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O escritor que nasceu espião

Harry Borden/Getty Images

Sem esperar pela resposta do biógrafo, John le Carré tomou as rédeas do seu passado. “O Túnel de Pombos — Histórias da Minha Vida”, que saiu esta semana em Portugal, é uma coleção de memórias, um aglomerado de acontecimentos que muito dizem sobre o século XX mas também sobre a obra do escritor e os seus bastidores

Ainda o mundo tentava enfrentar os horrores da II Guerra Mundial, o morticínio dos campos de concentração nazis, já o general Reinhard Gehlen, chefe dos serviços secretos de Hitler na Frente Oriental, se instalava na Baviera, a coberto da CIA. Um acordo feito antes do fim da guerra, no qual ele oferecera o seu precioso arquivo aos americanos, transformara-o no chefe da espionagem da Alemanha Ocidental. Nesta nova agência antissoviética, o general de Hitler iria liderar velhos camaradas do núcleo nazi que, tal como ele, ganhavam uma nova vida. Em 1947, o passado era já um país estrangeiro onde crimes hediondos podiam ficar enterrados ao lado dos mortos e os seus executores alcançar redenção.

56 anos depois, o escritor inglês John le Carré (n. 1931) desloca-se ao local onde Gehlen se instalara. Em 2003, o escritor conta 72 anos. É conhecido pelos livros e famoso pela transformação destes em filmes de Hollywood (como “O Espião Que Saiu do Frio”, “A Rapariga do Tambor”, “A Casa da Rússia”, “Assassinato de Qualidade”, “O Alfaiate do Panamá” ou “O Fiel Jardineiro”), sem contar com as séries de televisão. Le Carré é recebido na bela propriedade do sul da Alemanha pelo então presidente dos serviços secretos alemães, August Hanning. Ao descer as escadas do bunker, construído pelo antigo proprietário, Martin Bormann (secretário privado de Hitler), o escritor descobre que o lugar se encontra classificado como monumento protegido ao abrigo da lei estatal da Baviera.

Le Carré visitara, em 1949, os campos de concentração de Dachau e Bergen-Belsen, “enquanto o fedor ainda persistia”. Anos mais tarde assistira, em Bona, enquanto jovem diplomata britânico e espião, à tomada de poder da velha guarda nazi e à subalternização das gerações alemãs mais novas, nas quais não havia mácula a registar. Ainda assim, está à entrada do bunker e admira-se. “Bem, talvez na minha idade eu não devesse ter parecido tão surpreendido. Não estive em tempos na profissão [serviços secretos]? O meu próprio serviço não trocara energicamente informações com a Gestapo até 1939? Não manteve relações amigáveis com o chefe da polícia secreta de Kadhafi até aos últimos dias deste no poder — relações suficientemente amigáveis para despachar os seus inimigos políticos, até mesmo mulheres grávidas, e vê-los encarcerados e interrogados com todas as melhores técnicas?”, confessa no livro “O Túnel de Pombos — Histórias da Minha Vida”, que chegou às livrarias portuguesas esta semana numa edição da Dom Quixote.

Em 2012, entrevistei John le Carré na sua casa de Londres, no bairro de Hampstead, antes da publicação de “Uma Verdade Incómoda”. Tratava-se do seu vigésimo terceiro romance, o último, por sinal, antes de “O Túnel de Pombos”. Encontrei um homem afável, generoso, disponível, diplomático o suficiente para poder imaginá-lo, como descreve agora neste livro de memórias, a acenar sagazmente, a abanar a cabeça quando devia, a tentar dizer uma piada para aliviar a tensão perante todos os homens e mulheres que, por terem poder, o atraíam. Para só mais tarde, já no seu quarto de hotel, tirar do bolso um bloco de apontamentos e então dar um sentido a tudo o que tinha visto e ouvido, a tudo o que julgava que os movia e que ele não entendia. E que, de resto, ainda não entende. É nessa militante incompreensão, nessa incansável vontade de chegar à verdade, do mundo ou dos que o lideram, mesmo que as descobertas sejam inoportunas, que devemos procurar a causa da sua surpresa à entrada do bunker de Gehlen; mas também a origem de uma empatia que faz com que o seu rosto se emocione e contraia quando pergunta, nessa entrevista, como vamos nós por cá, nós portugueses retraçados, submergidos pela crise.

