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Rule Britannia

RAINHA. Cena de “The Crown”

d.r.

Quando muitos poderiam pensar que pouco mais há a dizer ou a ver sobre o Reino Unido e a sua atual monarca, eis que uma série televisiva nos dá muito do mesmo... mas com algo mais

Reinaldo Serrano

Histórias, lendas, mitos, rumores, escândalos, especulações, amores e ódios: com maior ou menor intensidade, a história da Casa Real britânica está repleta de narrativas que, ao longo de incontáveis anos, têm alimentado a insaciável curiosidade do público e da imprensa mais sensacionalista (quando não, da imprensa em geral). Tal significa que o próprio tempo tem sido, no seu decurso, mais favorável ou menos favorável aos inquilinos de Buckingham e afins. Por outro lado, a imensa longevidade com que o tema tem entretido gerações tornou-o particularmente apetecível à literatura, ao cinema e à televisão. Detenhamo-nos nesta última para discorrer sobre a feliz e milionária produção que a Netflix disponibiliza sob o inequívoco título “The Crown”.

Coprodução britânica e norte-americana, a série custou cerca de 130 milhões de dólares, o que a torna a mais cara de sempre da produtora e distribuidora de filmes e séries a nível global, via streaming. Estreada há apenas três dias, “A Coroa” foca a sua primeira temporada no início do reinado de Isabel II, prematuramente assumido em virtude da morte do pai, o rei Jorge VI, com apenas 56 anos.

Tão factual quanto pode ser uma série de ficção, “A Coroa” discorre, ao longo de 10 episódios de cerca de uma hora de duração, sobre as vicissitudes próprias do início de um reinado súbito e protagonizado pela jovem rainha de 27 anos. A par das questões de Estado, em que o relacionamento da jovem monarca com Winston Churchill assume particular dimensão, a série narra os conflitos interiores de “Elizabeth Regina”, próprios de quem perde um pai e herda um reino. E porque atrás de uma grande mulher deve estar igualmente um grande homem, a relação entre Isabel e Philip Mountbatten (o Duque de Edimburgo) merece igualmente destaque.

O elenco é absolutamente de primeira água: Claire Foy (que já havia dado nas vistas no igualmente genial “Wolf Hall”) assume sem complexos a ingrata tarefa de interpretar a mais icónica monarca da história do século XX, que perdura sem mácula aparente no século XXI, e Matt Smith, bem... Matt Smith foi o 11.º Doctor Who e isso (a mim, particularmente) diz muito do ator que “é” Philip Mountbatten.

Dois nomes, porém, merecem ainda maior destaque, pese embora por razões diferentes: o primeiro é a surpreendente escolha de John Lithgow (lembram-se dele em “O 3.º Calhau a contar do Sol”?) para o papel de Winston Churchill; direi apenas que primeiro se estranha e depois se entranha. Já a figura de Eduardo VIII foi, “en hora buena”, como diriam os vizinhos hispânicos, atribuída ao soberbo Alex Jennings. O notável ator britânico transporta para o pequeno écrã todo o saber de experiência feito na Royal Shakespeare Company e no National Theatre, e constrói um personagem inesquecível, desde logo na sua própria essência: Eduardo VIII, recorde-se, abdicou do trono em 1936 para viver um amor tão tórrido quanto proibido com a norte-americana Wallis Simpson.

Uma última palavra para referir que os bons produtos televisivos (e há muitos, felizmente) não são fruto do acaso: a série foi criada por Peter Morgan, que há dez anos assinou o argumento de … “A Rainha”, filme dirigido por Stephen Frears. Já a realização ficou a cargo do sólido Stephen Aldry, justamente conhecido pelo surpreeendente “Billy Elliot” (2000) e “As Horas” (2002).

Sugerindo sem hesitações o visionamento desta primeira temporada (fala-se que poderão ser seis no total), aqui se acrescenta, à laia de complemento, a leitura de “Isabel II – Uma Vida, Um Reino”, do jornalista belga Marc Roche. Que não se pense, então, estarmos perante um exercício voyeuristico ou de uma mera compilação de curiosidades. O que este pequeno livro revela, além de uma leitura (inesperadamente?) interessante, é consequência de um trabalho de aturada investigação com figuras ligadas ao Palácio e de conversas com a própria Isabel II. Afinal de contas, Marc Roche é o celebrado autor de “O Banco – Como o Goldman Sachs Dirige o Mundo”.

Finalmente, para os incondicionais, mas não só, do reinado mais longo da História do Reino Unido, deixo uma última nota para uma curiosa obra editada na língua nativa e assinada pelo irrequieto mas não menos sensacional Andrew Marr: chama-se “The Diamond Queen – Elizabeth II and Her People”, foi editado no ano do Jubileu e é, à semelhança da vasta obra de Marr – escrita e televisiva – um regalo na narrativa, uma surpresa nas revelações, e um festim para o conhecimento.