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Contos de fadas para adultos

ISTO NÃO É UM FILME DA DISNEY. Na versão da francesa Claude Cahun (que se assumia como “sem género”), escrita em 1925, a Cinderela mostra tendências masoquistas e o príncipe tem fetiches com sapatos

Contos de fadas reinterpretados por autores franceses como Charles Baudelaire ou Guillaume Apollinaire dão vida a princesas perversas, fadas-madrinhas caprichosas e príncipes andróginos. Histórias em que não se vive feliz para sempre

No conto “Cinderela, a criança humilde e malcriada”, assinado em 1925 pela escritora e fotógrafa francesa Claude Cahun, a miúda pobre tira um prazer inexplicável das dores que experimenta durante o dia, no desempenho das suas árduas tarefas domésticas, quando os seus pés estão enfaixados, em ligas de pano, para mantê-los “pequenos e compactos, meio atrofiados”. A tortura, diz, enche-a de “completa satisfação”. E os maus-tratos perpetrados pelas irmãs adotivas são “deliciosamente cruéis”, o desprezo a que votam é motivo de prazer. Este é a versão masoquista de Cinderela, história que tem um príncipe com um fetiche com sapatos, escrita por uma autora que se considerava “sem género”.

Este livro de contos para leitores desencatados integra reinterpretações de histórias de fadas feitas por Charles Baudelaire, Guillaume Apollinaire ou Anatole France. A matéria-prima, na sua maioria, são contos clássicos franceses do século XVII, da autoria de Charles Perrault, mas também há novas versões de fábulas alemãs ou narrativas do tempo do rei Artur. O Capuchinho Vermelho leva o lobo a estrangular a avó e este acaba encarcerado, acusado de ser anarquista; as fadas-madrinhas espalham perversidade e caprichos.

Este é o imaginário negro e sádico destas fábulas para adultos, escritas por autores franceses do Decandentismo, e que são agora publicadas, em inglês, num livro coordenado por dois professores de Estudos Franceses na Universidade Brown, em Rhode Island, nos Estados Unidos. Segundo Gretchen Schultz e Lewis Seifert, que falaram com o “The Guardian” a propósito do lançamento deste livro, centenas de fábulas decadentes foram publicadas em França, entre 1870 e 1914.

Tinham como público-alvo os leitores adultos e escolhiam como “heróis” (ou anti-heróis, neste caso) personagens andróginas e efeminadas, como o Príncipe Encantado, que nesta versão da poetisa Renée Vivien é uma mulher.

Ao jornal inglês, Seifert afirma: “Os contos franceses decadentes são um produto do seu tempo, especialmente no que diz respeito às questões de género”. Ainda assim, “estas histórias tornam mais complexos preconceitos comuns sobre o género e mostram que os escritores já estavam a fazer muito antes deste nosso tempo”. Às portas do século XX, que traria consigo as guerras mundiais, estes autores e as suas recriações de fábulas deixam antever as preocupações com temas como declínio da civilização, o desvanecimento da magia, a hegemonia do mundo industrial, as questões de género.

“Fairy Tales for the Disillusioned: Enchanted Stories from French Decadent Tradition”, Gretchen Schultz e Lewis Seifert (edição) Princeton University Press, 296 páginas, €21 (preço Amazon)

“Fairy Tales for the Disillusioned: Enchanted Stories from French Decadent Tradition”, Gretchen Schultz e Lewis Seifert (edição) Princeton University Press, 296 páginas, €21 (preço Amazon)

Estes contos vêm acompanhados de notas biográficas sobre cada autor, assim como notas explicativas sobre as narrativas. Pequenos textos a ler, por quem não gosta de histórias com final feliz.