John le Carré nasceu David Cornwell. Ronnie, o pai, é um caso, um mistério tão grande ou maior do que a mãe, Olive, com a qual não “se consumiu”, porque ela o abandonou aos 5 anos, quando ele e o irmão, dois anos mais velho, dormiam à noite na cama. Le Carré só voltou a encontrá-la aos 21 anos, numa estação de comboios. Sobre Olive, pouco mais soube, além das histórias traumáticas que ela guardara desse casamento violento e que insistia em relatar, anos depois, aos filhos adultos. Le Carré escreve no seu livro de memórias: “Desde o dia do nosso reencontro até ela morrer, a criança gelada em mim não demonstrou o mínimo sinal de descongelar.” Ronnie, nome pelo qual o escritor se refere ao pai, era um aventureiro, um fantasista, um vigarista que tinha dentro dele um elenco de personagens de ficção “de fazer vir água à boca ao escritor mais sofisticado”. Um homem capaz de eternamente se reinventar para poder fazer uma espalhafatosa vida de rico, apesar de a prisão lhe ter retirado a capacidade de abrir as portas, estancando em frente destas à espera que alguém lhe desse permissão para as atravessar.

Neste livro de memórias avulsas, Ronnie é remetido para o fim, pois Le Carré não quer que ele seja cabeça de cartaz — ao contrário, como diz, do que o pai, sempre “à procura das luzes da ribalta”, teria preferido, se pudesse escolher: “Matá-lo foi uma das minhas primeiras preocupações e subsistiu de modo intermitente mesmo depois da sua morte.” É esse pai que o exaspera, por não o conseguir compreender, que o levará a escrever romances em adulto. E é esse mesmo pai que lhe impõe a espionagem à nascença, “tanto como suponho o mar foi imposto ao [escritor] C. S. Forester”. Não admira, por isso, que Le Carré diga que o seu ingresso nos serviços secretos britânicos, ainda jovem estudante de um colégio suíço, seja apenas um regresso a casa: “Não foi a espionagem que me levou ao secretismo. A evasão e os enganos eram as armas necessárias da minha infância.” Ora, a espionagem e a escrita de romances, explica, foram feitas uma para a outra: “Ambas pedem um olhar atento à transgressão humana e às muitas vias para a traição.” E a infância, por seu lado, como o próprio lembra, citando Graham Greene, é o saldo credor do escritor. “Por essa medida, pelo menos, eu nasci milionário”, assegura no tal capítulo que deixa para as últimas páginas do livro de memórias, ‘Filho do Pai do Autor’.

Antes Snowden tivesse sido escritor...

Primeiro veio a espionagem. Depois a escrita de romances. Não foi o único. Somerset Maugham, Graham Greene, Compton Mackenzie, como Le Carré lembra em “O Túnel de Pombos”, foram também espiões escritores... Homens que escrevendo ficção se escusaram, na sua opinião, à alta traição, evitando caminhos como o percorrido pelo famoso agente britânico que fornecia informações ao sector soviético, Kim Philby, amigo por sinal de Graham Greene: “Comparando com o inferno que poderíamos criar por outros meios, escrever é tão inofensivo como uma brincadeira de crianças. Como os nossos pobres espiões devem estar a desejar que Edward Snowden tivesse antes escrito um romance.”

Se por um lado Le Carré acredita que, na ficção, retratou os serviços secretos britânicos como uma organização mais competente do que alguma vez tivera razões para considerar, por outro reconhece que foi lá que aprendeu a escrever: “A instrução mais rigorosa sobre como escrever em prosa que alguma vez recebi [...] veio dos agentes seniores com estudos clássicos no último andar da sede do MI5 [...] que liam os meus relatórios com um pedantismo deleitado, manifestando desprezo pelas minhas orações incompletas e pelos meus advérbios desnecessários e riscando as margens da minha prosa chã com comentários como: redundante — omita — justifique — vago — quer realmente dizer isto? Nenhum editor que encontrei desde então foi alguma vez mais exigente ou teve tanta razão.”

