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A ópera, segundo os Matmos

MATMOS. Dupla norte-americana apresenta-se esta noite no Teatro Maria Matos, em Lisboa

d.r.

Uma das forças mais inventivas da música eletrónica do presente, a dupla norte-americana Matmos está de regresso a Lisboa, uma das poucas paragens de um percurso europeu que os devolve aos palcos para interpretar “Private Lives”, de Robert Ashley, esta noite, às 22h, no Teatro Maria Matos

Criada entre finais dos anos 70 e inícios dos anos 80, “Private Lives” é uma das mais marcantes obras do compositor norte-americano Robert Ashley, desaparecido em 2014. É uma peça celebrada não apenas pelo pensamento musical mas pela relação com a palavra e o seu poder dramatúrgico, como se reconhecerá mais logo, em palco. A dupla Matmos, que junta na música e no quotidiano Drew Daniel e Martin Schmidt, tem uma relação antiga com a obra de Ashley e falou ao Expresso sobre porque a entende como uma peça do repertório operático contemporâneo norte-americano.

Ao serem um projeto que trabalha com electrónicas que está agora a abordar uma obra de um compositor contemporâneo sentem-se parte de uma tradição de diálogos que tem havido desde os anos 60 entre a música clássica e a música electrónica?
Se nos meterem no mesmo clube em que está a Wendy Carlos ficamos muito felizes. Há muitas vezes connosco aquela questão muito pragmática do género musical a que pertencemos. Acreditamos em géneros? E o que é que isso quer dizer? Entendo porque esses nomes existem. É como no Neflix... Estou com vontade de ver uma tragédia ou uma comédia? Mas as tragédias mais interessantes são cómicas. E as melhores comédias são trágicas. E acontece um pouco o mesmo quando se fala de géneros musicais. O Robert Ashley é um compositor e nós fazemos uma música eletrónica estranha, muitas vezes usando sons primariamente não musicais... Não é intuitivamente óbvio onde possa haver uma ligação. Mas quando começámos os Matmos a música que mais estávamos a ouvir então era a dele. E havia uma canção chamada Massage The Brain, que tinha um sample com a voz do Robert Ashley a dizer essa expressão num bar, tirada do “Perfect Lives”. Há aí uma relação, com a diferença de que não estamos a samplar, mas a interpretá-lo. E é tão divertido quanto assustador.

Lidam bem com o modo como a vossa música tem sido rotulada?
O único problema que tivemos, e isso foi há muito tempo, quando nos chamaram “laptop music”... É redutor. Os outros nomes são aceitáveis. São nomes funcionais e não concetuais. Quando se vai tocar a um lugar há aquela tendência de nos perguntarem: “o que são vocês?”... E se dizemos que é eletrónica, já estão a escrever... DJ! Isso pode causar muitos problemas técnicos (risos)... E hoje há uma tão grande proliferação de géneros, alguns quase microscópicos... Simpsonwave é uma música que se faz com loops dos Simpsons!... É um género em 2016! Maravilhoso! Gostamos de música que possa ser promiscuamente encontrada em várias áreas. E o Robert Ashley é assim. Podemos dizer às vezes que é ópera. Podemos dizer que é poesia... Podemos dizer música eletrónica em alguns seus discos. E houve frequentemente uma componente eletrónica em muitos discos de Robert Ashley. Mas ele desafia as categorias. Mas isso são características presentes em artistas que admiramos, sejam os Throbbing Gristle, Coil ou Alice Coltrane. Ou seja, artistas com uma capacidade muito fluida de atravessar o mapa dos géneros. E espero que nós tenhamos também essa mesma flexibilidade. Mas aí não seremos as pessoas ideais para o dizer. Mas é interessante ver bandas como os Mouse on Mars, que sabem escapar aos rótulos que lhes aplicam. Há no nosso trabalho dimensões que acho que se ligam um pouco ao que foram um Pierre Henry ou uns Art of Noise. Na clássica também... Quando a coisa envolve uma ideia de prestígio e de alta cultura, há interesses sociológicos em manter essas divisões e barreiras. O Robert Ashley testa muito a resistência a essas ideias. Ao fim de 30 segundos damos por nós a perguntar: o que é isto? É difícil dizer logo o que esta música é ou faz. É preciso ouvi-la por 90 minutos, viver a experiência.

d.r.

