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Quase jovens

Jemal Countess/GETTY

Marianne Ihlen é a grande musa contemporânea, a personificação do conceito de longing, ou seja, de saudade, desejo, melancolia

Leonard Cohen vivia então boa parte do tempo em Hidra, ilha grega frequentada por socialites e artistas boémios. Um dia, no ano de 1960, quando ele esperava o barco que trazia o correio do continente, avistou Marianne Ihlen, a mulher do romancista Axel Jensen. Ela tinha 25 anos, era modelo, mãe de um menino. Cohen convidou-a a sentar-se com ele e os amigos numa esplanada. Foi razoavelmente directo mas extremamente cortês. Nas palavras de um biógrafo, a jovem norueguesa tinha "olhos azuis penetrantes, maçãs do rosto subidas e uma boca inquisitiva". Uma imagem da perfeição. Cohen evocou essa epifania num poema de 1963: "Oh, será que as minhas calças brancas lavadas/ e a floresta de gardénias/ e 'A Ascensão e Queda do Terceiro Reich'/ e o meu bronzeado heróico/ e a minha casa estranha e notável/ será que podem fazer por mim/ o que fez o nosso primeiro encontro?" Marianne e Axel separaram-se. Cohen comprou uma casa branca, espartana, com um terraço espaçoso, para a qual se mudou com Marianne e o miúdo. Viviam, como ela contou, pobres, descalços e apaixonados.

Ela obrigava-o a trabalhar, pedia-lhe obras-primas, e Cohen escreveu com uma intensidade que nunca mais igualou: dois romances, entre os quais o comovente "O Jogo Favorito" (1963), e várias colectâneas de poemas, incluindo o exuberante "The Spice-Box of Earth" (1961) e o confrontacional "Flowers for Hitler" (1964). Foi Marianne quem ajudou a escolher os "Selected Poems", de 1968, o primeiro Cohen que eu li, numa elegante edição inglesa, da Cape. Não é por acaso que na contracapa do disco "Songs from a Room" (1969) aparece uma fotografia de Marianne, magríssima, louríssima, enrolada numa toalha branca, a brincar com as teclas da máquina de escrever Olivetti.

O tradicionalista Cohen queria uma vida doméstica ordenada, a casa limpa, comida na mesa, velas acesas, a experiência da paternidade. E Marianne parecia uma esposa oitocentista, tranquila, paciente, gentil.

Algumas fotografias dessa época são espantosas, especialmente uma em que ela está com a boca em cima dos joelhos dobrados, atenta, felina e feliz. E outra, numa cadeira de baloiço, folheando uma revista, com os pés nus levantados, sensual e tímida. Cohen ia trabalhando maniacamente, atravessava jejuns e depressões, drogava-se, bebia, entregava-se à fúria criativa. Gostava da segurança e da companhia, mas também queria a liberdade e a errância. 'Bird on the Wire', uma das suas canções mais conhecidas, exprime essa ambivalência. Cohen tinha dificuldades com a monogamia (quem é que não tem?), e em Hidra não faltavam oportunidades para exercer o seu charme de gentleman descontraído. Além disso, a domesticidade que ele tinha procurado às vezes sufocava-o, não era homem para estar quieto. Passava muito tempo fora, em Montreal, Londres, Nova Iorque. E a ausência física tornou-se ausência emocional. Como ele escreveu numa carta (um espólio que devia ser publicado), o casal enfrentou "the painful space where uncertainties have led us".

Marianne Ihlen é a grande musa contemporânea, a personificação do conceito de longing, ou seja, de saudade, desejo, melancolia. Durante uma década, Cohen escreveu muitos poemas sobre o sublime fugaz.

Um, quase medieval, descreve a nudez da sua namorada escandinava: "Escondidos nas minhas mãos/ os teus seios pequenos/ são o ventre às avessas/ de pardais caídos ofegantes." Outro é sobre a experiência extasiada de acordar ao lado da sua 'Winter Lady'. Mas ele sabia que quando duas pessoas dormem lado a lado "uma sonha com lama/ outra com a Ásia/ uma quer andar de zepelim/ outra conhecer Nijnski". Um dia, já os poemas eram sobretudo canções, aconteceu-lhe 'So Long, Marianne', que primeiro se chamou 'Come On, Marianne'. Cohen tem confessado que foi o poema que o fez entender que a relação deles tinha acabado, porque, sem que ele o dominasse, o texto transformou-se em elegia, em despedida. E que versos espantosos, o tornozelo amarrado a uma pedra, os olhos lavados à chuva, a fórmula coheniana "quando nos encontrámos éramos quase jovens".

Passaram-se décadas, cada um fez a sua vida. E este Verão lemos a notícia de que Marianne morreu de leucemia num hospital de Oslo, aos 81 anos, dias depois de receber uma carta de Leonard.

Artigo publicado na edição do Expresso de 27 de agosto de 2016