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Os Sons da Bruma

ORQUESTRA ANGRAJAZZ Criada no âmbito do Festival de Jazz de Angra do Heroísmo é já a orquestra de referência dos Açores

JORGE MONJARDINO

No topo do monte Brasil, com o casario e as ruas de Angra do Heroísmo derramadas no horizonte até a infinitude do mar, há um perturbador silêncio a exacerbar o mistério daquela vivência num mundo na aparência pequeno, mas onde cabe o mundo todo.

A ilha, qualquer ilha, é um desafio permanente. A ilha, qualquer ilha, materializa o eterno duelo entre a perceção do nada e a glorificação de uma totalidade inscrita nos detalhes. A ilha será um estado de espírito, mas impõe-se, antes de mais, como o território dos propósitos mais ousados. A ilha será condicionadora, mas é, para lá de tudo, o espaço inspirador onde se concretizam as improváveis impossibilidades.

Se tudo ali é difícil, maior é o esforço para alcançar a glória de feitos à partida inverosímeis. Há uma saudável loucura no modo como por vezes são imaginados projetos tidos como impossíveis, tornados realidade palpável com o passar dos anos e a perseverança tão congénita ao modo de ser e estar do ilhéu.

Na ilha Terceira foi possível testemunhar, há dias, essa capacidade rara de, a partir de fragmentos, partículas dispersas, construir um corpo cada vez mais sólido, mesmo se óbvia é a noção de quão imenso é, ainda assim, o caminho colocado à frente daqueles caminhantes.

Pedro Moreira dirige a orquestra em “Far East Suite“, de Duke Ellington, com Ricardo Toscano como solista

Pedro Moreira dirige a orquestra em “Far East Suite“, de Duke Ellington, com Ricardo Toscano como solista

JORGE MONJARDINO

Quando pelo palco do Festival Internacional de Jazz de Angra do Heroísmo passou a orquestra AngraJazz, dirigida por Claus Nymark e Pedro Moreira, percebeu-se como o que parece uma absoluta normalidade, pode resultar de uma anormalidade absoluta. Constituída por músicos em grande parte recrutados nas filarmónicas locais, começou por ser um pequeno grupo amador, sem qualquer referência, espírito ou particular ligação ao mundo do jazz. Com o passar do tempo veio a evolução. Começaram a chegar novos elementos, uns oriundos das restantes ilhas do arquipélago, outros do Continente e outros ainda do estrangeiro.

Como seria de esperar, há ainda muitas limitações, seja do ponto de vista musical, seja pelas dificuldades de criação de uma estrutura sólida e inequivocamente radicada na linguagem do jazz. Ensaiam pouco em conjunto. Apenas um fim-de-semana por mês é possível reunir a totalidade dos músicos com os diretores musicais. Claus Nymak e Pedro Moreira revezam-se nas idas mensais à Terceira.

Com perto de vinte músicos fixos, muitos deles com frequência do Conservatório de Música de Angra, outros com o curso superior de música, a Orquestra é já, ao fim de catorze anos, o agrupamento de referência dos Açores, tem tido várias incursões no continente, já atuou na Madeira, mas subsiste um conjunto de dificuldades inerentes à circunstância da vivência numa ilha. Programar muitos concertos na Terceira poderia ser contraproducente, e não é fácil a logística para se deslocarem aos restantes territórios do arquipélago. Falta, da parte das autoridades locais, a disponibilidade para fomentar esse intercâmbio.

Paulo Gaspar (clarinetes) como solista convidado

Paulo Gaspar (clarinetes) como solista convidado

JORGE MONJARDINO

Ainda assim não desistem. É verdade que alguns músicos evidenciam ainda limitações técnicas. É verdade que há ainda muito trabalho a fazer no sentido de todos assimilarem por inteiro a linguagem do jazz. Mas também é verdade que da Orquestra – assumidamente um projeto de formação - já nasceram outros grupos, constituídos por músicos que constroem o seu próprio percurso em paralelo com o da Orquestra. E, sobretudo, é verdade, que do jazz já conseguiram assimilar a disponibilidade para o risco, a abertura para as propostas mais inesperadas.

Foi o que sucedeu nesta edição do AngraJazz, com a Orquestra a ousar fazer a estreia em Portugal da “Far East Suite”, de Duke Ellignton, cuja partitura só ficou disponível há pouco mais de um ano.

No divertido atrevimento implícito na entrega a esta peregrinação musical está contida, em simultâneo, uma atitude de grande coragem por parte daqueles jovens músicos, aos quais se juntou o contributo de excelentes profissionais, como Ricardo Toscano ou Paulo Gaspar.
O que fica, porém, é esta vontade de a partir de um tempo todo ele feito de incógnitas, erguer um coletivo capaz de rebentar as amarras condicionadoras de novas caminhadas. Quem tem acompanhado o percurso da Orquestra fala do modo como por ali se dão passos cada vez mais longos e seguros. E essa é também uma vitória da organização do AngraJazz.

A pianista italiana Antonella Barletta apaixonou-se pela ilha e radicou-se na Terceira

A pianista italiana Antonella Barletta apaixonou-se pela ilha e radicou-se na Terceira

JORGE MONJARDINO

Um festival não pode, ou não deve, ser apenas uma montra onde se expõem as encomendas feitas no exterior. Tem de dinamizar dinâmicas próprias e envolver a população local no seu próprio projeto, de modo a criar frutos visíveis. A Orquestra Angrajazz é o corolário de uma tímida aposta feita há uns 15 anos com um estágio de cinco dias no qual, mais por curiosidade, participaram alguns jovens educados nas filarmónicas.

No princípio muitos deles não teriam ideia, sequer, do que seria essa coisa chamada jazz. Passou o tempo e das brumas da ilha semeada no Atlântico nasceu uma música outra. Não importa se venceu o jazz, porque a vitória maior é a de toda esta gente que soube embarcar numa aventura sem fim à vista.