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“A vida de Galileu” no Teatro do Bolhão para repensar a atualidade que nos bateu com a porta na cara

António Capelo interpreta Galileu no Teatro do Bolhão

D.R.

Obra de Brecht, encenada pelo japonês Kuniaki Ida e protagonizada por António Capelo, põe em palco a vida de uma das figuras que mais transformou a forma como vemos o mundo

André Manuel Correia

“A Vida de Galileu” é uma obra escrita pelo autor germânico Bertolt Brecht, em 1943, no início da corrida à bomba atómica, e que esta sexta-feira sobe ao palco do Palácio do Bolhão, no Porto, pelas 21h30, orquestrada pelo encenador japonês Kuniaki Ida e com o ator António Capelo a dar corpo ao pai da ciência moderna.

No séc. XVII um matemático ousou baralhar as contas harmoniosas do universo. Galileu Galilei recuperava a teoria de Copérnico e causava um terramoto. Enfrentou os dogmas e a Inquisição para demonstrar que a Terra girava em torno do Sol.

Mais de quatrocentos depois, o abalo das eleições americanas faz-se sentir, muitos dos fundamentos civilizacionais logrados com o desenvolvimento científico parecem agora mais ténues, e a sociedade mundial vê-se novamente confrontada com um mundo que tinha medo de conhecer. Rodopiamos freneticamente, isso sabemos. Mas em torno de quê?

Em palco, Galileu (António Capelo) e o companheiro Sagredo (João Paulo Costa) observam as constelações através da luneta, antepassado dos atuais telescópios. Aquilo que verificam ameaça irremediavelmente toda a razão e todo o conhecimento que a humanidade havia construído até àquele dia, 10 de janeiro de 1610. A terra é apenas mais um astro, como a Lua, e também ela se move em torno de algo maior: o Sol.

Ao mesmo tempo, contemplam a Via Láctea, repleta de incontáveis estrelas. Nada no universo é, afinal, único. “O que estamos a ver, nenhum ser humano viu até hoje”, afirma Galileu, extasiado e abismado com a descoberta. “Mas então onde está Deus?”, questiona o amigo. Aquela nova ciência que se abria aos olhos daqueles dois homens não proporcionava nenhum vislumbre do divino e isso, por si só, constitua uma heresia.

Galileu foi um matemático que decidiu intrometer-se na astronomia e na filosofia, mais útil para as necessidades da sua época quando se limitava a desenvolver bombas de água que muito ajudavam a resolver os problemas da cidade. Foi um revolucionário, mas nunca um herói. Foi um homem de carne e osso que, como qualquer outro, se apavorou com os instrumentos de tortura da Inquisição. Após um dos ensaios da peça, António Capelo confessa-se “fascinado” pela “humanidade de Galileu. “Ele não é um herói e Brecht trata-o como um ser humano”, frisa o ator.

Olhar a atualidade através dos clássicos

Levar a palco esta peça de teatro insere-se numa lógica de revisitar os clássicos. Em parceria com o nipónico Kuniaki Ida, formador dramatúrgico e especialista em teatro físico e de máscaras, o Teatro do Bolhão já acolheu encenações de “Otelo”, de Shakespeare, ou “Édipo”, a incontornável tragédia grega de Sófocles. No entanto, esta incursão pelos clássicos torna-se vital para pensar e questionar a contemporaneidade, uma época em que as crenças e os medos parecem sobrepor-se novamente à razão.

“Chegámos a um momento em que a nossa vida, do ponto de vista de civilização, pode estar a ser posta em causa”, alerta António Capelo, para quem a peça adquire “uma dimensão mais trágica e até premonitória” face ao contexto político e social.

Ao fim de quatro séculos, diz o intérprete, “nós também não queremos acreditar, mas a realidade está aí, bateu-nos à porta ou talvez nos tenha batido com a porta na cara”.

Ainda assim, “A Vida de Galileu”, que conjuga a poesia de Brecht com um certo realismo americano, simboliza também uma mensagem de esperança para o futuro e de confiança nas novas gerações.

É como uma passagem de testemunho, onde António Capelo, aos 60 anos, partilha o palco com oito jovens que foram seus alunos na Academia Contemporânea do Espetáculo (ACE). “Esta relação com os mais novos é muito importante, porque nos obriga a questionar permanentemente o nosso trabalho”, afiança o ator.

A peça estará em cena até 3 de dezembro no Teatro do Bolhão. As récitas decorrem às quartas, pelas 19h, de quinta a sábado, às 21h30, e ao domingo à tarde, pelas 16h. No dia 19 de novembro, pelas 17h, há lugar a uma conversa “Na Órbita de Galileu” entre o físico e deputado do PS Alexandre Quintanilha e Rui Pereira.