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Um ano supimpa

Fotografias Larry Busacca/Getty Images

Jim Jarmusch teve um 2016 fora de série, estreando duas longas-metragens em simultâneo: a ficção “Paterson”, com Adam Driver, e o documentário “Gimme Danger”, sobre os The Stooges, de Iggy Pop. Vão passar ambas em Portugal no próximo mês, no âmbito do Festival Lisboa e Estoril – e com a presença do autor

A história não é nova, mas não é demais sublinhá-la: se Jim Jarmusch já não é o herói do cinema independente americano, é porque este, coitado, lá se encarregou de morrer de morte natural e num baque previsível, depois dos fulgurantes anos de 80 e 90. Jarmusch foi uma das figuras pioneiras desses indies que se acotovelavam nas catacumbas de Nova Iorque sem pensarem em contas de supermercado. Eles tentaram reinventar um cinema americano dandy e cosmopolita, enredado no autorretrato, na intimidade e na cinefilia; um cinema desencantado mas que não queria perder de vista o sentido de humor (e ai de quem o fizesse). O seu primeiro filme, em que Jarmusch enterrou sem remorsos uma bolsa de estudo, “Permanent Vacation”, fala disso, dessa existência orgulhosa, solitária e um bocado perdida, com apartamentos esburacados e muros grafitados em pano de fundo. Jarmusch chegou a Manhattan aos 17 anos. Deixara para trás Akron, Ohio, nos arrabaldes de Cleveland, que ele detestava (e que depois filmaria em “Stranger Than Paradise”). O pai trabalhava na fábrica de pneus da Goodyear. A mãe era crítica de cinema de um jornal local. Tinha como maior glória do currículo a entrevista que um dia conseguira fazer a Humphrey Bogart. É a mãe que empurra o jovem Jim para a literatura e, de facto, ele forma-se em letras. No último ano da universidade, passa uns meses em Paris, torna-se rato de Cinemateca, apaixona-se por Ozu. De volta a Nova Iorque, acompanha a cena musical do Lower East Side, arranja uma banda, quer tocar guitarra elétrica. Ainda hoje o faz, com os Sqürl, o dueto de rock underground que mantém com Jozef van Wissem (que toca alaúde). Entra na Tisch sem saber muito bem como, o seu grupo de amigos gravita em torno do CBGB, até que, com a década de 70 a acabar, chamam-no para ‘assistente do assistente’ de um filme que não era um filme qualquer: “Lightning Over Water”. Seria o último de Nicholas Ray, coassinado com Wim Wenders.

Começa a aventura. O rapaz faz-se cineasta a seguir. Quase ninguém vê à época [1980] “Permanent Vacation”, que mal chega a passar nas salas, mas toda a gente (de uma certa esfera...) quer ver “Stranger Than Paradise”, rodado quatro anos depois com película de 35mm a preto e branco que sobrara de “O Estado das Coisas”, de Wim Wenders. Jarmusch convida John Lurie para encarnar Willie, um húngaro há dez anos a viver em Nova Iorque que recebe subitamente a visita de uma prima adolescente de Budapeste, Eva. Com outro amigo, seguem os três para a Florida num road movie sobre a falência do sonho americano — e o filme segue para o Festival de Cannes, onde vence a Caméra d’Or: tiro e queda, é o indie do ano. Depois vem “Down By Law”, “Mystery Train”, os cinco sketches, um para cada cidade, de “Night on Earth” (de novo com Roberto Benigni), a mitologia americana e os “Provérbios do Inferno”, de William Blake no fabuloso “Dead Man”, com aqueles riffs de Neil Young — aqui sim, um western que ousou ter algo de novo a dizer ao género, com um Johnny Depp ainda a atirar-se para território desconhecido. Território esse que Jarmusch voltaria a pisar, naquela América antinaturalista que ele sempre moldou à sua maneira, cheia de gente orgulhosa de ser diferente dos demais, bem patente num filme de vinhetas, deliciosas quase todas, como “Café e Cigarros”. E quem não se lembra do “Ghost Dog” composto por Forest Whitaker, do corpo enorme daquele assassino contratado que parecia levitar nos telhados dos prédios? Aquela Nova Iorque mafiosa tinha uma relação muito mais profunda com a cinefilia (“Le Samouraï”, de Jean-Pierre Melville, os policiais de Seijun Suzuki) e com o hip-hop do que com a realidade.

