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Kate Tempest levou o mundo a um exame de rotina

JEAN-FRANÇOIS MONIER / AFP / Getty Images

Livros de poesia, discos, um romance, peças de teatro, performances. Prémios e nomeações, muitas, assim como tem sido muito o reconhecimento internacional. Kate Tempest, artista britânica, faz de tudo um pouco e faz tudo bem

Helena Bento

Jornalista

Kate Tempest, rapper, performer e escritora britânica, tinha apenas 27 anos quando soube que o seu nome constava da lista dos “20 poetas mais promissores da nova geração” da Poetry Book Society, que em anos anteriores reconhecera autores como Carol Ann Duffy e Don Paterson, vencedor este ano dos Costa Awards, um dos mais prestigiantes prémios literários do Reino Unido e Irlanda, na categoria de poesia. Foi também nesse ano que a sociedade fundada por T. S. Eliot em 1953 atribuiu-lhe o Ted Hughes Poetry Prize pela “inovação” que trouxe à poesia, sobretudo com “Brand New Ancients”.

Desde então, muita coisa aconteceu. Kate Tempest, que tinha já publicado o seu primeiro livro de poesia, “Everything Speaks In Its Own Way” (que esteve nomeado para o Guardian First book Award), e levado a palco a peça “Wasted”, recebeu encomendas da BBC e da Royal Shakespeare Company; lançou o álbum “Everybody Down”, nomeado para o Mercury Prize; publicou “Hold Your Own” (poesia) e estreou-se na ficção com o romance “The Bricks That Built the Houses”, sobre quatro jovens na casa dos 20, já conhecidos dos leitores, mas que surgem ali com características diferentes.

É o caso de Harry, que era um homem e é agora uma mulher de “corpo angulado que usa roupas masculinas” e passa os dias a arrastar-se de trabalho mal pago para trabalho mal pago, vivendo numa situação de precariedade absoluta. O mesmo se passa com Leon, com quem trafica droga à noite. “Qual das tuas vidas é que tu estás, afinal, a viver de forma verdadeira?”, pergunta Harry a Becky, que, tal como ele, tem mais do que ocupação, uma roupagem, mantendo oculta, por razões mais ou menos óbvias, uma delas: a de prostituta, que acumula com a de dançarina.

Os quatro, à exceção de Pete, têm vidas duplas, refletindo essa duplicidade não só uma procura vertiginosa pela multiplicidade de experiências, desejos, paixões, como a ausência de uma direção, de um caminho, de um saber o que fazer e como, quando a vida é esmagada pela vida. “E agora não há nenhum propósito, para além da satisfação das nossas necessidades. Andamos à volta do circuito, a nossa graça e a nossa ganância sempre em confronto”, escreve Kate Tempest em “Progress”, um dos poemas do íntimo e confessional “Hold Your Own” (2014).

Kate Tempest, cujo apelido é, na verdade, Calvert, cresceu em Brockley, sul de Londres. É a mais nova de cinco irmãos. O pai é advogado (tirou a licenciatura já tarde e enquanto trabalhava na construção) e a mãe ensina inglês a estrangeiros. Numa entrevista ao “Guardian”, diz ter tido muito contacto, em pequena, com a arte. O pai, que vivia com a “Odisseia” de Homero na cabeça, costumava contar-lhe “longas e intermináveis histórias”; o tio era artista, a tia também – foi com ela, aliás, que Kate ouviu pela primeira vez falar sobre as dificuldades que enfrentam as mulheres artistas, palavras que mais tarde, e noutras circunstâncias, viria a relembrar muitas vezes.

Kate Tempest começou a afastar-se da escola muito cedo. Aborrecia-a ter de estar sentada numa sala de aula “a fazer coisas que não interessavam para nada”. Tudo lhe parecia “uma farsa”. Desistiu da escola quando tinha 14 anos para ir trabalhar para lojas de discos. Foi por volta dessa altura que começou a frequentar raves de dub com um amigo jamaicano cuja família tinha uma cultura musical imensa e a casa “cheia de vinis”, a criar as suas próprias rimas, influenciada por poetas como William Blake e W. H. Auden e, noutro espectro, Wu-Tang Clan, e a participar em battles. “Quando andava na escola só me apetecia ouvir música e ler. Tinha vontade de aprender, mas à minha maneira. Depois descobri o hip-hop e o rap e isso mudou a minha vida”.

Matriculou-se na Brit School, uma academia de artes performativas onde tinham também estudado Adele e Amy Winehouse. Mais uma tentativa de integração e normalização que viria a cair por terra. Não é que o ambiente da academia não fosse “interessante”, porque era, muito, mas ao mesmo tempo era também “aterrador”. Kate desistiu pouco tempo depois. “Ali toda a gente sabia o que queria e estava a trabalhar para isso”. Sentía-se “excluída”, da mesma forma que se sentira antes, embora por razões diferentes, quando a sua homossexualidade ainda era um problema para alguns. “Há, provavelmente, em cada jovem lésbica, um coração agitado e envergonhado”, dizia na mesma entrevista ao "Financial Times" a rapper e poeta britânica, que tem tatuado no braço, ao lado de uma tatuagem de uma flor de cerejeira, a palavra “India”, nome da sua ex-mulher.

No início de outubro, Kate Tempest lançou “Let Them Eat Chaos”, uma espécie de check-up completo ao mundo atual, que vem dar continuidade a "Everybody Down" (Kate voltou a encontrar-se com Dan Carey, produtor). Capitalismo, gentrificação, individualismo, o culto das celebridades, a overdose coletiva de selfies, a alienação causada pela tecnologia (passamos a vida a olhar para ecrãs "para não termos de ver o planeta a morrer"), corrupção, alterações climáticas. Cabe quase tudo ali. Há até uma piada sobre David Cameron, ex-primeiro-ministro britânico, a fazer sexo com uma cabeça de porco (uma versão bem mais mansinha da copulação bizarra imaginada pelos realizadores de “Black Mirror”, graças a Deus).

“Europe is Lost”, quarto tema do álbum, denuncia a desorientação e falta de rumo da Europa, assim como dos Estados Unidos. “Londres está perdida, e ainda assim nós clamamos vitória. Tudo o que há são regras irrelevantes, e nós não aprendemos nada com a história”. E depois, mais à frente, já a resvalar para a ironia: “Aos vossos filhos são receitados sedativos. Mas não se preocupem com isso. Preocupem-se é com os terroristas”.

Na entrevista ao “Financial Times”, Kate fala de si e do que lhe vai na cabeça, e do quanto pôs de si e do que lhe vai na cabeça no novo álbum: “Vivemos em tempos muito complicados, loucos, caímos muitas vezes numa espécie de visão em túnel, que é um verdadeiro embuste. Preocupamo-nos apenas com as nossas experiências, ignorando as pessoas que estão mesmo à nossa frente. Isso contribui para o definhar da nossa saúde mental. Devíamos estar ligados de uma forma íntima e eterna”. Kate Tempest sabe coisas. Ouçam-na.