A divisão entre alta e baixa cultura na música parece-vos mais uma questão mais social do que realmente musical?
Podemos ligar educação e dinheiro ao consumo... E o consumo é um modo de expressar a pertença a algo. A esta ou aquela classe. O que gosto em “Perfect Lives” é que nasce da textura do discurso do quotidiano. Nasce dos sons do discurso da América do midwest. Em supermercados, bares e igrejas. Não envolve a poética que estamos habituados a associar a um libreto de ópera. É na verdade o oposto disso. Está muito ligado ao dia a dia. E deve muito ao ouvido do Robert Ashley pela linguagem. Era uma esponja a escutar o que as pessoas diziam no Michigan, no Indiana, no Illinois...

Havia em tempos quem achasse que a ópera era um espaço morto. Depois, e sobretudo com Philip Glass, Robert Ashley ou John Adams entre alguns mais, teve um ressurgimento. E depois há nomes como os The Knife ou Damon Albarn a fazer óperas. Faz sentido falar de ópera quando falamos de “Perfect Lives”?
Estávamos a dizer aos nossos familiares que íamos à Europa apresentar uma ópera e eles tiveram aquela visão incrível de umas perucas luxuriantes... Robert Ashley levou a ópera a um ponto em que pensou nesta ideia de ópera para televisão, que envolve uma experiência multimédia. É uma peça longa, e envolve voz. Se pudermos reduzir a isso o DNA de uma ópera, então, sim, isto é uma ópera. Não o é como um Monteverdi a terá entendido. Mas somos todos filhos da cultura dos anos 50 e 60 em que as regras que definem o que as coisas são eram como uma camisa de forças, que tivemos depois de rasgar. A ópera de Robert Ashley faz até pensar em hip hop, na cadência rítmica. E há ali tanta informação musical lançada sobre o ritmo, mas essa presença do ritmo sob a fala. Steve Reich explorou isso em “Different Trains”. O Ashley teve muita cautela com a prosódia das frases. E essa é uma das nossas maiores preocupações, no sentido de evitar que façamos uma imitação à karaoke da música dele. Uma das grandes questões que esta obra levanta é o saber se pode ser tocada sem ser por ele. Cremos que sim. E foi por isso que a começámos a fazer. E o que nos fez acreditar nisso foi o facto de termos reparado que cada versão de uma gravação de música sua é diferente. É flexível... Adaptável. Ele veio ver-nos uma vez. E não se fez anunciar... Sentou-se à nossa frente... Estávamos a imitá-lo... Foi assustador... Mas no fim pegou-nos nas mãos e disse que tinha sido bom! E se ele disse que estava bom, então é porque estava... A mulher dele, que é quem agora gere o seu legado, também parece que aprova o que estamos a fazer. Ela mesmo nos disse que ele sempre gostava que os outros pudessem cantar as suas canções! E atenção que a sua música era, e desculpem a expressão, “estranha”. E ele não deixou partituras muito descritivas. Mas isto não é inédito. Lá porque Stockhausen ou Cage publicaram partituras não quer dizer que a sua leitura seja óbvia, porque estão muito abertas à interpretação.

Como relacionam a linguagem e as palavras desta ópera de Robert Ashley com a América do presente?
Pensando num Donald Trump apetece dizer: vamos celebrar a América mainstream, os seus valores e ideais, porque parecem tóxicos e grotescos neste momento. Não vejo esta obra como sendo patriótica num sentido geopolítico. É uma ópera folk na qual as pessoas do quotidiano são celebradas e escutadas pela sua musicalidade, pela sua riqueza. Pela sua beleza... Isso é muito diferente desse milionário numa banheira dourada a incomodar as pessoas que não são suficientemente poderosas para lhe poderem responder. Esse é o lado pior da América... É deprimente. Mas espero que as pessoas possam escutar esta música como sendo uma obra da música americana, tal como escutariam bem a música iraniana sem ter de dar um selo de aprovação a uma ditadura religiosa.