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Outono, o terrível

GÉNIO DA IMAGEM. Sergei Eisenstein

d.r.

Reinaldo Serrano

Um filme que é o exemplo perfeito do que foi e deve ser o grande cinema e três livros que ajudam a compreender o homem nele retratado, Ivan, czar da Rússia

Percorro a sala com o olhar e apercebo-me sem esforço que o espaço que me envolve há anos chegou, também ele, à idade outonal. A evidência é naturalmente acentuada pela folhagem sépia e dourada que polvilha o horizonte envolvente, decorado ainda com o verde escurecido pelas primeiras águas.

A viagem dos olhos que já não dispensam o acessório ocular faz-se de paragens breves nos títulos que renomeiam os muitos autores que fizeram deles a minha própria casa. O convívio é sereno, por vezes volátil, seguramente efémero quando assim tem de ser.

Uma breve rotação à esquerda traz consigo o súbito desconforto de um pescoço à beira do meio século, abreviado apenas pela quase coincidência da constatação: alinhadas no cimo de uma estante já sem espaço para devaneios, três obras remetem para o mesmo nome: Sergei Eisenstein.

Desde já, aqui se regista uma declaração de interesses: considero, sem nenhuma espécie de pudor ou reticência, que “Ivan, o Terrível” (1945) é o mais extraordinário filme da história do cinema; para retirar ênfase à afirmação e assim diminuir eventuais polémicas, digo apenas tratar-se do “filme da minha vida” – por mais piroso que possa ser este “statement”. Mas, assistir no conforto do sofá, numa qualquer noite invernosa, à sequência inicial – a cerimónia da coroação – é perceber como o génio criador do homem que revolucionou a edição de imagem na sétima arte, pode ser contagiante no assombro de uma produção que levou três longos anos a consumar-se.

Cena de “Ivan, o Terrível”

Cena de “Ivan, o Terrível”

Milhares e milhares de figurantes, um imenso elenco em boa parte preenchido por atores amadores, uma notável realização com um ímpar jogo de sombras (e de poderes) e a música de Sergei Prokofiev, todos estes elementos tornam “Ivan Grozny” um exemplo perfeito do que foi o grande cinema, um exemplo perfeito do que deve ser o grande cinema.

Incontáveis teorias foram escritas sobre o objeto de culto em que acabaria por tornar-se aquele que é, juntamente com “O Couraçado Potemkin”, o mais conhecido filme de Eisenstein. Por não ser este o espaço adequado para delas falar (nem o cronista tem a presunção de saber fazê-lo), o melhor mesmo é sugerir a leitura de 3 livros que podem, pelo menos, seduzir o eventual leitor para o fascínio de Ivan, O Terrível – não apenas o filme, mas a figura em si daquele que foi o primeiro Czar da Rússia.

No que ao filme diz respeito, destaco naturalmente o argumento escrito pelo próprio Eisenstein e que, por força de um feliz acaso, encontrei e adquiri por 6 libras num dos muitos alfarrabistas que em boa hora assentaram arraiais na londrina Charing Cross Road. A edição é de 1963 mas estou certo que uma singela navegação pela net disponibilizará aos interessados ou meros curiosos outras edições a preços (assim se espera) igualmente convidativos.

Em segundo lugar, é absolutamente imperdível a leitura da autobiografia de Sergei Eisenstein; chama-se “Immoral Memories” e foi reeditada em 2014. Os relatos são vívidos e espirituosos, além de constituírem um retrato preciso da vida do multifacetado Eisenstein e da sociedade russa e soviética num período particularmente relevante na História da imensa nação. Para além disso, assistimos na primeira pessoa ao que foram as lutas, interiores e exteriores, do lendário realizador, assim como às aproximações e afastamentos em relação ao poder de Moscovo. Sublinhe-se, a este propósito, que o Regime não teve pejo em condecorá-lo com a Ordem de Lenine pouco depois da estreia de “Ivan, O Terrível”, ao mesmo tempo que rejeitou com veemência a segunda parte da saga (uma terceira parte ficou por concluir, com a morte de Eisenstein em 1948; tinha apenas 50 anos).

Finalmente, aqui se refere a existência, para quem dela queira dar (boa) conta, de “Ivan The Terrible”, biografia do Czar Ivan IV, assinada pelo experiente Henry Troyat. Nascido Lev Asnalovich Tarasov na Moscovo de 1911, este historiador, romancista e biógrafo, deixou neste último... capítulo, vasta obra entre os mais de 100 títulos que publicou numa vida extinta aos 95 anos na Paris de 2007. Catarina, a Grande, Rasputine, Tolstoi, Tchekov e, naturalmente, Ivan, O Terrível, foram objeto de estudo e análise durante a sua longa carreira nas letras, contemplada com vários prémios, entre os quais o Goncourt.

A biografia do primeiro Czar da Rússia deu à estampa em 1982 mas, mais de 30 anos volvidos, continua a ser digna de apreço, principalmente porque faz chegar “sem dor” a história de uma figura controversa, não apenas da Rússia, mas da política mundial. E, claro, quando digo “sem dor” é no sentido pedagógico da coisa, já que algumas das descrições dos métodos de tortura e assassínio perpetrados pelo tresloucado Ivan estão longe de tal designação. A leitura é fascinante, a investigação recorre inclusivamente a missivas diplomáticas de Ivan IV, tudo para nos aproximar da mente daquele que autointitulou Czar de Todas as Rússias.

A crónica que agora finda foi monotemática, eu sei, mas que não seja monocromática é o que espero e desejo. A descoberta do mundo Ivan, através do cinema ou das letras é, garanto, uma ótima opção para todos aqueles que acham que a sua sala de estar, ou eles próprios, estão demasiadamente... outonais.