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Sexo aos quadradinhos

Uma obra de banda desenhada abalança-se a contar a história da sexualidade humana. Da pré-história ao cibersexo está lá tudo, na medida certa. É (só?) desfrutar

Sabia que Cleópatra usava um vibrador feito de papiro e cheio de abelhas? “Oh la la… estamos longe dos dias em que embrulhávamos ‘O amante de Lady Chatterley’ em papel canelado”, escreveu o vespertino “London Evening Standard” sobre o livro que nos revela esta informação. Nada de sobrolhos erguidos ou ademanes escandalizados: a obra que sugerimos para este convidativo verão de São Martinho pretende responder à pergunta: o sexo está em toda a parte, mas quantos de nós o compreendemos verdadeiramente? Faz lembrar o genial “ABC do amor”, de Woody Allen, cujo título original e bem melhor era “Everything You Always Wanted to Know About Sex * But Were Afraid to Ask”.

“Sex Story”, publicado há seis meses em França – com disseminação alargada desde que saiu a versão anglófona, na semana passada, com o subtítulo “dos macacos aos robôs” –, pretende ser “a primeira história da sexualidade em banda desenhada”. Desenhada pela artista gráfica Laetitia Coryn e contada pelo psiquiatra e sexólogo Philippe Brenot, a obra adota uma perspetiva antropológica, que vai dos nossos antepassados primatas aos ciborgues do futuro. Sento tão ambiciosa a empreitada, não admira que tenha levado dois anos a concretizar.

Que o ser humano tem com o sexo e a sexualidade uma relação inevitável é evidente (ou não estaríamos cá). Mas essa relação é, também, inconstante, pouco uniforme e apropriadamente fluida. “Conduzidos pelo prazer, pelo poder, pela vingança, pelo desejo de ter filhos ou simplesmente por ser proibido, os humanos andam com o sexo no cérebro desde antes da civilização”, escreve, a respeito do livro, “The Guardian”. A resposta, garante o diário britânico, está num volume que, sem jamais ceder à pornografia, explica o erotismo, a castidade ou igualdade de género.

A minúscula Clítoris

Quando surgiu o conceito de casal? (pista: não foi, como no anúncio de Philip Larkin, em 1963, “entre o fim da proibição de ‘Chatterley / e o primeiro LP dos Beatles”, nem na Inglaterra vitoriana onde a palavra “calças” era considerada indecente). O que eram os festivais fálicos? Que papel têm, nos assuntos íntimos, a religião e a superstição? O que é um casal moderno? Será que a monogamia vai durar? Sabe de onde vem a palavra “clítoris”? Respondamos a esta última: Clítoris, figura da mitologia grega, era uma rapariga tão pequenina que Zeus se viu obrigado a transfigurar-se em formiga para com ela fazer amor. De onde a derivação anatómica.

O jornal francês “Le Monde” elogia o “humor e a erudição” de uma obra que, para “The Guardian”, é “irreverente” e “gráfica nos dois sentidos”. Laetitia Coryn admitiu ter hesitado em aceitar o convite de Philippe Brenot (que tem um blogue sobre sexo no sítio do jornal “Le Monde”) e ter empregue grandes cautelas no equilíbrio entre desejável malícia e sordidez a evitar. Já o psiquiatra diz constatar, na sua atividade clínica, que muitos casais “não têm qualquer problema psicológico, mas não conseguem comunicar, viver com calma e obter realização sexual”. Isto apesar de nunca ter havido, acrescenta, tanta liberdade para cada qual definir as suas relações (o casamento por amor é coisa de há um século, no máximo, e as liberdades sexuais e amorosas estão sempre limitadas a parte do mundo e a certas camadas socioeconómicas).

Brenot explica que, se a família é algo maravilhoso que muito fez pela proteção do ser humano, também propiciou a subjugação da mulher. “A paternidade é o início da dominação masculina”, diz o francês, que recorda que esse conceito não existe, por exemplo, nos chimpanzés, cujas comunidades são formadas por “machos isolados e fêmeas com crias”. Entre os animais não há violência doméstica, comenta o francês.

“Sex Story, la première histoire de la sexualité en BD”, Autor: Philippe Brenot e Laetitia Coryn, Editora: Les Arènes; Páginas: 208; Preço: €24,90

“Sex Story, la première histoire de la sexualité en BD”, Autor: Philippe Brenot e Laetitia Coryn, Editora: Les Arènes; Páginas: 208; Preço: €24,90

Tudo menos estar só

No campo das coisas boas que aconteceram, refere o reconhecimento do direito da mulher ao prazer sexual, inexistente quando lhe cabia o papel de parideira de filhos, não raro morrendo ou sofrendo doenças relacionadas com a gravidez e o parto. Na Roma Antiga, conta, as relações do casal eram tão associadas à procriação que uma mulher podia levar o marido a tribunal caso ejaculasse fora… do local certo. “O sexo no casamento destinava-se à procriação e o papel da mulher era receber o esperma”, diz Brenot.

Coryn espera que o livro contribua para maior aceitação de diferentes orientações sexuais, embora não seja um manual. “Quisemos que fosse algo desinibido”, diz, reiterando que nunca se viveram tempos tão bons para a sexualidade como os atuais. O que nunca mudou, contudo, dizem os autores, é a vontade que toda a gente tem de encontrar alguém a quem amar. “As pessoas têm medo de ficar sozinhas no fim da vida. Temem não encontrar a pessoa perfeita com quem viver”, diz Brenot. Talvez seja mais avisado procurar alguém com cujas imperfeições consigamos viver. E vice-versa.