Ainda há poucos anos recapitulámos aqui a nonchalance destes heróis, por ocasião de uma caixa DVD lançada pela Alambique. Foi na altura em que Jarmusch nos presenteou com um filme de vampiros que era metade sangue metade rock, traçando uma rota improvável entre Detroit e Tânger, com Tom Hiddleston e Tilda Swinton no elenco. História de Adão e Eva, coisa de amantes desiludidos com a eternidade; um filme sublime e com banda sonora a condizer: “Only Lovers Left Alive”. Uma vez mais, Jarmusch provou-nos que soube sobreviver ao fogo de palha do seu tempo. Sobreviveu-lhe pela poesia, pelo rock’n’roll. Pelo cinema, claro.

UM FILME À PROCURA DE HARMONIA: “PATERSON”

Jarmusch não é — nunca foi — um cineasta rápido e isto não tem nada que ver com o tempo que ele gasta nas rodagens. Gosta de se entregar com paciência a cada projeto, de escrever com demora, de escolher a dedo os seus atores quando é o caso, os produtores que não o chateiem. As razões que o levam a filmar são também elas fruto de experiências que precisam de tempero. Por exemplo, o filme anterior, “Only Lovers Left Alive”, nascera de um cruzamento da leitura de um dos últimos livros de Mark Twain, “The Diaries of Adam and Eve”, com uma frase que Tilda Swinton lhe dissera muitos anos antes: “Acho que passaste a tua vida a fazer filmes de vampiros...”.

Acontece que, neste 2016 em que o cineasta completou 63 anos, fez o que jamais fizera: deitou cá para fora duas longas-metragens, ambas com direito a estreia mundial na mesma edição de Cannes (coisa não inédita mas rara), em maio passado: “Paterson” e “Gimme Danger”. O primeiro passou na Competição a concurso pela Palma de Ouro, é uma ficção escrita de raiz por Jim. O segundo, exibido em sessão especial, é um projeto de documentário sobre os The Stooges, banda seminal do rock americano do fim dos anos 60, formada por Iggy Pop, os irmãos Asheton e Dave Alexander. Por duas vezes conversámos com Jarmusch em maio durante o festival, em torno de ambas as obras que, segundo foi anunciado, o Festival Lisboa e Estoril vai exibir em Portugal no mês que vem — com a presença de Jim em Portugal.

“Paterson” é uma história tranquila, sem conflito dramático aparente. O argumento não é um haiku, mas cabe perfeitamente numa folha A4. Trata-se de seguir sete dias da vida de um homem casado, Paterson, que vive numa pequena cidade com o mesmo nome, perto de New Jersey. O nosso herói é um condutor de autocarros na casa dos 30. A profissão da personagem, para perturbar ligeiramente as coisas (mas aqui foi coincidência) rima com o nome do ator porque o papel é de Adam Driver (com quem Jarmusch quis trabalhar depois de o ter visto em “Frances Ha”, “Inside Llewyn Davis” e em dois ou três episódios da série que o lançou, “Girls”). Todos os dias se entrega Paterson à mesma rotina, quando se despede em casa da sua bela mulher Laura (Golshifteh Farahani), de origem iraniana, ela que cuida com devoção do lar e de Marvin, o buldogue da família. Nas horas livres, o condutor de autocarros saca de um pequeno caderno do qual nunca se separa e dedica-se ao seu hobby: escrever poesia. A sinopse do filme já referira que aquela é a terra que viu nascer William Carlos Williams (autor de um poema épico chamado ‘Paterson’, precisamente) e Allen Ginsberg. Que extrair daqui? Talvez um “antídoto” — foi Jarmusch que o disse — “para o negrume e para o peso dos filmes dramáticos e do cinema de ação.” Talvez um filme para o espectador “deixar a flutuar em frente aos olhos como as imagens que vemos passar pela janela de um autocarro...” Isto nem soa muito ao cinema de Jarmusch, pois não? Mas a sua assinatura está lá desde o primeiro plano.