Le Carré Pseudónimo de David Cornwell, nascido em 1931, em Inglaterra

Le Carré Pseudónimo de David Cornwell, nascido em 1931, em Inglaterra

foto David Levenson/Getty Images

“O Túnel de Pombos” parece uma coleção de falhanços, de situações caricatas, que por isso mesmo Le Carré deve recordar melhor do que outras, até porque nunca manteve o hábito regular de alimentar um diário. Noutros casos, o escritor fala de encontros com algumas das personalidades mais importantes do século XX, como Arafat, Thatcher, Andrei Sakharov, o poeta Joseph Brodsky (com quem estava a almoçar quando este foi informado que acabara de ganhar o Prémio Nobel da Literatura), os realizadores Fritz Lang, Sidney Pollack, Francis Ford Coppola, Stanley Kubrick (com quem nunca chegou a fazer os filmes que estes lhe propuseram) ou com figuras que, embora menos conhecidas, em muito contribuíram para a narrativa desse tempo, como o correspondente norte-americano para o Sudeste Asiático e Médio Oriente David Greenway, que o ajudou a conhecer o mundo e a viajar.

Mas Le Carré não se limita a uma vã enumeração de momentos partilhados com ilustres figuras. A parte mais interessante desta coleção de memórias está na descrição de desconhecidos que de uma forma ou de outra acabaram por inspirá-lo, ao ponto de se transformarem no coração e na alma das personagens dos seus livros. E se um dos capítulos mais apaixonantes é provavelmente aquele que descreve a sua viagem à Palestina para dançar o dabke com Arafat, no Ano Novo de 1982, outra valiosa passagem é a que explica a razão pela qual se obriga a ir até às montanhas palestinianas, à porta do bunker do secretário de Hitler, às valas do Mekong no Vietname, ao refúgio dos senhores da guerra no Congo: “Primeiro vem a imaginação, depois a busca da realidade. De seguida, o regresso à imaginação e à secretária à qual agora estou sentado.”

Os Túneis que lhe mudaram a vida

John le Carré não foi espião durante muitos anos, embora a espionagem, como conta no livro, nunca o tenha largado, imprimindo nele uma marca perene, sempre visível aos olhos dos outros. Apesar de deixar os serviços secretos ainda jovem, continuará a ir buscar inspiração ao tempo passado no MI5, até ao momento em que descobre, em Hong Kong, em 1972, a existência de um túnel. Não é o túnel de pombos que dá o nome a este livro. É outro túnel, mas terá um efeito profundamente transformador. Le Carré acabara de entregar o romance “A Toupeira” à tipografia.

No livro havia uma perseguição de ferry no estreito de Kowloon que o escritor criara com a ajuda de um velho guia turístico comprado na Cornualha. Mas em Hong Kong, acabadinho de chegar, descobre de imediato que existe um túnel nesse mesmo sítio. Não a tempo, porém, de parar a impressão do novo livro para alterar a cena, ajustando-a à realidade: “Jurei que nunca mais voltaria a descrever uma cena num local que não tivesse visitado [...] A meio da vida , eu estava a ficar gordo e preguiçoso e a viver à custa de um fundo de experiência passada que estava a esgotar-se. Chegara o momento de abordar mundos não familiares.

Uma máxima de Graham Greene [sempre Greene] soava-me algures ao ouvido; algo como, se estávamos a relatar a dor humana, tínhamos o dever de a partilhar.” Hong Kong era o ponto de partida de um périplo pelo mundo que o tem feito viajar pelo Cáucaso, Rússia, Camboja, Vietname, Israel, Palestina, América Central, Quénia, Congo. Em todas essas investidas, fez-se acompanhar de personagens que o protegem: “Quando me vi encolhido numa trincheira ao lado do rio Mekong e pela primeira vez na minha vida ouvi balas a baterem contra a terra enlameada acima de mim, não foi a minha mão trémula que confidenciou a minha indignação a um reles bloco de apontamentos, mas a mão do meu corajoso herói ficcional, o repórter da linha da frente Jerry Westerby.”

O túnel que deu nome a este livro é outro. É um que o leva de volta à infância e que várias vezes pensou em imprimir como título de outras obras. Era um túnel ou, na verdade, vários pequenos túneis que existiam junto ao casino de Monte Carlo, nos quais eram inseridos pombos vivos que teriam de esvoaçar para se transformarem “em alvos dos cavalheiros desportistas”. Os pombos que sobreviviam voltavam ao telhado, onde os esperavam as mesmas armadilhas que os colocariam de novo nos túneis e logo na mira dos atiradores.

