Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

“Henrique IV, Parte 3” ou como aprender a traduzir Shakespeare na era da técnica

Susana Neves

A constitui a estreia do escritor Jacinto Lucas Pires como encenador e apresenta no Teatro Carlos Alberto um príncipe precário forçado a fazer traduções técnicas de autoclismos, mas que sonha transpor Shakespeare para português

André Manuel Correia

O título deste texto é tomado de empréstimo à obra “Aprender a Rezar na Era da Técnica”, de Gonçalo M. Tavares, e ilustra bem a triste sina de Henrique, um príncipe precário dos nossos dias, forçado a fazer traduções técnicas de autoclismos e empilhadoras. O sonho é traduzir Shakespeare para português, mas são as contas para pagar que comandam a vida, também elas empilhadas e que relegam pelo cano abaixo a vocação artística. “Henrique IV, Parte 3” é uma tragicomédia, imaginada e encenada pelo escritor Jacinto Lucas Pires, que sobe ao palco do Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto, a partir desta quarta-feira.

Henrique é um homem acorrentado a uma vida de problemas quotidianos que se entrecruzam com pesadelos e diálogos com personagens shakespearianas. Tal como Leopold Bloom, personagem principal de “Ulisses”, também Henrique nos leva a uma odisseia contemporânea. Pouco épica, muito irrisória. Realista, em suma. Ao contrário do anti-herói criado por James Joyce, que deambula pela cidade de Dublin, Henrique move-se em círculos pela cozinha, nesta terceira parte de Henrique IV, fruto da imaginação de Jacinto Lucas Pires.

O cenário, a cargo de Sara Amado, é nu e aberto, ao jeito do teatro isabelino, no qual, ironicamente, as personagens se veem subjugadas a existências mecânicas e desprovidas de liberdade, pautadas pela reprodução de anúncios publicitários. Às voltas na cozinha, Henrique, interpretado pelo ator Luís Araújo, perde-se em conversas e discussões superficiais com a esposa Iolanda (Anabela Faustino), ao mesmo tempo que se entrega a um jogo de sedução com Miriam (Paula Diogo), a jovem e provocatória mulher a dias.

É no meio desta deriva interna e existencial que o tradutor tem a projeção ou o pesadelo de dialogar com Sir John Falstaff (Ivo Alexandre), personagem saída da página, o “gordo genial” da peça de Shakespeare “Henrique IV, Parte I e II”.

Sátira à sociedade de consumo

Após um dos ensaios do espetáculo, Jacinto Lucas Pires explica que Henrique “é alguém que está neste problema de, por um lado, ter a vontade de traduzir Shakespeare, de querer ser um artista a sério, como ele diz, e ao mesmo tempo ter de pagar contas e ter de fazer traduções técnicas”. Para o escritor que nesta peça se estreia como encenador, “isso acaba por contaminar a vida pessoal [da personagem], em que também parece haver uma vida técnica e outra de fantasia”.

A peça apresenta uma sátira à sociedade de consumo e pode ser uma metáfora, trágica e simultaneamente cómica, de qualquer artista atual confrontado com a impossibilidade de se dedicar exclusivamente à criação. No entanto, para Jacinto Lucas Pires, acaba por ser um dilema que não é exclusivo do mundo da arte, mas também vivido, por exemplo, por “alguém que quer desenhar sapatos e acaba por ter de fazer contabilidade”.

Um escritor que se aventurou a “orquestrar” teatro

A ideia para esta terceira parte saída da imaginação do escritor surgiu de “um choque com a realidade” e da impossibilidade de, também ele, mergulhar na obra shakespeariana “Henrique IV, Parte I e II”. O problema, esse, não é inédito. “Não havia dinheiro”, conta. “Primeiro desisti e esqueci, mas depois surgiu-me a ideia, como escritor, de: ‘Ok, e se isso [a falta de dinheiro] também fosse uma questão da peça?’”

Embora já tenha escrito textos dramáticos, “Henrique IV, Parte 3” marca a estreia de Jacinto Lucas Pires como encenador. “Deu-me graça”, começa por dizer. “Gostei do exercício um pouco esquizofrénico. Gostei de poder ser dois, de poder separar as duas funções”.

Mais do que “desenhar” a peça”, o desafio “é orquestrá-la”, frisa Lucas Pires. “Enquanto escritor nunca imaginaria esta cena nua”, explica o autor de 42 anos, vencedor do “Grande Prémio de Literatura dst” em 2013, que neste trabalho como encenador teve um ano para se distanciar daquilo que escreveu.

“Henrique IV, Parte 3” estará em cena até domingo e trata-se de um espetáculo coproduzido pela companhia “Ninguém” e pelo Teatro Nacional São João. A peça é para maiores de 14 anos. As sessões decorrem de quarta-feira a sábado, pelas 21h, e, no domingo, a última récita realiza-se às 16h.