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d.r.

Nunca como agora terá havido tanta oferta em matéria de séries televisivas. “A Guerra dos Tronos”, “Downton Abbey” ou “Homeland” transformaram-se em objetos de culto. Mas será justo que a televisão de hoje faça esquecer a televisão de ontem?

Reinaldo Serrano

A vastíssima oferta televisiva, sobretudo europeia e norte-americana (mas também australiana e, na imensa América, canadiana e brasileira) vive um tempo de excecional fertilidade; o que significa necessariamente que ao espectador está (ou deveria estar) reservada a tarefa nem sempre grata de filtrar a panóplia de escolhas colocadas à sua disposição.

O efeito assaz perverso de tal circunstância faz com que o dito cujo se concentre no objeto imediato (as estreias, as recomendações baseadas nas estreias, a continuação nem sempre feliz de uma série do presente) e esqueça, quantas vezes injustamente, um tempo passado que acolheu no mesmo pretérito algumas séries que mereceram e merecem ainda um novo olhar.

Numa altura em que as palavras “retro” e “vintage” ganham um novo alento ditado por modas cuja origem é quase sempre indeterminada, achei por bem dar conta de alguns casos que, nas noites que mais cedo chegam, podem ser sinónimo de um bom serão.

O primeiro exemplo que me surgiu, de forma absolutamente espontânea, remete-nos para a América dos anos 70. Entre outubro de 1973 e março de 1978, os ecrãs de muitos lares norte-americanos habituaram-se à presença truculenta e agreste de um detetive totalmente calvo e no limite da lei que, num estilo muito próprio, atuava ao serviço do Departamento de Polícia da cidade de Nova Iorque. Falo, naturalmente, de Kojak, a personagem interpretada por Telly Savalas, que ao longo de 5 temporadas na CBS deu nome à celebrada série e protagonizou um total de 118 episódios, todos disponíveis no mercado internacional, em muitos casos com legendas em português.

Desde o genérico inicial (e a música que o tornou único) à narrativa marcadamente urbana ao estilo de um Dirty Harry, a série tem uma marca de intemporalidade própria dos “clássicos”, pelo que aqui se recomenda acrescentando um dado curioso: em boa parte das temporadas, há um outro Savalas que nunca teve a projeção de Telly; trata-se do seu irmão George, nascido Georgios Demosthenes (Telly era, aliás, uma derivação de Aristotelis) e que na série é um subordinado do mais célebre filho de um casal grego que vingou nos Estados Unidos.

A série tem, por fim, algumas curiosidades que importará referir: “Who loves ya, baby?” tornou-se a frase mais “batida” e a imagem de marca do detetive que, nas temporadas iniciais, é um abnegado fumador de cigarros mas que, com a proibição dos anúncios ao tabaco entrada em vigor apenas dois anos antes da estreia, “Kojak” substitui o vício por um outro mais... doce: os chupa-chupas tornar-se-iam o complemento perfeito(?) para a rudez de uma das mais icónicas personagens do policial norte-americano. De referir ainda que, desgraçadamente, alguém se lembrou de fazer um “remake” da série em 2005, tendo Ving Rhames como protagonista; durou apenas uma temporada...

Sete teve merecidamente “McCloud”, nome do Marshall de Taos, no Novo México, interpretado pelo subestimado e veterano Dennis Weaver que, curiosamente, foi chamado para protagonizar a estreia de Steven Spielberg em longas-metragens para televisão no notável “Duel”, de 1971. Um ano antes surgia a figura de Sam McCloud, misto de “cowboy” e detetive com notáveis poderes de dedução, a braços com suspeitos muitas vezes... insuspeitos, e um chefe particularmente cético.

Não obstante, as muitas capacidades do polícia arredado das grandes cidades levaram-no a ser solicitado pelos colegas de Nova Iorque como investigador especial; e a verdade é que, entre 1970 e 1977, “McCloud” tornou-se um sucesso dentro e fora de portas – até os espectadores portugueses ficaram rendidos aos talentos do Marshall nova-iorquino quando a série por cá passou. Quanto a Dennis Weaver, foi nomeado consecutivamente, em 1974 e 1975, para o Emmy de Melhor Ator, numa série cujo produtor executivo foi Glen A. Larson. O nome será familiar aos entusiastas das séries televisivas: o nome de Larson está associado a “Battlestar Galactica”(1978), “Buck Rogers no Século XXV”(1979), “Knight Rider”(1982), “Automan”(1983) ou mais recentemente “Caprica”(2010) como produtor consultivo.

“McCloud” tem todos os ingredientes necessários ao bom produto televisivo. E não se preocupe, caro leitor: às vezes é bom esquecer a globalização e as tecnologias que falam de futuro, mesmo quando são estas que nos permitem agradáveis e nostálgicos regressos a um passado que urge (re)descobrir. É bom não esquecer que até o tempo volta atrás, ou não tivessem os relógios atrasado uma hora no passado fim de semana.