a curadoria é uma forma de libertar tempo e libertar espaço. Inicialmente, quando era miúdo, não pensava na curadoria do tempo. Só pensava no espaço. Sinto-me muito tentado a explorar inesperadas noções de espaço. Pôr as pessoas a ver arte na minha cozinha foi a minha primeira experiência. Depois fui para a biblioteca de um mosteiro, e a seguir fiz uma exposição na casa de Nietzsche. São espaços inesperados para mostrar arte contemporânea. Quando fui para Paris aluguei um quarto de hotel e convidei artistas a instalarem o seu trabalho no meu quarto. Depois fizemos exposições em aviões.

Sei que não gosta da designação ‘curador’, mas pergunto-lhe o que significa, hoje, ser curador?
Temos de ir à origem da palavra: “curare”. Tomar a cuidado. Penso que esse papel é relevante. Se olhar para a história da arte constatará que do século XIX até os anos 60 temos fundamentalmente a história dos objetos. Nos anos 60 há a desmaterialização da arte e muitos autores procuram a arte conceptual. Temos não apenas a curadoria de objetos, mas também de não-objetos, de conceitos. Podemos trabalhar com objetos, não-objetos, ou os quasi-objetos de Michel Serres. Mais recentemente, Timothy Morton fala dos hiper-objetos. A definição mais satisfatória de curadoria veio do escritor J. G. Ballard. Dizia-me ele que o curador era uma espécie de fazedor de ligações. Mas também há as ligações entre pessoas, que vejo como uma parte fundamental do meu trabalho.

Como lida com o poder político e ideológico inerente à sua posição, muitas vezes definidora do gosto?
Sempre acreditei que o poder é da arte. Recordamos a arte dos grandes artistas. Acho fantástico relacionar Goya com o que se está a passar na Síria. Não nos recordamos de presidentes, de reis, de políticos, homens de negócios, mas lembramo-nos de Goya. O poder está apenas na arte. Foi sempre assim e nunca mudou.

Quando falo de poder, refiro-me ao argumento de autoridade implícito num curador com a sua projeção mundial...
É evidente que há um paradoxo na curadoria. Por um lado, cria-se uma certa visibilidade e, ao mesmo tempo, penso na importância de questionar tudo aquilo. Os meus modelos de curadoria sempre assentaram no questionamento dessa autoridade. Se quisermos, a minha prática vem mais de Diaghilev. Foi uma das minhas inspirações de juventude. Se vir bem, ele era um empresário, trabalhou com os maiores artistas do seu tempo. Inicialmente fez a curadoria de espetáculos, e tal como eu, embora num meio diferente, ele queria ir para lá do espaço em direção ao tempo. Convidou os Ballets Russes, mas ele próprio não produziu nada. Apenas fez essa junção. Vejo-me nessa continuidade.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 12 de novembro de 2016