Jarmusch continua igual a si próprio, generoso na conversa sem deixar de ser narcisista o tempo todo. Crítico feroz dos hábitos do seu tempo, ainda não tem conta e-mail nem telemóvel. A cada dois “why?” é bem capaz de responder um “why not?” E o que mais conta em “Paterson” é também algo assim, lacónico, sugestivo, que não passa pelas palavras mas por estados de espírito que não são fáceis de descrever. O assunto não é nada fácil, diz Jarmusch, que reconhece em “Paterson” a influência asiática. Prova disso é o cameo final de Masatoshi Nagase, o ator japonês que fazia de turista rockabilly numa visita a Memphis em “Mystery Train” e que aqui volta a este continente como um fantasma. “Harmonia?”, pergunta-se Jarmusch a si próprio. “Tal como a música, o que é harmonia para alguns ouvidos pode não ser para outros. Não passo de um pseudobudista que faz tai chi e lê imenso sobre budismo e, nessa qualidade, posso arriscar uma definição. Harmonia é quando todas as coisas se relacionam com uma só e o equilíbrio entre elas é tudo. É verdade que pensei muito nisto quando estava a rodar o filme. Agora, a partir daqui, cada um que se desenvencilhe. Não me aventuro a acrescentar mais ao assunto...”

Jarmusch também fala um pouco de Paterson-cidade, frisa como aquele sítio é tremendamente diverso, “com uma rica mescla de irlandeses e de italianos misturados com uma enorme população de afro-americanos e de imigrantes do Médio Oriente. Era a ideia que eu queria: um condutor de autocarro tipicamente branco e americano, que foi militar, e que vive em paz com uma mulher do Médio Oriente — por muito que isso não caiba na cabeça de idiotas como Donald Trump. Além disso, Paterson é uma pequena cidade muito catita a 20 minutos do centro de Nova Iorque e sobre a qual ninguém fala. A pessoa mais famosa da terra é hoje o rapper Fetty Wap, que caiu na berra o verão passado por causa de um single, ‘Trap Queen’. Não é canção que eu aprecie. É muito comercial. Mas Paterson, a cidade, ninguém a filma, ninguém a refere. E eu fico danado com isso, o que é que quer?!”

Que estranho filme este, “Paterson”, tal como estranha é aquela família de homem calmo, mas sempre um pouco desconfiado e sisudo, e de mulher criativa e sorridente, com um cão pachorrento no hipotético lugar da criança que o casal não tem — será este um ideal de perfeição que Jarmusch tem vontade de moldar? “O tipo [Paterson] vive um bocado no mundo dele, não sai da sua cabeça nem parece lembrar-se das coisas que a mulher lhe diz. Está sempre a perguntar-se que sonho teve, parece deslizar sobre a Terra como se não fosse nada com ele. Ao passo que ela é diferente, faz coisas, quer controlar o seu tempo à sua maneira. Onde é que eles se unem? Numa coisa que para mim é preciosa: eles são pessoas que decidiram como querem viver. Não se impõem nada mutuamente, jamais se chateiam.” É como se tivessem atingido a plenitude, diz o cineasta. “Por isso escreve ele belos poemas.” Mas, mesmo belos, para que servem? Paterson, ao contrário da mulher (que quer singrar na música country!) não faz nada do que escreve, não relê nem publica, como se tudo não passasse de um exercício fugaz, de um ato falhado. É aqui que o buldogue Marvin entra em jogo, com um momento-surpresa que, para o protagonista, se tornará uma lição de vida.

“Sabe, eu sou um diletante, confesso. Sempre fui e para mim esse aspeto não é negativo. Não sou nada bom a saber tudo sobre uma só coisa mas sei um pedacinho sobre muitas coisas. É que, para mim, o mundo é simplesmente tão fascinante que não me consigo concentrar apenas num ponto. Sou cineasta, tenho uma banda, ouço todos os tipos de música que posso. Mas também estudo zoologia e micologia: analiso cogumelos. Leio livros de diferentes nacionalidades. Nunca estou satisfeito... Chamem-me um pretensioso diletante e eu direi OK, posso bem com isso, é o meu trabalho. Deve ser por isso que os críticos estão sempre a escrever: ‘este é o filme mais pessoal dele.’ Não importa que filme faça... Lembro-me de quando fiz ‘Broken Flowers’: “Enfim, o seu filme mais pessoal...’ É sempre o último. Andam a dizer isso de mim desde ‘Permanent Vacation’. Na verdade, o que os meus filmes fazem é documentar a pessoa que eu sou e aquilo que anda a ocupar-me a cabeça em determinado momento da minha vida.

