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Premiado o cinema que abriu quando tudo à sua volta estava a fechar

Marcos Borga

O Cinema Ideal, na pessoa do produtor e distribuidor Pedro Borges, foi distinguido como Melhor Empreendedor do Ano pela rede Europa Cinema, que congrega mais de mil cinemas de 41 países europeus

Colocar o cinema como o primeiro lugar para descobrir filmes e ter a coragem de abrir uma sala num contexto económico difícil são duas das razões apontadas por Claude-Eric Poiroux, diretor-geral da rede Europa Cinemas, para atribuir a Pedro Borges, do Cinema Ideal, o prémio Empreendedor do Ano. A associação, que congrega mais de mil cinemas de 41 países - valorizando sobretudo o cinema europeu – distinguiu também o Kino Europa, de Zagreb, como melhor programador, e o Kino Moviemento e City, na cidade austríaca de Linz, como aquele que tem as melhores atividades para jovens.

"Os prémios dados pelos pares são sempre importantes", diz Pedro Borges ao Expresso. O Cinema Ideal inaugurou em 2014, no mesmo lugar onde existia desde 1904 e onde, desde 2001, funcionava como cinema pornográfico sob a designação de Cine Paraíso. A terceira ressurreição deste espaço começou em 2012, a contracorrente numa crise económica que originou o fecho de muitos outros e arredou de Lisboa qualquer réstia de cinema independente. Além de aparecer no momento 'errado', o mais duro das últimas décadas, o Ideal surgiu pela mão de um projeto privado, encabeçado pela Midas Filmes, a distribuidora a que Pedro Borges está associado.

Nos dois anos passados desde a abertura, a situação do Ideal é de uma estabilidade periclitante, mantendo-se as dificuldades iniciais. Com apoio do Instituto do Cinema e do Audiovisual e da Câmara Municipal de Lisboa para a programação, Pedro Borges ainda não conseguiu angariar outro patrocinador, público ou privado. "O grande mecenato privado é desviado em 90% para instituições públicas e não para projetos que são da iniciativa dos cidadãos", lamenta.

Este prémio da Europa Cinema vem constatar "que muitas vezes o reconhecimento vem de fora". Mas não só: "Permite também perceber que Portugal é um país miserável em comparação com outros." O produtor dá o exemplo de Atenas, que tem mais de 15 cinemas incluídos na rede enquanto Portugal só tem três - Monumental, Ideal e Nimas. "A cidade de Lisboa deveria ter sete, oito salas com estas características e o Porto outro tanto", diz Pedro Borges, para quem a vinda a Lisboa dos diretores da Europa Cinema "é sinal de que há consciência de que a situação que vivemos aqui é catastrófica".