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Germano Silva. Historiador e “eterno aprendiz de jornalista” é o novo ‘honoris causa’ da UP

LUCÍLIA MONTEIRO

O antigo menino de solipas nos pés que com 11 anos começou a trabalhar para ajudar a família tornou-se esta quinta-feira, aos 85 anos, no mais recente doutor honoris causa da Universidade do Porto

André Manuel Correia

A Universidade do Porto (UP) atribuiu esta quinta-feira o título de doutor honoris causa ao jornalista e historiador Germano Silva. O salão nobre da Reitoria encheu-se de gente, dos mais variados quadrantes da vida pública portuguesa, que ali quiseram prestar homenagem ao homem que melhor conhece a cidade Invicta e que encontrou nas ruas a sua enciclopédia.

Da cultura ao desporto, do universo político ao mundo académico, Germano Silva é alguém que granjeia simpatia e admiração pelo seu legado. O historiador tornou-se esta quinta-feira no 92.º doutor honoris causa da UP e junta-se a um leque de personalidades do qual constam figuras como Eugénio de Andrade, Agustina Bessa-Luís, Vasco Graça Moura, Jean-Claude Juncker, Jorge Sampaio ou Marcelo Rebelo Sousa. O atual Presidente da República não pôde comparecer na cerimónia, mas fez questão de deixar uma mensagem ao homenageado.

“Gostaria de felicitar Germano Silva pelo doutoramento honoris causa e pelo reconhecimento que esta distinção representa por uma trajetória pessoal feita com simplicidade, persistência e dedicação à cidade do Porto e aos seus concidadãos”, escreveu o PR, num texto lido pelo reitor da UP, Sebastião Feyo de Azevedo.

Em seguida, o grau de mérito foi atribuído pelo reitor da UP, numa cerimónia que contou com o elogio da obra do historiador a cargo de Luís Miguel Duarte e com o apadrinhamento do cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, anterior bispo do Porto.

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”

Na cerimónia estiveram presentes, entre muitos outros, o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, políticos, jornalistas e amigos de Germano Silva, ícones do desporto, como Rosa Mota, ou personalidades ligadas à cultura e à arte, como Pedro Abrunhosa. Até Manuel do Laço, o icónico adepto boavisteiro fez questão de comparecer nesta homenagem ao “homem humilde” com quem, assegurou ao Expresso, tanto tem aprendido.

“É o meu autêntico professor”, afirma o torcedor axadrezado, cujo coração hoje se enche de alegria, mas não pelas façanhas do Boavista. “Hoje o meu coração vai mais alegre e mais rico, porque vejo prestar homenagem a um homem que eu tanto admiro e por quem tanta estima tenho. Portugal e a cidade do Porto precisam de muitos Germanos”, diz.

A ex-atleta olímpica Rosa Mota falou ao Expresso do amigo de longa de data, do “grande homem” com “facilidade para cativar as pessoas” que na sua perspetiva “ensina a gostar ainda mais da cidade do Porto e nos faz descobrir coisas que não conhecemos”. Também Pedro Abrunhosa revelou “admiração profissional” e “amizade imensa” por este homem que “traduz a cidade”.

O músico portuense recuperou uma passagem do escritor russo Tolstói que na sua opinião é representativa do trabalho de Germano Silva: “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. E assim foi, de facto, o percurso do jornalista e historiador, de 85 anos, desde uma pequena aldeia em Penafiel até se tornar numa das maiores fontes de conhecimentos sobre a cidade do Porto.

O rapaz magro de solipas nos pés que veio para o Porto fazer História

Nascido em São Martinho de Recezinhos, a 13 de outubro de 1931, foi no Porto que cresceu, se tornou homem e ajudou a cultivar tantos outros ao longo dos anos. Após concluir o ensino primário, o rapaz magro, com 11 anos, de solipas calçadas nos pés, começou a trabalhar como operário fabril para ajudar a família que vivia numa das inúmeras “ilhas” da cidade. Naqueles tempos, “a principal preocupação não eram os livros, mas a sobrevivência”, confessa.

“Setenta anos depois, esse rapaz é este homem de cabelos brancos”, disse Germano Silva durante o discurso de agradecimento. “Como foi possível chegar até aqui?”, questiona-se o “eterno aprendiz de jornalista”, como se considera, afirmando que “o jornalismo nasce e morre todos os dias”.

A primeira mestra que teve, durante a infância, foi a avó Júlia. Não sabia ler ou escrever, mas com ela Germano aprendeu a “compreender e amar a natureza”, conta. Através dessas histórias, habituou-se a ler nas entrelinhas a sabedoria popular e a humildade que ainda hoje o acompanha. “Habituei-me a saber ouvir aqueles que tinham alguma coisa de proveitoso para me dizer”, explicou Germano Silva durante o discurso.

Na década de 50 começou a estudar à noite, na antiga Escola Comercial de Oliveira Martins, onde obteve o Curso Geral de Comércio. Em seguida, trabalhou como escriturário no Hospital de Santo António, onde teve a oportunidade de conhecer vários jornalistas que aí se deslocavam à procura de notícias.

Pouco depois, em 1956, iniciou o seu percurso no mundo do jornalismo, como colaborador desportivo no “Jornal de Notícias”, sendo mais tarde admitido nos quadros redatoriais. Um dia foi-lhe dito pelo editor: “só serás um bom repórter se conheceres bem a cidade”. E esse foi o ponto de viragem na vida de Germano Silva, que passou a percorrer todas as ruas, todos os recantos, à procura de histórias para contar. Assim se fez historiador. Assim se tornou num contador de histórias como poucos.

Germano Silva possui uma vasta bibliografia sobre o Porto, organiza regularmente visitas guiadas pela cidade, conta com seis décadas de experiência jornalística, área à qual continua ligado. Foi colaborador do “Expresso” e atualmente permanece como cronista na “Visão” e no “Jornal de Notícias”.