PAIXÃO POR OUTSIDERS

“Paterson” deixa uma sensação de lenta hipnose para a qual o espectador é convidado desde o primeiro plano. O filme vai ganhando em assombro e estranheza à medida que se entranha. É provável que este estado rime com a poesia que a personagem vai vertendo para o seu caderno. A verdade é que nada sabemos das motivações psicológicas das personagens, tão-pouco como se encontraram Paterson e Laura, se são realmente felizes, pois nem um nem outro extravasam sentimentos. É tudo muito controlado, como se o drama tivesse de ficar à porta sem licença para entrar, mas em simultâneo tudo é muito doce, como se a vida daquelas personagens pudesse, de facto, caber num poema — e, se calhar, cabe mesmo. “Um dia perguntaram-me porque é que eu não consigo filmar gente normal que vai a uma velocidade normal fazer compras ou tomar café...”, contou o cineasta em desabafo. “E a verdade é que eu também não sei explicar isto, mas as pessoas que me interessa filmar são sempre outsiders. Isto não é novo: sempre houve uma cultura mainstream no mundo, em todas as fases da história da humanidade, e os outsiders que a desafiaram, que não se encaixaram nela.”

Estreia. Em 2016, aos 63 anos, estreou duas longas-metragens na mesma edição do Festival de Cannes

Estreia. Em 2016, aos 63 anos, estreou duas longas-metragens na mesma edição do Festival de Cannes

Larry Busacca/Getty Images

O cineasta pede então licença para contar uma história engraçada que lhe vem à memória. Está relacionada com os que encaixam e aqueles que ficam à margem. “Foi Samuel Fuller, uma pessoa que eu adorava, quem me falou disto. Deveria ter sido a primeira cena de um filme — um de muitos — que ele nunca chegou a fazer. A cena passa-se entre Balzac e Victor Hugo, contemporâneos e rivais. Estão ambos a entrar ao mesmo tempo na Ópera de Paris, mas por portas diferentes. E cada um deles tem ao lado o seu assistente pessoal. Balzac diz-lhe ao ouvido: ‘Olha, não é que vem ali o Victor Hugo? Se eu conseguisse escrever como ele seria rico!’ Depois a ação passa para Victor Hugo, que por sua vez diz ao assistente: ‘Olha, não é que vem ali o Balzac? Se eu conseguisse escrever como ele seria um verdadeiro escritor!...’ Coisas do Sam Fuller. Nunca mais se esquecem...”

UMA EXPLOSÃO: “GIMME DANGER”

Dois dias depois da primeira entrevista, a voz de Jarmusch volta a fixar-se na memória do gravador num novo encontro e em mais trinta minutos de conversa, desta vez em mesa-redonda com vários jornalistas. Jim pede uma limonada. Está já a deitar Cannes pelos cabelos mas ainda anda animado: “Gimme Danger” acaba de ser aplaudido na estreia da noite anterior. O documentário sobre os The Stooges (que chega a Portugal a 17 de novembro, diz a Leopardo Filmes) segue a história da formação da banda de Ann Arbor, perto de Detroit, no Michigan, zona de radicalismo pop naqueles finais de anos 60. A vida do grupo seria curta, de 1967 a 1974 — e com várias dissoluções pelo meio. Da formação original, todos filhos da classe operária americana, só Iggy Pop — que também esteve em Cannes — permanece vivo. E é por causa de Iggy Pop, amigo de Jarmusch de longa data (pelo menos desde “Coffee and Cigarettes”, curta de 1993), que este filme existe. Jarmusch explicou tudo: “Para aí há uns oito anos, o Iggy vira-se para mim com esta: ‘qualquer dia ainda algum engraçadinho começa a fazer um filme sobre mim que vai fatalmente começar ou acabar nos Stooges. Espero que esse engraçadinho sejas tu!’ Ao que eu lhe respondo: ‘Estás a pedir-me que eu faça um filme sobre os Stooges? Olha que eu começo amanhã!’ Dito e feito. Foi uma grande honra.”

