Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Teatros unidos da Europa montam base no Porto

Entre esta quinta-feira e domingo, a Europa vai ao Porto ver o teatro. O Teatro Nacional São João acolhe, pela terceira vez, a assembleia-geral da União de Teatros da Europa, iniciativa que serve também de montra para os criadores nacionais

André Manuel Correia

A arte é uma forma de excelência para derrubar fronteiras e fomentar o diálogo intercultural. Nesse sentido, entre esta quinta-feira e domingo, o Porto será a “capital” dos teatros unidos da Europa. O Teatro Nacional São João (TNSJ) irá acolher a assembleia-geral da União de Teatros da Europa (UTE). A iniciativa que leva até à Invicta diretores artísticos europeus para debater, refletir e unir esforços serve também de montra para cinco criações portuguesas, entre as quais se encontra “Os Últimos Dias da Humanidade”.

Esta será a terceira vez que o TNSJ recebe a assembleia-geral da UTE, da qual faz parte desde 2003 e única instituição portuguesa a integrar a associação supranacional. A presidente do conselho de administração, Francisca Carneiro Fernandes, assegura que, ao longo dos anos, os membros da UTE tornaram-se mais do que parceiros. “É bom ter amigos em casa e poder mostrar-lhes o nosso teatro”, explica a responsável em entrevista ao Expresso.

“Acaba por ser uma pequena montra, não só do que se faz no TNSJ, mas há também espetáculos de outros encenadores para que se possa ter uma noção do teatro que se está a fazer em Portugal”, frisa Francisca Carneiro Fernandes.

A Europa no Porto

A UTE tem como função a “preservação e valorização do património cultural europeu”, diz a dirigente do TNSJ, para quem, “com a crise de valores que assola a Europa e o mundo, o teatro torna-se cada vez mais importante”. Francisca Carneiro Fernandes recupera o título de um livro do francês Jean-Pierre Sarrazac, recentemente editado pelo Teatro Nacional São João: “Vou ao teatro ver o mundo”. Porém, desta vez, é a Europa que vai ao Porto ver o teatro.

A iniciativa conta igualmente com uma mesa-redonda intitulada “Economia, Arte, Europa”, que coloca em diálogo o economista checo Tomáš Sedláček, autor da obra “A Economia do Bem e do Mal”, Sergio Escobar, diretor do Piccolo Teatro di Milano, e o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira. O encontro tem lugar no Mosteiro de São Bento da Vitória esta sexta-feira, a partir das 15h30.

“O objetivo é debater as zonas de conflitos na Europa em todas as suas vertentes, não só a artística, mas também a económica e política”, sublinha Francisca Carneiro Fernandes.

“Últimos dias da humanidade”, monólogo do “Subterrâneo” e “Neva” no Porto

O ‘showcase’ contempla quatro peças que passaram ou que ainda estão em palco no Teatro Nacional São João, a par de uma estreia no Rivoli.

Do universo de Shakespeare, o encenador Gonçalo Amorim leva até ao Teatro Rivoli “What a rogue am I!”, com texto de Rui Pina Coelho. A peça mostra um casal contemporâneo, constituído por uma atriz (Ana Brandão) e um videasta (Cláudio da Silva), que decidem ir viver para o campo, numa capoeira-horta. Ali projetam filmes num lençol branco e roubam eletricidade para alimentarem a bateria dos seus computadores. O espetáculo pode ser visto esta sexta-feira (21h30) e sábado (19h).

“Os Últimas Dias da Humanidade”, obra de Karl Kraus encenada por Nuno Carinhas e Nuno M. Cardoso, transporta o público até ao cenário da Primeira Guerra Mundial, com uma abordagem fresca e extremamente atual. Divido em três partes, o público terá este sábado uma oportunidade para ver a peça na íntegra, numa maratona de oito horas, entre as 15h e as 23h, no TNSJ.

Uma frase sobressai neste espetáculo, proferida por uma personagem que dá pelo nome de Eterno Descontente, e faz-nos parar para refletir: “Quando chegar a paz… há de começar a guerra”. Nuno Carinhas, diretor artístico do TNSJ e coencenador de “Os Últimos dias da Humanidade”, afirma que “são os eternos descontentes que fazem a reflexão sobre a realidade, porque caso contrário tudo seria um lugar comum”.

O diretor artístico considera que “o teatro, ao propor determinados objetos, tem de irradiar alguma discussão e reflexão sobre o estado atual das coisas”. “Pode haver momentos em que fazemos um repertório aliviado de conflitualidade, mas realmente os tempos não estão para isso.”

Não estão, efetivamente, e o Teatro Carlos Alberto (TeCA) é invadido pelo frio soviético de 1905. O espetáculo “Neva” regressa ao TeCA, domingo pelas 17h, após aí se ter estreado em 2015. Com encenação de João Reis – mais acostumado a estar em palco e que pela terceira vez assume o papel de “maestro” –, a peça tem por base um texto de Guilhermo Calderón. Recria a história de três atores fechados numa sala de teatro a ensaiar “O Cerejal”, de Anton Tchekhov, enquanto no exterior há uma manifestação contra o czar e as tropas disparam sobre os insurgentes. Em palco, disserta-se sobre a vida, a política e sobre a metodologia do teatro.

À conversa com o Expresso, João Reis explica que “o texto é contaminado por uma série de fantasmagorias, um pouco anacrónicas porque, na verdade, a história do massacre de São Petersburgo é o pretexto para falar sobre muitas outras coisas”.

Ao longo de 27 anos de carreira, João Reis confessa já ter pensado em desistir e tentar outras profissões, como a de professor, filósofo ou jornalista. No entanto, o encanto pela capacidade de fazer pensar que o teatro possui convenceu-o sempre a ficar e persistir. “Tenho sempre a esperança que aquilo que nós fazemos e dizemos chegue ao coração das pessoas”, conta, numa época em que, alerta com preocupação, “se caminha para um certo isolamento entre nações, em que se fomenta o ódio, a xenofobia e o racismo”.

Talvez se caminhe para o “Subterrâneo”, encenado por Luís Araújo e protagonizado por Nuno M. Cardoso, dois “velhos” conhecidos, espetáculo que leva até ao palco do TNSJ um monólogo inquietante e subversivo, construído a partir da obra “Cadernos do Subterrâneo”, do escritor russo Fiódor Dostoiévski. As récitas realizam-se esta quinta, sexta e sábado, sempre pelas 19h.

“Pensa, Logo, Sangra” completa o lote de cinco espetáculos deste ‘showcase’. Trata-se de uma produção da companhia Teatro da Rainha, encenada por Fernando Mora Ramos. O espetáculo estabelece uma relação entre “o real de um acrobata das palavras”, “o real de um professor de filosofia perdido na sua incomunicabilidade” e “o real de um ‘amigo dos mortos’”, escreve o encenador no texto de apresentação do espetáculo que poderá ser visto no Mosteiro de São Bento da Vitória esta quinta e sexta, pelas 21h30.