A imagem perseguiu-o tanto como provavelmente a sombra do seu pai, a calcar-lhe o rasto um pouco por todo o mundo, a assinar os seus livros como “Pai do Autor” ou a lembrar-lhe que ele até seria conhecido mas não uma celebridade. No capítulo que lhe dedica, Le Carré conta que chegou a contratar detectives para investigarem a vida de Ronnie e a sua: “Saiam por esse mundo, disse-lhes levianamente. Fica tudo por minha conta. Encontrem testemunhas vivas e os registos escritos, tragam-me um relato factual de mim e da minha família e do meu pai e eu recompensá-los-ei.”

Em Hampstead, em 2012, John le Carré dizia que tinha um biógrafo há três anos e que de tempos a tempos ele voltava, trazendo-lhe memórias de pessoas que o tinham conhecido na escola. As memórias dos outros eram, porém, quase sempre diferentes, e até melhores, das que ele tinha dele próprio. Num golpe surpreendente até para o biógrafo, Le Carré resgatou as suas recordações, não escondendo neste livro que à memória faz corresponder uma coleção de enganos (“A memória de um escritor velho é a prostituta da sua imagem”) e à vida reserva “vagas de gratidão” sempre que caminha pelos penhascos da Cornualha, onde tem uma casa na qual se refugia a escrever. “Só o escritor em mim manteve o seu curso.”

Em exclusivo para o Expresso John Le Carré escreve sobre a vida e esse tópico precioso e misterioso que é a fonte da criatividade

Um segredo maravilhoso

Quando publiquei o meu livro de memórias, “The Pigeon Tunnel”, prometi que não daria mais entrevistas a ninguém, em parte alguma, e, com surpresa minha, parece que tenho cumprido a promessa. O meu motivo declarado era completamente razoável. Estava — e estou — a meio da escrita de um romance ambicioso e não quis ser novamente puxado a discutir um livro do qual tento o mais possível emergir. O meu motivo respeitável é que não gosto de viver a minha vida em público. Qualquer versão da minha vida que ofereça há de surgir rodeada por fronteiras invisíveis, portanto acho que tinha receio de ser atraído para território inimigo. Não estou a falar de casos amorosos ou de esqueletos no armário da família, mas de assuntos bastante mais íntimos e duradouros, tais como a própria fonte da criatividade, um tópico demasiado precioso, e misterioso, para ser diluído em especulações fáceis minhas. Num romance, tenho a liberdade de explorar a minha identidade sob diferentes chapéus. Na vida, é um processo embaraçoso.

Qual é a relação entre as minhas ficções e o mundo exterior ao qual presumem referir-se? Essa pergunta, que me fazem repetidamente, requer de mim uma exibição de falsa sabedoria. As minhas ficções são a única realidade que conheço. O mundo exterior, por comparação, é um enorme livro infantil de mistérios, previsível apenas no sentido de que podemos contar que excederá o pior que imaginarmos: por exemplo, o delirante Donald Trump; os usurpadores políticos do meu próprio país, tal como o odioso Boris Johnson, o nosso atual ministro dos Negócios Estrangeiros, que, tendo insultado a maioria das pessoas decentes no planeta e enganado o eleitorado para aceitar uma ideia na qual ele mesmo não acreditava, tocou a sua flauta de mentiroso e retirou-nos da nossa própria casa, despejou-nos numa rua vazia e disse-nos para irmos à procura de outro lugar para vivermos.

