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Podemos dar o Nobel a Leonard Cohen?

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A pergunta tem razão de ser – a poesia melancólica de Cohen tem marcado gerações, mas o recém-lançado décimo quarto álbum de estúdio, “You want it darker”, relembra-nos da maestria do músico na hora de compor (e de dizer adeus, seja às suas mulheres, à religião ou aos fãs). Ele garante que está “pronto para morrer” no ábum que a Rolling Stone descreve como “o mais obscuro de Cohen”; quem o ouve tem a certeza de que a tristeza e as despedidas nunca soaram tão bem

Este não é um ano fácil para quem gosta de música. Mais: este não é um ano fácil para quem tem um coração fraco e gosta de música. Este é o ano que nos levou génios como Prince ou Bowie (e no caso deste último nos deixou um presente de despedida, o premonitório álbum “Lazarus”, que só fez com que tivéssemos mais saudades). E é por isso que custa ouvir agora, da voz aparentemente divina de Leonard Cohen, o anúncio: “Estou pronto, meu Senhor”.

O décimo quarto álbum de estúdio de Cohen foi quase inteiramente produzido no estúdio do músico e compositor, em Los Angeles: o sintetizador e a guitarra estavam lá, a voz omnipresente dele – envelhecida e aprofundada pelos cigarros e a idade – também, as canções eram gravadas e enviadas por email aos produtores e parceiros. O motivo foi a debilidade de um Cohen que chega aos 82 anos com problemas de costas e habituado a mal sair de casa; o resultado foi uma obra brilhante em que ele parece despedir-se e, satisfeito, “arrumar a casa”.

Há uma coisa que toda a gente sabe sobre Leonard Cohen e a sua música – ela deve ser ouvida em períodos depressivos, ela serve para chorar, para tirarmos a tristeza que carregamos connosco cá para fora e chorarmos com ele. Ironicamente, este “You want it darker” a que a Rolling Stone chama “o mais obscuro álbum de Cohen” soa tão depressivo quanto os seus antecessores – mas também sabe a resolução, a calma e a uma certa paz que Cohen assegura aos fãs ansiosos só se alcançar quando se chega à idade certa (e já não há que sustentar a família, “ser marido e pai” ou prestar atenção a “distrações” semelhantes).

A despedida da musa

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Este mês, a “New Yorker” publicou, por ocasião do lançamento de “You want it darker”, um magistral perfil de Cohen. Há uma história nele que se destaca e é sobre Marianne, antiga musa de Cohen que inspirou canções como (obviamente) “So Long, Marianne” ou “Hey, that’s no way to say goodbye, com quem Cohen manteve uma relação durante oito anos nos anos sessenta e depois uma amizade pela vida fora. Há semanas, o músico recebeu um email da Noruega, onde Marianne nasceu e onde residiu nos últimos tempos, a dar conta de que o tempo da já idosa amiga estaria a esgotar-se por causa de um cancro.

Cohen apressou-se a escrever uma resposta que se tornou viral entre a sua comunidade de fãs – nela, anuncia, com uma paz convincente a transpirar das palavras: “Bem, Marianne, chegou a altura em que estamos tão velhos e os nossos corpos estão destroçados e acho que vou seguir-te em breve. Fica a saber que estou a seguir-te tão de perto que se esticares a tua mão, acho que consegues tocar na minha”.

Na altura da morte de Marianne, que ocorreu apenas dois dias depois de Cohen ter escrito a sua resposta, a antiga namorada do músico ouviu as suas palavras, esticou a mão como sugerido e partiu enquanto lhe sussurravam o famoso verso: “So long, Marianne”. Os fãs preocuparam-se, Cohen garantiu que pretende “viver para sempre”, mas quem ouve este álbum sabe que não é assim: ele prepara-se para a despedida, e não parece alarmado por este facto.

O Deus e as amantes do trovador da tristeza

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A canção que dá o nome ao álbum faz um bom trabalho a apresentá-lo e a marcar o tom. “You want it darker”, a primeira de nove faixas, é o coro sombrio, a batida discreta e a voz profunda e familiar de Cohen (uma frase que poderia resumir grande parte, se não quase todo, o disco). Nela, Cohen estabelece o tema deste trabalho: ele fala com Deus e com as suas amantes (foram muitas para um homem que foi sempre definido como um “trovador da tristeza”, garante a “New Yorker”), ele prepara-se para a despedida, a Ele e a elas faz questão de esclarecer tudo o que foi vivido e de dizer adeus com consciência.

“Se tu és o dealer, estou fora do jogo/ Se és o curandeiro, significa que quebrei e estou acabado/ Se tens a glória, eu devo ter a vergonha/ Tu queres mais escuridão, matamos a chama”. O coro feminino que acompanha a voz narrativa de Cohen persegue-o em crescendo enquanto ele entoa: “Um milhão de velas ardendo pela ajuda que nunca veio/ Hineni Hineni, meu Senhor”. A expressão hebraica que usa no último verso significa “estar pronto” – a mesma utilizada na Bíblia quando Abraão responde a Deus sobre o sacrifício do seu filho, Isaac, para o qual pensa estar preparado.

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A relação de Cohen com Deus será talvez uma das vertentes mais enigmáticas e interessantes a explorar numa longa carreira (que começou por ser de escritor e poeta com obras publicadas e acabou por se tornar de músico, também para ajudar a pagar as contas e a enfrentar as responsabilidades da vida de pai de dois filhos e marido). Antes de a levarmos demasiado a sério, tenhamos em conta uma declaração antiga do músico, citado no mesmo perfil: “Qualquer coisa, catolicismo romano, budismo, LSD, sou a favor de tudo o que funcionar”.

