Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Um belo edifício num terreno pantanoso

NOBEL. Laureado em 2001, o autor é um crítico da ortodoxia financeira europeia

d.r.

Ou se reforma a moeda única ou é a própria União Europeia que fica em risco, avisa o economista norte-americano Joseph Stiglitz no seu livro mais recente

“Tu és euro e sobre ti edificaremos a Europa.” A frase de tonalidades bíblicas, proferida por António Guterres há 21 anos, no primeiro Conselho Europeu em que participou como primeiro-ministro, exprimia esperanças que poucos conservam hoje. A moeda única revelou-se um frágil alicerce para a construção da Europa unida, sobretudo a partir da crise financeira global de 2008, a que se seguiu a das dívidas soberanas no Velho Continente.

O pior é que os problemas podem não ficar por aqui. No seu livro mais recente, publicado entre nós há dias, o economista americano Joseph Stiglitz tenta explicar porque é que uma moeda que devia “aproximar a Europa e promover a prosperidade” acaba por “promover mais a divergência do que a convergência”. Crítico da política europeia atual, obcecada com limites do défice e incapaz de evitar a estagnação da economia, alerta para riscos que vão da subida dos extremismos políticos a separatismos vários, sintomas de um desencanto para o qual não vê remédio iminente.

Pesada e volumosa, mas escrita para leigos, a obra divide-se em quatro partes. Partindo da “Europa em crise”, Stiglitz explica o “defeito de nascença” do euro e deplora as “políticas desajustadas” que conduziram ao presente estado de coisas. Para o fim fica a pergunta “Que caminho seguir?”, havendo ainda um epílogo sobre o “Brexit”, já que o referendo britânico decorreu durante a preparação do livro.

O drama dos anos da troika

E o que diz o autor? Que a adoção do euro foi prematura, por pressupor a integração económica sem que houvesse integração política. Sem mutualização da dívida e sem governação económica a nível europeu, assegura, não há moeda única que funcione e a União Europeia fica um “belo edifício construído sobre terrenos pantanosos”.

Como se não bastasse, as instituições europeias têm levado a cabo, nos últimos anos, políticas que só agravam a situação, prossegue Stiglitz. Os anos da troika levaram à depressão económica, explica, e as reformas estruturais (que as houve) só contribuíram para o fracasso, em vez de porem fim às assimetrias e aos desequilíbrios entre os países do centro da União, mais ricos, e as periferias endividadas. Chamando a atenção para o caráter antidemocrático de muitas das imposições de Bruxelas aos governos nacionais, Stiglitz repudia o mantra do “não há alternativa”.

Nesta encruzilhada, conclui, restam à Europa três rumos. Um (e o preferido de Stiglitz) é reformar a Zona Euro a fundo, mas não ao preço de “vidas arruinadas e aspirações aniquiladas”. Para salvar a moeda única, terá de haver união bancária, mutualização e reestruturação da dívida e promoção da estabilidade, do emprego e do crescimento num quadro comum e convergente, que não o presente “pacto suicida”. Esta via exige vontade política e uma rutura quase total com o rumo atual.

“O euro: como uma moeda única ameaça o futuro da Europa”, de Joseph E. Stiglitz, Bertrand Editora, 536 páginas, €19,90

“O euro: como uma moeda única ameaça o futuro da Europa”, de Joseph E. Stiglitz, Bertrand Editora, 536 páginas, €19,90

Outra hipótese é reconhecer o falhanço e acabar com o euro, de forma ordenada, num “divórcio amigável” que não deixaria de implicar muitas das decisões mencionadas na primeira solução apontada. Uma terceira alternativa seria criar um euro flexível, pois, alerta Stiglitz, mesmo que os países do Sul tivessem cumprido todas as metas estabelecidas, a vida da moeda única não teria sido mais feliz.

Num livro com copiosas notas de rodapé, comodamente atiradas para o fim do tomo, a economia nunca está sobreposta nem separada da política. No fundo, escreve o professor da Universidade de Columbia, é de democracia que falamos. E uma integração europeia que se baseie num modelo único e castigue todo e qualquer desvio não é compatível com os valores fundadores da União Europeia.