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A energia dos escravos

JOEL SAGET/Getty

Publicado em 1966, "Beautiful Losers" é o segundo romance de Leonard Cohen, que no ano seguinte editou o seu álbum de estreia e nunca mais voltou à ficção. Já havia uma edição portuguesa, "Belos Vencidos", e agora o livro reaparece em nova tradução com o título "Vencidos da Vida"

Enquanto "The Favourite Game" (1963) [há também duas edições portuguesas] era autobiográfico e gloriosamente poético, este é um romance experimental e alucinado.

Escrito na ilha grega de Hydra, à base de jejuns, insolações e anfetaminas, o texto recupera estratégias modernistas de estilhaçamento de linguagens e estilos. Há entradas diarísticas, canções e anúncios comentados, notas de rodapé, excertos de obras eruditas. E lamentações ou jeremíadas, orações, poesia automática, imprecações políticas e delírios psicadélicos, numa torrente verbal que tem momentos assombrosos e outros embaraçosos. De facto, a pirotecnia verbal que torna este romance memorável também o faz parecer uma homenagem tardia a Joyce ou um mau poema de Ginsberg.

"Vencidos da Vida" é marcadamente epocal e tornou-se célebre pelas suas incontáveis descrições sexuais gráficas, uma utopia carnal que lembra Reich pela dimensão programática e Bataille pelo detalhe das suas cerimónias. É uma pornografia carnavalesca, de tão excessiva, e inclui episódios de escatologia, pedofilia e profanação, bem como minúcias anatómicas mais repugnantes do que exaltantes. Uma das poucas cenas consequentes é uma manifestação pela independência do Quebeque que descamba em euforia orgiástica.

O narrador do romance é um académico, especialista nos índios do Canadá, que investiga a biografia de Catarina Tekakwitha (1656-1680), uma iroquesa convertida ao cristianismo que se tornou a primeira santa nativa americana. Embora apareçam frequentes referências à mitologia e costumes tribais, o narrador interessa-se sobretudo pelos jesuítas e por Catarina.

Pelos jesuítas porque são missionários zelosos, inteligentes, terroristas, e também a sua fonte histórica, que ele cita com abundância (em francês) e mestria narrativa.

O fascínio de Catarina está em ser uma vítima e um corpo sagrado. Conhecida como Virgem Iroquesa, era uma rapariga que fez voto de castidade e massacrou o corpo com toda a espécie de sacrifícios. Depois de morta, muitas curas e milagres invocaram a sua intercessão. O narrador quer por isso salvá-la dos jesuítas, do catolicismo, dos seus devotos, salvá-la até da colonização ocidental. E nesse processo apaixona-se por ela.

Apaixona-se, na verdade, pela imagem dela e pela imagem da santidade: "O que é um santo? Um santo é alguém que alcançou uma remota possibilidade humana. É impossível dizer que possibilidade é essa. Creio que tem algo que ver com a energia do amor" (pág. 122). Um santo é alguém que se mantém em equilíbrio no caos mas que não desfaz o caos. A santidade é sexuada, sexual, do masoquismo ao recalcamento místico, do martírio ao "odor de santidade". A investigação torna-se por isso uma confissão: o narrador quer "foder uma santa", pois sente que só assim a pode compreender. A ligação visceral da sexualidade à espiritualidade, da "vulgar e eterna maquinaria" humana à "eterna maquinaria celestial" sempre foi a obsessão número um de Cohen.

O discurso do narrador de "Vencidos da Vida" é atravessado pela memória da sua mulher, uma índia que se suicidou. E pela evocação malsã do seu amigo e amante F., também falecido, intelectual bissexual, hedonista sádico, manipulador cínico, bombista nacionalista. O texto está mergulhado em solidão e desespero e no desejo de compreender o que aconteceu àqueles três; mas existe igualmente uma vontade de compreender o Quebeque, o Canadá, a América: "nós não desejamos destruir o passado e os seus largos fracassos, apenas desejamos que os milagres demonstrem que o passado foi alegremente profético" (pág. 262). E uma tentativa de resgatar os índios em geral e emespecial Catarina, "puríssimo lírio das margens do Mohawk e do rio Saint Lawrence".

VENCIDOS DA VIDA

Leonard Cohen

Alfaguara, 2011, trad. de João Henriques, 296 págs., €17,90

Artigo publicado na edição do Expresso de 1 de outubro de 2011