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“Neva” no Luxemburgo pela mão de João Reis

João Tuna

Espetáculo encenado pelo ator João Reis leva até ao Teatro Nacional do Luxemburgo a neve de um domingo sangrento de 1905 no Império Russo

André Manuel Correia

A versão portuguesa da peça “Neva”, escrita pelo chileno Guilhermo Calderón, está de malas feitas para se apresentar no Teatro Nacional do Luxemburgo (TNL) nos próximos dias 25 e 26 de novembro. Antes de partir, o espetáculo regressa este domingo ao Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto, onde se estreou em outubro de 2015. João Reis, mais conhecido como ator e que pela terceira vez assume o papel de “maestro”, sentou-se à conversa com o Expresso para falar de uma peça interpretada por Lígia Roque, Cristóvão Campos e Sara Barros Leitão.

As duas récitas agendadas no Luxemburgo vão ter lugar na próxima sexta-feira e sábado, pelas 20h, e são uma oportunidade de levar o espetáculo até um país com uma grande comunidade lusófona. “É importante sairmos, ainda para mais porque o Luxemburgo tem uma comunidade portuguesa muito grande, que habitualmente não vê teatro em língua portuguesa”, frisa João Reis.

O convite surgiu há quase um ano, de forma inesperada, quando “Neva” esteve em cena durante quatro dias no Teatro São Luiz, em Lisboa, em novembro de 2015. “Um dramaturgo e responsável pela compra de espetáculos que não são produzidos pelo Teatro Nacional do Luxemburgo veio ver o espetáculo a Lisboa e mostrou-se imediatamente interessado”, explica o encenador, com a esperança de que esta oportunidade sirva para “abrir portas”.

“A carreira do espetáculo foi relativamente curta. Estivemos quinze dias no TeCA, quatro dias em Lisboa e houve uma tentativa de rentabilizar o investimento, meu e dos atores, fazendo circular o espetáculo pelo país, algo que ainda não aconteceu”, lamenta João Reis, que confessa não compreender a falta de interesse e de resposta por parte de vários teatros municipais aos quais propôs a apresentação da peça. Nada que esmoreça a vontade prosseguir.

“Apesar de ser um pessimista por natureza, considero-me um resistente. Sou combativo e não desisto com facilidade. E por isso cá estarei durante os próximos anos, por acreditar que o teatro pode ser uma peça fundamental para mudar mentalidades e o mundo”, garante o ator de 51 anos e com mais de meia vida dedicada à interpretação.

Cai neve em São Petersburgo e o ambiente social é quente

9 de janeiro de 1905 e uma das personagens tem a sensação de que o teatro acabou. Cai neve em São Petersburgo, capital do Império Russo, mas o ambiente social não podia ser mais quente naquele dia que haveria de ficar conhecido na história como “domingo sangrento”. É para esse acontecimento que a peça escrita por Guilhermo Calderón em 1971 - encenada por João Reais e com cenografia de Nuno Carinhas – nos remete.

Três atores, Olga Knipper, Aleko e Masha – interpretados, respetivamente, nesta versão por Lígia Roque, Cristóvão Campos e Sara Barros Leitão – dissertam sobre a vida, a política e a função do teatro, enclausurados numa sala de teatro a ensaiar “O Cerejal”, de Anton Tchekhov.

No exterior, milhares de operários insurgem-se e marcham rumo ao Palácio de Inverno, residência do czar Nicolau II. Reivindicam pacificamente melhores condições de vida, mas as forças afetas ao regime abrem fogo sobre elas. A neve ficava vermelha, manchada de sangue, e aquele acontecimento acabaria por ser o prenúncio da revolução russa de 1917.

“O texto é contaminado por uma série de fantasmagorias um pouco anacrónicas, porque a história do massacre de São Petersburgo é o pretexto para falar de muitas outras coisas, nomeadamente da necessidade do teatro ter um papel ativo nas revoluções e na convocação do pensamento das pessoas para tomarem uma atitude”, considera João Reis, para quem o paralelismo com a atualidade é indissociável.

“O teatro já resistiu a imensas catástrofes e revoluções e creio que desempenhará um papel fundamental na mudança de mentalidades, de forma a tornar este mundo estranho e difícil cada vez melhor e mais justo”, acredita o encenador que, assume, aborrecer-se com a falta de tempo da sociedade contemporânea para parar e refletir. “Chateio-me profundamente quando as pessoas perguntam quanto tempo demora o espetáculo. As pessoas têm pouco tempo para fruir. O teatro exige uma disponibilidade imensa que as pessoas, hoje em dia, negam”, aponta o ator com 27 anos de carreira, mas que desempenha o papel de encenador com igual prazer.

“É um ofício de que gosto imenso. Como encenador, aquilo que me interessa mais é o meu trabalho com os atores e também convocar alguma da minha experiência para lhes passar essa minha sabedoria e paixão”, conta João Reis durante a entrevista.

“Neva” é uma coprodução entre O Lince Viaja e o Teatro Nacional São João. Estará em cena este domingo, pelas 17h, no Teatro Carlos Alberto.