Sim, o meu pai era um vigarista e um criminoso, e foi também uma grande influência na minha vida de escritor. Era igualmente um vendedor de certezas falsas, que nas suas muitas prisões — umas físicas, outras de sua própria criação — nunca perdeu a convicção de ser o filho escolhido de Deus. Bem, conheço alguns artistas que não são assim muito diferentes nesse aspeto, e até um ou dois escritores. Mas embora, quando estou em baixo, às vezes sucumba à afirmação do meu pai de que os meus talentos eram inteiramente os seus — por outras palavras, que eu era uma versão imatura dele, jogando com vidas de brinquedo em vez da versão humana, adulta e destrutível —, cedo me persuadi a sair dessa particular cadeia. Se devo alguma coisa ao meu pai — e devo — é o desconforto universal que assombra os meus personagens quando eles, como soldados gaseados, tropeçam entre a sua lealdade a uma causa maior, qualquer que ela seja, e a repulsa pelo modo como têm de a servir. Nunca lutei com o meu pai. Ele era demasiado grande para falhar. Menti-lhe e, ao inventar um universo ilusório paralelo ao seu, descobri um lugar para me esconder dele. Quando entrei no mundo ilusório da espionagem, sim, tive uma sensação de regressar a casa. Quer dizer, não aprendi nada que não tivesse já aprendido aos joelhos do meu pai: que, se dissermos a mentira certa no tom messiânico certo e acrescentarmos o aliciante de grandes recompensas no final do arco-íris, veremos espantados os anjos que caem. Quanto ao resto, dado que a realidade ilusória do mundo secreto nunca chegou ao nível da minha própria, não fazia sentido ficar por lá.

Poderá o simples espião humano dos velhos tempos ganhar a sua côdea neste mundo eletronicamente saturado da recolha de informações, onde sugamos informação da ionosfera com o mesmo entusiasmo irresponsável com que as traineiras industriais aspiram o último peixe?

Vou contar-vos um segredo maravilhoso que se calhar já conhecem mas que os espiões de hoje estão a aprender à sua custa. Velho é bom. Uma máquina de escrever, uma nota manuscrita, uma única cópia ou uma peça de microfilme enfiada numa caixa de correio desativada são bastante mais seguras do que o mais protegido computador superencriptado que existe no mundo. Quando eu era criança, o bloco de notas era inviolável. Espiões em todo o mundo assim pensavam, e enganavam-se. Hoje, à medida que se vão sucedendo os avanços revolucionários na ciberesfera, a contrarrevolução analógica também avança.
Inteligência não é informação. Não é conhecimento. Mesmo quando se torna conhecimento, tem de ser conhecimento no lugar correto, com as etiquetas de prioridade corretas, no edifício correto e no dia correto. Quantas vezes nos têm dito, retrospetivamente, que toda a informação necessária para agir já existia mas nunca foi processada, nunca foi lida pelas pessoas certas e portanto não serviu de nada? Será possível ter demasiada informação — pois quanto mais os nossos famosos espiões eletrónicos devorarem menos serão capazes de digerir?

Então imagine, neste mundo de excesso informativo, a atração mágica da lendária fonte humana com o seu ouvido nos buracos da fechadura dos grandes. Imagine as poupanças em tempo de computador e de especialistas. Imagine passar por cima de todo o erro humano e negligência e pura patetice que são inerentes a qualquer organismo de espionagem demasiado poderoso. Imagine substituir tudo isso por uma voz humana lúcida e fiável que se sobrepõe ao balbuciar eletrónico. Imagine que, em lugar das infindáveis horas gastas em vão a tentar decifrar os códigos do Presidente Putin, se consegue dispor da sua bonita secretária particular a um irrisório milhão de dólares por hora, migalhas quando comparado ao custo de uma rede de computadores tão grandes como o “Titanic”.

Um sonho impossível? Claro que é.

Juntemos todas as fontes humanas que tiveram sucesso a trabalhar para qualquer lado ao longo dos últimos cem anos e, fazendo a soma, percebemos que mesmo as melhores entre elas deram uma contribuição muito pequena. Ou não foram acreditadas, ou a informação que deram não era acionável, ou a verdade que contavam era demasiado real para ser tolerável; por exemplo, os relatórios da CIA para o Presidente Johnson nas fases tardias da guerra do Vietname.

Os nossos espiões ocidentais não sabiam que o Muro ia ser erguido. Não sabiam que ia cair. A CIA achava que Gorbatchov era um aldrabão e sobrestimou muito a ameaça estratégica soviética. Durante as recentes crises no Médio Oriente, espiões comprados à pressa e por grosso a preços inflacionados revelaram-se inúteis, na melhor das hipóteses; e, na pior, mentirosos perigosamente credíveis. Apesar desta análise, que é uma experiência de humildade, continuam os nossos serviços de informação a procurar incessantemente os espiões de amanhã nos becos do mundo? Claro que sim. E, mesmo que no mundo real não o façam, fá-lo-ão no meu. Podem apostar nisso o vosso último dólar.

Texto de Jonh Le Carré
Tradução de Luís M. Faria