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As mãos e os frutos

JOSÉ RODRIGUES. O mestre morreu uns dias antes de completar 80 anos. Na sua Fundação, uma coletiva com 86 obras homenageia o mestre. Na imagem, o poderoso retrato assinado por Maria do Carmo Vieira

Das brumas de Cerveira emerge uma figura. Ou a memória construída de uma figura. Um homem. Um convento perdido no monte. Um espaço achado para revolver o marasmo instalado num quotidiano cinzento. Como as brumas. Como o nevoeiro a cobrir a montanha. Como o desejo nunca alcançado. A vila com Espanha como horizonte transformou-se. Transformou-o. O modo como arrastou tantos outros para aquele espaço debruçado sobre um rio feito alforge de histórias nunca contadas, transformou a existência de uma vila que nunca mais foi a mesma.

Passeava-se pela cidade, e o Porto parecia ganhar uma nova luminosidade. Noutros instantes, era de novo o rio a espraiar-se sob o seu olhar ao deambular pelos jardins da cooperativa Árvore. Se em Cerveira era o Minho a cravar-se-lhe num imaginário febril, no Porto era o Douro a desenhar-lhe as emoções.

José Rodrigues. Um homem com sede de mundo. Esculpiu a sedução dos corpos femininos no bronze da sua paixão. Esboçou o erotismo todo que lhe consumia a alma em desenhos raros, singulares. Fez da arte um percurso de inquietações. Esse desassossego, fundeado num desprendimento prazenteiro, levava-o a agarrar-se a uma absoluta disponibilidade para tentar perceber, tentar acompanhar, tentar dinamizar o trabalho dos mais jovens. Aqueles que poderiam fazer-lhe concorrência. Os mesmos para quem o trabalho de José Rodrigues a partir de certa altura poderia já não significar o quanto significara para outros olhares, noutros tempos. Ainda assim, o mestre, como tantos preferiam chamar-lhe, mantinha-se atento. Disponível. Aberto.

Os artistas quiseram homenagear José Rodrigues com 86 trabalhos nele inspirados, como o quadro da autoria de Graça Martins

Os artistas quiseram homenagear José Rodrigues com 86 trabalhos nele inspirados, como o quadro da autoria de Graça Martins

Caminhava a passo lento. Ganhava por vezes uma dimensão teatral, com sobretudo longo num corpo pequeno, e grandes chapéus a cobrirem-lhe a cabeça. As barbas transformaram-se num elemento identitário. E depois havia o olhar. E depois havia as mãos.

Não é possível entender José Rodrigues, muito menos o seu trabalho, se não houver disponibilidade para deixar que se fixem prolongadamente os nossos olhos nos olhos que o habitavam. Eram uns olhos pequenos. Por onde nos últimos tempos escorria uma indizível tristeza, por vezes sobressaltada por instantes de uma inesperada vivacidade e alegria. Brilhantes, desnudavam o mundo todo na procura de imagens, significados, reflexos dos outros, partículas de tudo. Era um olhar irrequieto, feito de uma quase conventual serenidade.

Não saberemos nunca o que viam os olhos de José Rodrigues. Não conseguiremos nunca penetrar no espaço mais íntimo daquele poderoso teatro de sombras. Mas conhecemos o modo como o que esse olhar interpretava se materializava em esboços, em desenhos, em esculturas.

Teria completado 80 anos na passada sexta-feira. Os familiares e amigos estavam há muito a preparar-lhe uma grande homenagem. Morreu uns dias antes. Poderia ser um final há muito anunciado, mas sempre rodeado pela secreta esperança de que com ele, com aquele homem que tantos anjos fez brotar do seu imaginário artístico, o definitivo descer do pano nunca aconteceria.

Em boa verdade não deixará nunca de estar em cena. No exato dia em que se transformaria num octogenário, foi inaugurada na sede da Fundação uma exposição com 86 obras assinadas por diferentes artistas, subordinada ao tema interpretações. São trabalhos que pretendem apresentar olhares diversos sobre como em cada um se constrói a recordação do mestre ou da sua obra.

Interpretações é o título dado à exposição coletiva

Interpretações é o título dado à exposição coletiva

Numa outra sala há um conjunto de esboços, desenhos feitos recentemente por José Rodrigues. Já não teve tempo de os assinar. Vê-los, é acompanhar o movimento daquelas mãos carnudas, mas pequenas. Brutas na aparência, mas feitas de uma imensa delicadeza. Pressente-se a leveza do gesto, sente-se a simplicidade das formas, reconhece-se a ternura, contida, de quando em vez escondida, mas sempre espraiada pelos mais recônditos recantos de uma obra sem fim.

Eugénio de Andrade, seu grande amigo e durante longos anos vizinho com quem partilhava cumplicidades várias, constatava uma dimensão poética no labor de José Rodrigues. Tratados descomunais poderiam ser escritos para tentar explicar o inexplicável contido num trabalho desenvolvido ao longo de cinco décadas. No final saberíamos sempre que a obra, o que ilumina e molda esta obra, são os olhos. São as mãos e os frutos.