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“Inquietações” dá palco a quem perdeu tudo

Foto cedida pela ACE - Teatro do Bolhão

O desemprego, a pobreza e a indiferença face ao flagelo daqueles que encontram nas ruas o último refúgio pautam o ritmo inquieto de um espetáculo de dança que nos leva até aos bastidores da dignidade

André Manuel Correia

A violência de perder tudo, até mesmo a dignidade, é o ponto de partida para o espetáculo de dança “Inquietações”, da coreógrafa Joana Providência. Interpretar, sem voz e apenas com o corpo, histórias e emoções verídicas de pessoas sem-abrigo, assim como dar palco a quem normalmente fica nos bastidores da sociedade, é o desafio que se impõe a seis intérpretes que sobem ao palco do Rivoli esta sexta-feira e sábado.

Após um dos ensaios, Joana Providência explica como foi conceber estas “Inquietações” e fala de coragem. “É uma realidade bastante dura. Não é bonita e devemos mostrá-la, confrontando-nos com ela e assumindo que existe. Ela pertence-nos e nós também temos alguma responsabilidade nisso. Temos de integrar essa realidade e essas pessoas”, afirma a coreógrafa.

Para o cenário é trazida a intensidade de um quotidiano desolador, invisível tantas vezes. A forma bastante crua como são representadas essas vivências atingem o público, confrontado com um cenário em ruínas e no qual o lixo se assume como ornamento. A movida da cidade do Porto parece longínqua e, ali, no emblemático Teatro Municipal Rivoli, a solidão invade o espaço. “Estão juntos porque estão numa mesma zona, mas há uma certa solidão. São sobreviventes”, descreve a responsável artística pelo espetáculo.

A desorientação, a deriva e o medo ficam bem espelhados nesta dança da perdição. É a espuma e a fragilidade dos dias que ali ficam retidas. “Transporta as emoções, o olhar dessas pessoas e transporta o que nós sentimos quando as conhecemos”, conta Joana Providência, que tem o apoio dramatúrgico de Raquel Sousa. A servir de base existe um trabalho de pesquisa efetuado com várias pessoas que encontram ou encontraram na rua o derradeiro e precário refúgio.

“É importante darmos visibilidade a quem tem tão pouca. A pobreza tende-se a escondê-la ou fugir dela”, evidencia a criadora do espetáculo. “Todos nós nos cruzamos com sem-abrigos, mas, quando isso acontece, pensamos que são mundos paralelos, que não se encontram nunca”, acrescenta.

“Inquietações” exige aos intérpretes (Alfredo Bertino, Chiara Zompa, Daniela Cruz, Joana Castro, João Vladimiro e Paulo Mota) muito mais de que competências técnicas. Além das formas e dos gestos, é necessário captar a essência. “Os intérpretes têm de ir a zonas de interpretação e a estados [de espírito], mais do que propriamente a formas dançadas. Têm de encontrar um impulso”, explica a coreógrafa. “Naturalmente o corpo vai buscar imagens e memórias”, prossegue Joana Providência, e tenta-se “materializar as angústias e os medos”, de forma a levar para o palco “essa força”.

O espetáculo é uma coprodução do Teatro Municipal do Porto e da ACE Teatro do Bolhão. As sessões decorrem esta sexta-feira, pelas 21h30, e no sábado, às 19h, no Grande Auditório Manoel de Oliveira.