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Leonard Cohen dançou até ao fim do amor: morreu aos 82 anos

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Leonard Cohen morreu. O cantor, escritor, poeta completara 82 anos em setembro

No seu último e recentíssimo álbum ele bem anunciou "estou pronto, meu senhor" mas muitos de nós gostariam e dizer-lhe "ei, isso não é forma de dizer adeus" só porque não queríamos que dissesse adeus. Leonard Cohen morreu aos 82 anos. Já não podemos dar-lhe o Nobel.

A notícia foi confirmada quando era início da madrugada desta sexta feira em Lisboa na página oficial no Facebook da Sony Music Canada. “É com profunda tristeza que informamos que o poeta, compositor e artista lendário Leonard Cohen morreu”, escreveu o seu agente.

"Imediatamente começaram a ser publicados obituários de Cohen, descrito pela revista “Rolling Stone” como “cantor e escritor de canções enormemente influente”, cujo trabalho se espalha por cinco décadas. O “The New York Times” apelida-o de “épico e enigmático”.

Nascera no Canadá a 21 de setembro de 1934, pertencendo a uma família judia de origem polaca. A infância ficou marcada pela morte do pai, tinha Leonard 9 anos. A música chegou pouco tempo depois, adolescente, altura em que aprendeu a tocar guitarra e formou um grupo ‘folk’ chamado Buckskin Boys.

Como recorda a “Rolling Stone”, a influência do poeta espanhol Federico Gracia Lorca (coincidência ou não, um dos seus filhos veio a chamar-se precisamente Lorca) fê-lo aproximar-se da literatura. Cohen iniciou a sua carreira publicando romances, mas sem grande sucesso.

1966 representou um ano de viragem. Para trás ficava a ilha grega de Hydra, onde viveu durante algum tempo e onde conheceu Marianne Ihlen, com quem manteve uma relação amorosa e que se tornaria na sua musa. Abandonava também Montreal. Sem alcançar vendas significativas com as suas obras, faz uma viagem a Nova Iorque, onde conhece a cantora Judy Collins e outras personalidades ligadas ao universo musical folk-rock. Um ano depois, aos 34 anos, edita o seu primeiro álbum, "Songs of Leonard Cohen", ainda hoje considerado um album seminal, com músicas como "Suzanne", "Winter Lady", "So Long, Marianne" e "Hey, That's No Way to Say Goodbye".

Seria o primeiro de 14 álbuns: Songs of Leonard Cohen (1967), Songs from a Room (1969), Songs of Love and Hate (1971), New Skin for the Old Ceremony (1974), Death of a Ladies' Man (1977), Recent Songs (1979), Various Positions (1984), I'm Your Man (1988), The Future (1992), Ten New Songs (2001), Dear Heather (2004), Old Ideas (2012), Popular Problems (2014) e You Want It Darker (2016).

Muitas das suas canções ficam na história da música do século XX. Músicas como "Hallelujah" (1984).

Com um estilo único, marcado pela inconfundível voz grave, ao cantor ficou sempre associada uma certa timidez em palco, que a popularidade não apagou.

No plano pessoal, Cohen viveu várias relações mais ou menos breves, mas manteve com Suzanne Elrod uma das mais longas, durante a década de 1970. Dessa ligação nasceram os seus dois filhos: Lorca e Adam. Foi com este último que trabalhou em You Want It Darker, o álbum lançado este ano.

Como produtor, Adam recordou recentemente a experiência e a forma como teve de improvisar um estúdio na casa do pai. Doente e com fortes dores nas costas, Cohen não conseguia sair de casa. Adam instalou um microfone na mesa de refeições e os temas foram gravados com um computador: “Apesar das dores e do desconforto, por momentos levantava-se e dançava em frente das colunas”.

Outros episódios ficam por confirmar, como o que terá ocorrido durante a gravação, em 1977, de Death of a Ladies' Man. Phil Spector foi o produtor, mas a relação de trabalho entre ambos foi controversa e atribulada, a ponto de Spector ter alegadamente chegado a apontar uma arma à cabeça do cantor.

Cohen interessou-se também pelo estudo do budismo, o que o levou a viver num mosteiro em Los Angeles, entre 1994 e 1999. Anos depois, em 2001 voltou à música, com Ten New Songs.

Mais recentemente, e depois de ter despedido a sua manager Kelley Lynch em 2004, a sua vida conheceu uma reviravolta, em nada pacífica. O compositor acusou-a de lhe ter roubado cinco milhões de dólares, deixando-o numa situação financeira complicada.

Processou-a e a justiça deu os factos como provados, mas, sem dinheiro e já com mais de 70 anos, o músico foi forçado a retomar a sua carreira, realizando uma nova ‘tour’ mundial, que terminou em 2013.

Voltou a desaparecer dos palcos nos anos seguintes e muitos estavam já convencidos que o álbum de 2016 seria o último. Foi Cohen o próprio a dizer que estava pronto para morrer, alarmando os seus admiradores, ainda que há cerca de um mês tenha reconhecido que talvez tivesse “exagerado”. “Pretendo viver para sempre”, corrigiu-se, diante das pessoas que assistiam a um encontro com o músico, no consulado canadiano em Los Angeles.