O apelo era irresistível, confirmou Jarmusch: “The Stooges foram primordiais, selvagens, anarquistas. Comportavam-se como animais, sobretudo o homem [Iggy Pop] que estava na linha da frente. Não é de ânimo leve que eu lhes chamo no filme a maior banda de rock and roll de sempre. Não estou a pedir ao mundo que concorde comigo. Mas, para mim, é nesse pedestal que eu os ponho. Eles estão muito ligados à minha adolescência no Ohio [Jarmusch nasceu em 1953], à música que eu ouvia nessa época, miúdo de 14 ou 15 anos de uma cidade pós-industrial. Havia os Velvet Underground, a banda mais revolucionária de todas. Os MC5, que eram politicamente de cortar à faca. E, depois, os The Stooges, que me marcaram pelo seu choque sónico, pela aventura primitiva da sua atitude. Nunca sabíamos como é que eles iam acabar os concertos. Nunca mais ninguém levou tanta energia para um palco. Certo dia, um jornalista perguntou ao Joey Ramone porque é que ele se mexia tão pouco nos concertos, ao que o Joey responde: ‘Ouve, depois de Iggy Pop, o que é que tu queres que eu faça?’ Isto parece-me muito acertado.”

Jarmusch diz ainda que “Gimme Danger” lhe saiu um filme híbrido. Não é bem um documentário. Não é filme que queira experimentar ou inovar. Nem é filme que siga as convenções do biopic segundo o modelo de entrevista com oráculo (embora os depoimentos de Iggy Pop estejam lá o tempo todo). “Não, isto é muito mais um ensaio, uma carta de amor aos Stooges do que outra coisa. Não quero descobrir segredos, violar privacidades, escavar na merda. Odeio isso, é coisa de tabloides. Por exemplo, aquele filme sobre Kurt Cobain, ‘Montage of Heck’... Achei-o oportunista, insuportável, extremamente ofensivo.”

“Gimme Danger”, pelo seu lado, é um filme que Jarmusch queria deixar em estado bruto, sem filtros e amplificador no máximo, como os discos da banda que ele venera: “Fun House”, “Raw Power”... “Ainda pensei em falar com o David Bowie [que ainda estava vivo à data desta entrevista], com o John Cale, mas até esses comentários, que seriam seguramente preciosos, acabaram por sair do plano de trabalho. Quis ficar na família. Os meus filmes, de resto, sempre foram feitos assim. Entretanto fui descobrindo coisas na conversa que se instalaram sem eu me dar conta. Não conhecia o grande amor de Iggy pelos pais. Eles viviam numa caravana, o pai era professor, a mãe secretária. Eram felizes. O Iggy não tem nada daquele cliché do músico rock revoltado com a progenitura. Também não me tinha apercebido até que ponto é extraordinária a sua memória: ele lembra-se de tudo, dos pormenores mais ínfimos e extraordinários.”

O filme, de resto, prova a aptidão de James Newell Osterberg, Jr. [nome verdadeiro de Iggy Pop] para ator, os seus monólogos são de uma clareza apaixonante e Jarmusch aproveitou o melhor deles. Filmou-o três dias, oito horas por dia. “Sabia que ele estava disposto a responder-me a tudo o que eu quisesse perguntar-lhe. E foi o que ele fez, com aquela vontade de sugar tudo à sua volta. É claro que não foi fácil dar uma ordem ao seu discurso, na montagem trabalhámos que nem uns maníacos.” Mas o próprio Iggy ajudou Jarmusch a arrumar as coisas, naquele momento em que ele resume que nunca quis fazer parte disto e daquilo, “que nunca foi hippie, nem glam, nem punk, nem alternativo, e que se esteve sempre nas tintas para o que diziam dele — porque ele só quis sempre ser ele próprio”, conclui Jarmusch.

“Sabe uma coisa? Quando eu era adolescente, o meu cabelo começou logo a embranquecer. Eu vestia-me de negro. Vivia obcecado por Hamlet, pelo Roy Orbinson e pelo Zorro! Depois fiz ‘Strangers Than Paradise’, a preto e branco. Alguém escreveu então algo assim: ‘mas que gajo mais pretensioso: veste-se de preto, pinta o cabelo de branco e ainda faz filmes a preto e branco!” Ou seja: comecei a aprender cedo a não passar cartão ao que dizem de mim. Acho que devo isso ao Iggy Pop. Ele viveu sempre muito consciente destas armadilhas e ataques. É um mutante, no corpo e no intelecto. Foi a pessoa que mais força me deu para eu ser quem sou.”