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Albrecht Koschorke: “Existe hoje 
uma tendência 
de neonacionalismo 
e xenofobia em todo 
o mundo”

Para contextualizar a reedição de “Mein Kampf”, que inundou os mercados mundiais no final de 2015, findos os direitos exclusivos sobre a obra, o renomado historiador literário alemão lançou “O Mein Kampf de Adolf Hitler — Uma Leitura Crítica”, editado em Portugal pela Cavalo de Ferro

foto Universitat Konstanz

A reedição de “Mein Kampf” serve para desmistificar a obra?
Nem por isso. Quem quer mistificá-la não se deixa desencantar. São pessoas que vivem numa esfera de comunicação e grupo de pressão dissociados do discurso científico. Que era o caso do próprio Hitler. Ele desprezava os estudiosos que podiam rebater as suas afirmações.

De onde surgiu a ideia desta “leitura crítica”?
Os filologistas tendem a pensar que os trabalhos poéticos que estudam estão numa esfera distinta da do poder político. Mas não é assim. A ficção artística e o exercício do poder estão muitas vezes interligados. Muitos governantes, em particular autocratas com poder instável, usam a literatura para legitimar as suas reivindicações. Mais do que isso, veem-se como artistas e artesãos do Estado e comportam-se como tal. Ditadores e senhores da guerra do século XX eram escritores: poetas líricos como Estaline, Mao ou Karadzic, romancistas como Saddam Hussein, autores com mitologias nacionais doidas como Saparmyrat Nyýazow, ex-líder do Turquemenistão. Sabemos que Hitler começou a sua ‘carreira’ como pintor e, de certa forma, foi também um artista das palavras. Não digo isto para minimizar as coisas que ele disse e fez. Pelo contrário, acredito que a arte não é, de todo, inofensiva. Há um elemento de artifício e fantasia na política sem o qual não podemos entender as forças motrizes que exercem o poder. Decidi escrever este livro para se compreender melhor este aspeto imaginário da violência e da dominação.

Como é que foi recebida na Alemanha a entrada de “Mein Kampf” em domínio público?
Ao início, foi polémica, alguns temiam que fosse enobrecer este tipo de trabalho pobre. Mas, para já, o debate acalmou. No geral, os que o tentam ler dizem que é aborrecido, confuso e até ridículo. Para os leitores de hoje, é um livro obsoleto. Ainda assim, atraiu milhões de leitores, e ainda pode fazê-lo. E porquê? O que torna uma ideologia extremista e violenta tão atraente, mesmo com conteúdos tão inconsistentes e bizarros? Quando e sob que condições é que se torna popular fugir a todas as obrigações civis? Quando é que a violência, a destruição e até a autodestruição se tornam elegantes e atraentes?

Tem as respostas?
Existe hoje uma tendência de neonacionalismo e xenofobia em todo o mundo, mas não é só a ideologia que importa, para lá disso está o empoderamento que ela assegura a certas pessoas. Elas abraçam uma ideologia não pelo que diz mas pelo que oferece: a possibilidade de se alcançar e exercer poder, sair de uma posição inferior, ultrapassar a impotência... É esse o subtexto de Hitler: “Juntem-se a mim e poderão fazer o que quiserem, tudo será permitido, porque nós vamos permiti-lo pela singela força das nossas decisões.” É uma complexidade que ainda é, ou que voltou a ser, um assunto urgente na política atual, daí o meu estudo ter recebido considerável atenção. Os leitores ficaram surpreendidos com quão frutífera uma análise literária de um manifesto totalitário pode ser.

Quando descreve a forma como certas pessoas usam a ideologia de Hitler, é quase impossível não pensar no recente sucesso de Donald Trump. É uma comparação minimamente verosímil?
Bem, Trump não vai certamente tornar-se um ditador, ainda que sonhe com isso, com ser capaz de expulsar milhões de estrangeiros, recorrer à tortura, brincar com a ideia de dar início a uma guerra nuclear... As fantasias políticas de Trump não lidam com a normalidade democrática, circulam em torno do que ele concebe como um estado de exceção, que está de facto a criar. As regras normais deixaram se aplicar. Argumentos, factos, provas de inconsistências, todas as ferramentas de contenção política falham, não têm impacto nele. É este o seu triunfo sobre os “comentaristas liberais”, as “elites de esquerda”, os “académicos politicamente corretos”. Ele não é ingénuo, e os que o seguem também não. Sabe que está a mentir, e eles também. Mas a mensagem que ouvem é: “Suspenda-se o jogo da verdade! É o jogo deles, não o nosso! Se não jogarmos pelas regras deles, eles parecem estúpidos e desamparados e nós sentimo-nos fortes!” Isto dá-nos uma perspetiva geral do futuro das democracias, onde se perdeu a confiança nas instituições, no discurso público e na representação política.

O triunfo dele é comparável à retórica dos líderes populistas europeus?
Claro. Tivemos Berlusconi, o mesmo tipo de empreendedor a fazer-se passar por político. Tivemos Nigel Farage. E agora temos Marine Le Pen, Heinz-Christian Strache [da extrema-direita austríaca] e figuras menores na Alemanha. Mas, mais do que o pessoal político, importantes são as estruturas sociopsicológicas que dão poder a este tipo de liderança: o desejo, em termos freudianos, de escapar à relação do superego com as autoridades políticas e, em vez disso, criar uma relação do id com o demagogo que tem tudo o que eu desejo — riqueza, poder, mulheres — e que, ao mesmo tempo, é agressivo, detestável e vulgar, tal como eu sou nas profundezas da minha alma.

Refere uma polarização política que faz lembrar o período entre guerras, mas diz que, “para já, isso não quer dizer que estamos à beira de uma nova era totalitária”. Só vamos entender a atualidade numa retrospetiva fria ou já podemos fazer previsões à luz do que a História nos ensinou?
Penso que, enquanto indivíduos, somos capazes de ver o que está a acontecer de olhos bem abertos. Mas, enquanto coletivo, nós, europeus, estamos a fazer ou pelo menos a tolerar muitas coisas que devíamos ter aprendido a evitar. Parecemos dispostos a abandonar importantes ganhos do pós-II Guerra Mundial e, nesta dinâmica de coletivo, podemos vir a acabar num sítio onde a maioria de nós nunca quis estar.

Concorda que as sucessivas vitórias eleitorais da extrema-direita [AfD] são um prenúncio do que está para vir?
Era expectável que um partido de extrema-direita com potencial em 20% a 30% do eleitorado se estabelecesse na Alemanha e na maioria dos países europeus. Cinicamente, pode dizer-se que está em curso um processo de ‘normalização’ num ambiente político até agora mais ou menos temperado. Há, aliás, um grande paradoxo no facto de, em Mecklenburg-Vorpommern, onde a percentagem de estrangeiros é tão baixa, a questão dos migrantes ter sido um tópico eleitoral dominante. As pessoas foram convidadas pela AfD a transformar preocupações reais em coisas imaginárias e aceitaram esse convite. A política de identidade está a tomar conta de nós.