Vi-te a transformar a água em vinho

Criado no seio de uma família judaica que descreve como culta e proeminente em Montreal, no Canadá, Cohen já anunciou nunca ter querido “outra religião” – o que ele procurou foi conhecimento, exploração, investigação, e paz para as suas depressões, um problema que diz sofrer “desde a adolescência”. Foi isso que o levou a ler a Bíblia hebraica, textos budistas ou seguir os ensinamentos de outros gurus espirituais – tudo até inclusivamente se tornar um monge.

O breve capítulo da longa vida de Cohen aconteceu durante a década de 1990, quando decidiu mudar-se para um mosteiro budista, o Zen Center, em Los Angeles, depois de se ter aproximado durante décadas do seu líder, o mestre japonês Kyozan Joshu Sasaki Roshi. Rezando e estudando com ele, considerava-o um guru espiritual – mas descreveu a experiência dos seis anos entre 1993 e 1996) a viver no mosteiro como um exercício mais de disciplina do que de religiosidade. Antes disso estudou textos da Cientologia; depois disso foi para a Índia atrás de outro guia espiritual hindu, Ramosh Balsekar; e hoje frequenta uma sinagoga próxima em Venice Boulevard.

Se a estabilidade da sua relação com a religião (ou com uma religião) é duvidosa, isso transparece para os versos de “You want it darker”, em que se refere a esta dimensão em tom ora de veneração ora de desdém – a única certeza é que ela importa e é, certamente, omnipresente. O melancólico piano de “Treaty”, uma das mais belas composições de todo o álbum”, acompanha os versos em tom jocoso: “Vi-te transformar a água em vinho/ E vi-te transformá-lo de novo em água”. “Quem me dera que houvesse um tratado que pudéssemos assinar/ Não me interessa quem fica com este maldito monte/ Estou zangado e cansado o tempo todo/ Quem me dera que houvesse um tratado entre o teu amor e o meu”.

“Treaty” é apenas a segunda faixa do álbum, mas na sua poesia estabelece tudo o que importa saber sobre “You want it darker”. “Vendemo-nos por amor mas agora somos livres/ Lamento tanto o fantasma que te tornei/ Apenas um de nós era real, e era eu”. É uma balada de amor e de encerramento triste, mas desconstruída e universal. “Não disse uma palavra desde que te foste embora que um mentiroso qualquer não pudesse dizer”.

Virei as costas ao anjo e ao diabo

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A religião, a idade, o fim estão presentes em todas as canções do disco – e todas elas soam a uma continuação fluida de uma história coerente. Em “On the level”, o tema é a tentação (“Eu sabia que era errado/ Não tive dúvida nenhuma”): “Quando me afastei de ti virei as costas ao diabo e ao anjo também/ Agora vivo neste templo onde te dizem que fazer/ Sou velho e tive de me contentar com um ponto de vista diferente”. Durante toda a canção não sabemos como esta história em particular vai acabar, mas Cohen satisfaz a curiosidade melancólica de quem o ouve no final. “Estava a lutar contra a tentação mas não queria ganhar/ Deviam dar uma medalha uma coração por te ter deixado ir”.

O templo em que Cohen diz estar, agora velho e conformado, parece marcar uma presença constante e manter o ritmo do álbum – e umas faixas mais tarde, em “It seemed the better way”, há quem especule que o músico canta com desilusão sobre o seu antigo guru com quem se tornou monge no Zen Center, entretanto suspeito de assédio sexual a várias das suas estudantes. “Pareceu o melhor, quando o ouvi pela primeira vez/ Agora é demasiado tarde para dar a outra face/ Soava à verdade, mas hoje não é a verdade”, canta um Cohen desapontado (poderá ser com o seu guru, com Deus ou com outra coisa qualquer), acompanhado pelo coro da Sinagoga de Montreal. “É melhor segurar a minha língua/ É melhor tomar o meu lugar/ Levantar este cálice de sangue/ Tentar dar as graças”.

“Não preciso de um perdão, não há ninguém para culpar/ Estou a sair da mesa, estou fora do jogo”, anuncia Cohen ainda antes, em “Leaving the table”. Se a religião percorre todo o álbum, a ideia da despedida também – e nesta quarta faixa a ideia é evidente, com Cohen a esclarecer: “Não preciso de um advogado, não estou a reclamar nada/ Não tens de te render, não estou a fazer pontaria”. A tranquilidade está patente nas suas últimas declarações, estas sobre as letras e músicas que lhe faltam por completar e publicar: “A grande mudança é a proximidade da morte. Eu sou um homem arrumado. Gosto de atar as pontas soltas se puder. Se não puder, tudo bem. Mas o meu instinto natural é acabar o que comecei”.

Espero que a morte não seja desconfortável

“As coisas espirituais”, assegura Cohen, “tomaram o seu lugar”, o que o deixa profundamente grato. “Estou pronto para morrer. Espero que não seja demasiado desconfortável”. A calma tem razão de ser: “Mais do que em qualquer outra altura da minha vida, já não tenho a voz que diz ‘Estás a estragar tudo’. É uma bênção tremenda”.

As constantes despedidas de Cohen neste último trabalho, que fecha com uma versão quase inteiramente instrumental de “Treaty” em que os violinos assumem o protagonismo (“Agora acabou, a água e o vinho(Quem me dera que houvesse um tratado entre o meu amor e o teu”, acrescenta pela última vez), não têm de ser motivo para alarme: afinal, lembra a “Pitchfork”, “Cohen está a dizer adeus desde sempre, mesmo antes de o conhecermos”. Sabemos apenas com certeza de que se estiver a dizer adeus, esta é uma das mais belas formas de o fazer – e se Bob Dylan não o quiser, será que ainda podemos entregar a Cohen (que, dizia o próprio Dylan, é o “número 1 da música” – o próprio diz ser o “número zero”) o seu Nobel?