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Cohen então e agora

Frederick M. Brown/GETTY

Estava convencido de que tinha lido "The Favourite Game" exactamente aos vinte anos, o ano em que tudo mudou, mas não bate certo, a edição que tenho, em paperback, saiu depois disso. Não tem importância. Devo muito, muitíssimo, ao primeiro romance de Leonard Cohen, que ele publicou com vinte e muitos, em 1963, e que eu descobri aos vinte e tantos.

Reli-o agora em vésperas da visita do quase octogenário Cohen, que traz umdisco novo chamado "Old Ideas". Também eu tinha ideias antigas sobre "O Jogo Favorito", como se chama na versão portuguesa mais recente.

Ideias às vezes erradas, omissas, tão estranho aquilo que amemória conserva ou apaga de um romance, especialmente quando se mistura com a biografia. Não me lembrava de dois terços, do funeral do pai, da mãe destroçada num hospício, do acampamento com a criança transtornada, não me lembrava da zaragata com os francófonos anti-semitas, da reunião dos comunistas que detestam boémios, não me lembrava do amante beduíno, do marido impotente fã deHenry James, nem da fundição de cobre onde Lawrence Breavman se vai penitenciar, nem das cenas urbanas de alucinação e violência, nem dos eminentes "cavalheiros vitorianos de credo hebraico", pessoas "consagradas à pureza, ao serviço, à honestidade espiritual"mas que trocaram tudo isso pela competição, o destaque, o sucesso.

Mas, et pour cause, lembrava-me bem de Krantz, o amigo a quem Lawrence conta tudo, o amigo com quem decide "interpretar o mundo um pelo outro", com quem troca frases inteligentes ou divertidas ou provocatórias, com quem anda pelos bailes, com quem queima manuais escolares. O amigo ao lado do qual atravessa a noite de automóvel, a alta velocidade, ouvindo rock e Handel, ambos ansiosos, sobranceiros, intocáveis: "Eu e o meu amigo vamos ficar aqui onde estamos (...) Não vamos, Krantz, não vamos, Krantz, não vamos (...)?" E talvez soubesse, mas tinha esquecido, que Krantz, em miúdo, atinge o amigo com uma pá. E que mais tarde anda ao murro com Breavman. E que "até Buda chorou quando perdeu um amigo".

Lembrava-me bem dos "privilégios da beleza", dessa "tirania imediata", da beleza como a verdadeira classe alta. Lembrava-me de que "a poesia é um veredicto, não uma ocupação". Lembrava-me de que só importa aquilo que amas, o resto é escória. Lembrava-me das raparigas, embora não dos seus nomes, lembrava-me de que Breavman às vezes as confundia, estava com uma e pensava noutra, queria recuperar alguém que tinha desaparecido, reencontrava alguém que tinha mudado. Bertha, a que caiu da árvore; Lisa, que tem o cabelo como Cleópatra; Heather, que ele hipnotiza; Tamara, a progressista de pernas compridas, Patricia, a adolescente que faz de "Hedda Gabler"; Wanda, a rapariguinha da aposta; e, acima de todas, Shell, que "parecia um manequim da 'Vogue', alta, de peito miúdo, ossuda e frágil", mas com ancas e ombros largos, narinas dilatadas, sensuais.

Shell, a graciosa, a que não se achava bonita. Breavman passa mais páginas com as outras do que com ela, mas eu atribuía todos os substantivos e adjectivos a Shell, ou a quem aos vinte e tantos anos era a imagem dela.

Breavman e Shell estão fechados num quarto, "felizes, seguros, selvagens", sabem que "não é bom estar sozinho", despem-se "como se estivessem a ser perseguidos", querem um amor livre e aventuroso, um amor de "orgulho e quietude", um amor que habita a nudez do corpo humano, "não havia nada mais excelente que aquilo" (tudo isto é sobre a mesma pessoa ou estou a fazer confusão?).

Breavman ama Shell com intensidade bélica, usa imagens guerreiras, bíblicas, faz-se poeta metafísico, romântico inglês, e o texto inclui os poemas que ele vai escrevendo. Escrever faz parte daquilo, ele contempla-a a dormir, quente e rendida, enumera-a, os cabelos espalhados que parecem uma caligrafia, as contracções dos músculos, os vasos sanguíneos, os brincos de jade nas orelhas. Ela é amulher por quem ele esperava e que lhe estava destinada, o consolo sem planos, a glória obscura, o povo eleito. Podem dizer tudo um ao outro, partilhar tarefas que se tornam rituais. Estão unidos pela exaltação, por aquilo que representam, "qualquer coisa de imortal", o amor enquanto "protesto contra a sorte e a circunstância", o amor que transforma, como uma magia, o amor incognoscível, quase intolerável. É por isso que a poesia de Breavman se torna o seu "substituto", e ele sente que é aquilo que escreve que ama Shell, mais do que ele mesmo.

Lembrava-me desse idílio doentio ("qualquer canção imperfeita alude a um tema ideal"), mas não me recordava da brutalidade com que Breavman se cansa, se esgota. Breavman está ligado a Shell pela carne e as emoções, mas também está ligado à recordação de a amar, à recordação imediata de a amar tanto. Pensa naquilo que atraiçoaria se ficasse com ela, e no remorso que o acompanharia se a deixasse, sente falta dela mas aceita magoá-la, é cruel, precisa de uma disciplina, de um desafio, "uma paz prolongada deixa os generais inquietos", e Breavman quer começar de novo, "tenho de viver em qualquer lugar que não seja a expectativa".

Regressado ao livro, anos depois, quase aos quarenta, encontro outra cena de que também não me lembrava, um passeio por Montreal, cidade amada mas entretanto modificada, demolida, irreconhecível, que evoca aquele poema que diz "où sont les neiges d'antan"? Eu é que pergunto.

Artigo publicado na edição do Expresso de 5 de outubro de 2012