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Cultura

Uma livraria, um paraíso

d.r.

Um livro sobre uma livraria. A mais bonita do mundo

As livrarias são lugares mágicos. E há umas mais mágicas do que outras. Uma visita a Paris não é uma visita a Paris se não incluir uma passagem obrigatória pela pequena (mas só em aparência) loja, feita de salas e salinhas, corredores, passagens secretas, escadas que dão lugar a esconderijos, e com livros, tantos livros. Há camas e espaços para descansar e dormitar no caso de a leitura já ir longa e as horas terem passado a correr. Ali, vive-se, dentro e fora dos livros. E é como em qualquer casa: onde cabem 10, cabe sempre mais um. Ali, cabe sempre mais um livro, mesmo que as centenas de prateleiras estejam a abarrotar e os montes de livros empilhados estejam prestes a perder o equilíbrio. E cabe sempre mais um leitor.

Virada para Notre Dame, no quinto 'arrondissement' parisiense, a Shakespeare & Company é uma casa. Durante os seus 65 anos de vida, tem sido o poiso temporário de escritores celebrados, como Jorge Luis Borges, A. M. Homes, James Baldwin e Dave Eggers, como de aspirantes a homens e mulheres de letras. Até mesmo de leitores. Há camas e chá quente a fumegar.

Este livro conta a história desta livraria, através de fotografias, ilustrações, passagens de diários, pequenos ensaios e memória de escritores, de Anaïs Nin, Sylvia Beach, Lawrence Ferlinghetti, a David Rakoff, Kate Tempest até Ethan Hawke, famoso ator, mas também escritor. Não faltam fotografias, momentos eternizados por convidados tão conhecidos como William Burroughs, Henry Miller ou Alberto Moravia.

Através destes testemunhos celebra-se esta casa, mas também se conta a história de um século Paris e de França, da Geração Perdida de Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald ou T. S. Elliot, passando pela Geração Beat deWilliam Burroughs e Jack Kerouac, ao Maio de 68 e aos tempos da Guerra Fria.

A Shakespeare and Company nasceu em 1951. Mas na verdade, esta é a sua segunda vida. É que esta livraria teve uma primeira vida, a partir de 1919, quando Sylvia Beach abriu a sua pequena livraria. Em 1941, numa Paris ocupada, um soldado alemão entrou na loja para comprar “Finnegans Wake”, de James Joyce. Sylvia recusou vender o único exemplar na loja, dizendo que lhe pertencia. Duas semana depois, o alemão regressa para comunicar à dona da livraria que todos bens da loja seriam confiscados. Assim foi. A livraria chamava-se Shakespeare and Company.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, muitos veteranos de guerra, no âmbito do programa GI Bill, receberam o apoio para estudar depois do seu regresso. O americano George Whitman, que se licenciara em jornalismo pela Universidade de Boston, e que depois de viajar pela América do Sul, servira o exército americano durante o conflito mundial, escolhera a Sorbonne para estudar.

Aos poucos, trocando as suas senhas de refeição por livros, construiu a sua própria biblioteca, uma das coleções mais completas da literatura inglesa. Tornou-se tão grande que foi preciso encontrar um espaço independente para ela. Whitman, que conhecia a fundadora da Shakespeare and Company, acabou por abrir a sua própria livraria, em 1951, para ter uma casa para os seus livros. Poucos anos depois, batizou-se, com a permissão de Silvia, como Shakespeare and Company. A segunda vida da livraria.

A loja, no início, não tinha mais de três salas, cheias de filas de estantes que tornavam qualquer passeio numa expedição complicada. Mas foi crescendo, andar a andar, sala a sala. E foi Whitman que construiu cada prateleira e colocou pequenos esconderijos para os divãs que iam recebendo escritores que procuravam um abrigo. Promovia conferências, aulas de diferentes línguas, momentos de informalidade que juntassem quem gostava e/ou fazia literatura. “Estou cansado de pessoas que dizem que não têm tempo para ler. Eu não tenho tempo para outra coisa”, costumava dizer.

“Shakespeare and Company, Paris: A History of the Rag & Bone Shop of the Heart”, de Krista Halverson, Thames & Hudson, 384 páginas, €32 (preço na Amazon)

“Shakespeare and Company, Paris: A History of the Rag & Bone Shop of the Heart”, de Krista Halverson, Thames & Hudson, 384 páginas, €32 (preço na Amazon)

Hoje, a livraria tem seis pisos. E é a filha de Whitman, Sylvia (assim batizada em honra da fundadora da primeira Shakespeare and Company), que gere o espaço. George morreu em 2011, aos 98 anos, em sua casa, num andar acima da Shakespeare and Company. “Eu criei esta livraria como um homem escreveria o seu romance, construindo cada divisão como um capítulo. E eu gosto de pessoas que abrem a porta como se estivessem a abrir um livro, um livro que os leva para um mundo mágico nas suas imaginações”. Esta foi a sua herança.