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Bob e Frederick

O INTRIGUISTA. Frederick Forsythe

PHILIPPE LOPEZ/GETTY

Reinaldo Serrano

E eis que, aos 13 de outubro de 2016, a Academia Sueca decide agraciar com o Nobel da Literatura as letras de Bob Dylan. Inúmeras foram as vozes que, a propósito de tal facto, rejubilaram com a justiça que, finalmente, terá sido feita a um dos ícones da cultura norte-americana. Tenho para mim que algumas destas vozes se ergueram ajudadas pela surpresa, pelo inesperado e pelo insólito facto do maior prémio literário à escala mundial ter distinguido um cancioneiro e uma figura que, ao longo de mais de meio século, foi trovador, bardo, contestatário, católico de conversão tardia e alvo de maldosa crítica por parte de alguns detratores.

Justo ou não, o prémio foi atribuído e, até à data, consta que o premiado pouca ou nenhuma importância lhe deu, a tal ponto que quem o atribuiu não conseguiu contactar o (feliz?) contemplado. Nada que não se esperasse: Bob Dylan (cantor e compositor de inequívoca qualidade, pioneiro até numa certa forma de expressão) mantém (ou quer manter) a imagem de solto desprendimento em relação a honrarias ou homenagens, cabendo aos seus indefetíveis o gáudio redobrado pela atribuição do Nobel e pela indiferença com que Dylan o recebeu, como que dizendo: “Estão a ver? Ele merecia ainda mais ganhar este prémio porque nem lhe liga!...”

Seja como for, e sem qualquer malícia de raciocínio, permito-me invocar com a devida vénia os nomes de Leonard Cohen, Nick Cave, Bruce Springsteen, Jacques Brel ou Léo Ferré para que se não esqueçam e se tenham, a partir de agora, em linha de conta, outros potenciais vencedores (os dois últimos a título póstumo, naturalmente) do Nobel da Literatura.

O mesmo que não conquistou o senhor Frederick Forsyth. Tem uma obra vasta, sólida, com várias adaptações para cinema, e uma história de vida particularmente interessante, publicada lá fora em 2015, e agora publicada entre nós, cerca de um mês e meio depois de o autor ter completado 78 anos. Chama-se “A Minha Vida na Intriga Internacional” e é daqueles casos em que o título diz tudo... ou quase. Porque este conjunto de memórias têm o seu grau de interesse logo no início, onde a infância de Frederick Forsyth é descrita com uma assinalável bonomia, ao mesmo tempo que se entreveem as primeiras peças da imensa tapeçaria sobre a qual foi edificada a rica experiência de vida do autor. Com passagem pelo jornalismo e pela Royal Air Force -- onde pontificou como um dos pilotos mais jovens -- o relato de Forsyth leva-nos a viajar pelos imensa geografia que percorreu, pelos inúmeros conflitos que testemunhou, e pelos corredores dos Serviços Secretos britânicos, que atravessou durante cerca de duas décadas.

Outro ponto de interesse desta obra biográfica é perceber como o conteúdo dos romances do autor foi vincadamente influenciado pelas experiências vividas “in loco” em vários países, entre os quais a Guiné Bissau e, mais concretamente os problemas aí surgidos em 2009 e que culminaram com o golpe de Estado em março daquele ano. O melhor mesmo é ler para querer conhecer melhor um dos mais bem sucedidos autores britânicos, com títulos como “O 4º Protocolo”, “O Caso Odessa”, “Cães de Guerra” ou “O Chacal”, todos eles com adaptações para o grande ecrã, num total de 12 dos 20 romances escritos por este natural de Ashford, no Reino Unido e que, para tristeza de muitos, fez saber em entrevista ao “The Guardian” que vai abandonar a ficção por já não ter idade para aventuras.

A ser verdade, perdem as letras um dos seus maiores na literatura aventureira de espionagem, urbana na sua narrativa que lembra outros climas. A este propósito refira-se que Frederick Forsyth terá sido sempre um pouco mais “atual” nas suas histórias, ao contrário de John Le Carré, que tardou em demarcar-se do clima da Guerra Fria, ao qual esteve intinsecamente ligado (e bem) durante a sua longa carreira literária. Curiosamente, sublinhe-se que as memórias de Forsyth são editadas cá no burgo ao mesmo tempo que os escaparates portuguese são adornados com “O Túnel dos Pombos”, justamente a autobiografia de... John Le Carré. Faltará Graham Greene para fechar em grande uma troika de grandes nomes de um género que, diga-se em abono da verdade, tem encontrado dignos seguidores um pouco por todo o mundo.

Fica a sugestão de leitura comprazível para um afundanço na poltrona em noites frias, percorrendo página após página a vida singular de uma singular figura no universo dos escritores. E talvez assim se possa responder à pergunta, ou desafio, de Dylan: “How many roads must a man walk down/Before you call him a man?” Muitas, certamente, sobretudo se cada homem conseguir ser peregrino da sua própria obra.