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O artista que inventou a arte modesta. De Algés para Paris

António Bernardo

Em Paris, é um artista conhecido, com uma vida social agitada. A viver em Portugal há 3 anos, Hervé di Rosa goza de um recato que lhe permite um dia a dia tranquilo. Esta sexta-feira inaugura uma grande exposição retrospetiva sua no La Maison Rouge, na capital francesa

Katya Delimbeuf

Katya Delimbeuf

(texto)

Jornalista

Hervé di Rosa tem 56 anos e o ar dos eternos “miúdos rebeldes”. Na sua casa ribeirinha em Algés, encontrou refúgio para a vida movimentada que levava em Paris, a cidade onde ainda tem o seu atelier principal e aonde regressa todos os meses, para tratar de assuntos. E onde paga os seus impostos, dir-nos-á mais tarde, distanciando-se dos franceses que têm rumado a Portugal para aproveitar as benesses fiscais que o país lhes proporciona.

Desde que deixou Paris, em 1978, Hervé tem empreendido uma autêntica volta ao mundo, para aprender mais sobre as artes locais de artesãos espalhados pelo planeta. "A ideia foi sair do meu atelier parisiense e ir aprender as várias técnicas artísticas com os artistas de cada país", explica, enquanto sopra uma baforada no cigarro. Assim, passou 4 anos no Vietname, a aprender a trabalhar com laca; outros tantos nos Camarões, com os artistas que trabalham a pérola, a madeira e o bronze. E assim vai juntando novas técnicas às suas, já de si variadas. Nas obras de Hervé, cruza-se a pintura, a escultura, a banda desenhada e elementos da cultura pop.

A Lisboa, 19ª etapa desta viagem de "volta ao mundo das artes", veio aprender mais sobre o mundo da cerâmica, e em particular, do azulejo. Há vários meses que está a trabalhar na fábrica Viúva Lamego, bastião mundial no fabrico de azulejos tradicionais, aprendendo as técnicas de cozedura da cerâmica e a variação das cores, que mudam consoante o calor do forno. Fez 60 pratos, e vários painéis de azulejos. Alguns deles estarão no corredor de entrada da grande exposição retrospetiva que inaugura a 21 de outubro, no espaço La Maison Rouge, em Paris. Nestes 2000 m2 de espaço, haverá um pouco dos 40 anos da obra de di Rosa. Desde 1987 que não fazia uma grande retrospetiva em França.

Na arte de Hervé di Rosa cruzam-se influências múltiplas: o seu mundo imaginário, inventado, elementos da cultura pop, pintura e escultura, arte africana

Na arte de Hervé di Rosa cruzam-se influências múltiplas: o seu mundo imaginário, inventado, elementos da cultura pop, pintura e escultura, arte africana

António Bernardo

Mas quem é este homem, que gosta de "dar a refletir e dar a pensar", que depois de Paris viveu em Nova Iorque e no México, e que em 2000 abriu um museu de arte contemporânea no sul de França? Filho de um casal da classe média, Hervé fez um Baccalauréat (exame do 12º ano) na área Científica - os pais pensaram sempre que iria para medicina -, mas a sua verdadeira paixão levá-lo-ia até Paris. Mais concretamente até à Ecole Superieure des Arts Décoratifs. Hervé já sabia que queria ser artista.

Em 1979, logo no segundo ano do curso, começou a vender as suas pinturas. "Tive muita sorte, consegui sempre viver da minha arte", partilha. No início pintava em lençóis, em pedaços de cartolina.. "Ouvia muita música punk, que foi muito importante. Demonstraram que não eram precisos muitos recursos para fazer algo válido", conta. Seguiu-se Nova Iorque, onde conheceu Keith Haring, Basquiat, Andy Warhol, "a história da arte ao vivo".

É esta altura que coincide com a criação do conceito das "Arts Modestes" por di Rosa, uma corrente que ele define como "uma forma de reler a História da Arte". "A História da Arte do século XX está completamente falseada", defende. "Só contempla a arte ocidental e europeia, não inclui a africana ou asiática." Neste conceito incluem-se "as margens de todas as artes principais (a arte religiosa, a arte moderna), como o 'graffiti', o 'craft', a banda desenhada, algum merchandising..." No movimento que co-fundou, a Figuration Libre, Hervé mistura história de arte com banda desenhada ou capas de discos. "Crio personagens de uma mitologia popular", explica. "Era influenciado por uma série de coisas difíceis de definir - bonecos, esculturas… A Arte Modesta é um olhar, que passa pela revalorização de certos saberes artísticos que as pessoas desconhecem, como os bonecos pintados por artistas", explica. Popularizar a arte interessou-o sempre, fazê-la chegar mais longe. "Queria alargar o meu público artístico muito para lá da galeria". Garante que não faz arte para vender - "se não vendesse, faria exatamente o mesmo".

Em 2000, foi desafiado pelo ministro da Cultura francês para erguer um museu em Sète, a sua terra natal, no sul do país. Assim se construiu, com 2 milhões de euros, o Museu Internacional des Arts Modestes (MIAM), com o objetivo de alargar o público da arte contemporânea. Vende 50 000 bilhetes por ano, um número interessante para uma pequena cidade portuária, à beira-mar.

Quando se instalou em Lisboa, Hervé começou por pintar em casa. A seguir, um amigo falou-lhe na Fábrica Viúva Lamego - e o artista montou lá o seu atelier. Depois da primeira experiência com a cerâmica, Hervé dedicou-se ao azulejo, arte que considera fascinante. "Há um efeito pós-forno quase mágico, que muda totalmente o produto final", conta com entusiasmo. Até agora, fez nove painéis de azulejos. No fim do projeto, serão 20 os painéis em exposição na Galeria Louis Carré, também em Paris. Recebeu já até encomendas fora do país - o Hotel "In Situ" Béziers, em França, ostenta na sua fachada um painel produzido por ele aqui em Lisboa, na Viúva Lamego. E Hervé tem também em preparação uma série de 50 peças de cerâmica para o Instituto Pasteur, em Paris, previsto para o próximo verão.

O hotel In Situ, em Béziers, França, já ostenta na sua fachada um painel de azulejos produzido por Hervé na fábrica Viúva Lamego, em Lisboa

O hotel In Situ, em Béziers, França, já ostenta na sua fachada um painel de azulejos produzido por Hervé na fábrica Viúva Lamego, em Lisboa

Angele RAVENET

Aos seus cinco filhos, deseja que "nenhum deles siga a via artística". "Eu tive sorte, mas conheço muitos com talento que tiveram muita dificuldade em sobreviver", confessa. Este mês, a revista de arte internacional ArtPress dedica a Hervé di Rosa um dossier especial de 40 páginas, para "explicar" as Artes Modestas. O homem a quem só interessa aprender coisas novas e viver tranquilo mantém-se fiel ao conceito que "inventou" - modesto.