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“O Bem, o Mal e o Assim-Assim” no palco do TeCA

Susana Neves

A peça tem por base um texto inédito do escritor Gonçalo M. Tavares e leva o público até uma terra de ninguém entre o bem e mal

André Manuel Correia

Um texto inédito do escritor Gonçalo M. Tavares é a matéria-prima, nua e crua, para uma reflexão sobre a ausência da ética na sociedade contemporânea. A inabilidade para conhecer o outro e o desfasamento entre o indivíduo e a sociedade são o espelho de um tempo onde a indiferença impera. O reflexo surge nítido na peça “O Bem, o Mal e o Assim-Assim”, encenada por João Luiz e em estreia no Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto. O espetáculo estará em cena a partir de hoje até 30 deste mês.

Em palco duas personagens, duas “Excelências” intelectuais, recuperam a tradição dos diálogos clássicos gregos, mas fazem-no de uma forma pós-moderna, com pensamentos sarcásticos e que agridem a passividade de uma sociedade contemporânea desprovida de causas e ideais. Numa terra de ninguém entre os princípios e a ausência da ação, uma ilha onde as utopias pereceram como naufragas, assistimos a um esbatimento das fronteiras entre o bem e o mal.

Entramos, sem aviso, no espaço cinzento do Assim-Assim, num cenário em ruínas e de faz-de-conta, numa clausura da qual nenhuma das duas personagens, interpretadas por Rui Spranger e Valdemar Santos, conseguem sair. “Com argumentos o bem não vai lá” porque “ouvem-se mal”, é dito por um dos interlocutores a dado momento, para em seguida se concluir que “é preciso bala e bomba”. Falta “uma medicina que cure a cobardia lúcida”, concluem os dois ilustres desconhecidos que ali dialogam.

Para João Luiz “o bem e o mal neste momento equivalem-se” e conta que o desejo de trabalhar este texto já era antigo. “No contexto da sociedade atual, tudo é igual. Pobres somos todos. Somos todos descartáveis. É como um enxame de abelhas. Se uma morrer, outra toma o lugar. É a sociedade da performance”, considera o encenador, que já em 2007 e 2009 tinha trabalhado duas obras de Gonçalo M. Tavares, “Senhor Juarroz” e o “Senhor Valery” respetivamente.

O bem e o mal partilham as mesmas ferramentas

“Assistimos calmamente à pura barbaridade, sem nos questionarmos se isso faz sentido”, frisa João Luiz, para quem “a ética desapareceu e deixámos de interrogar os comportamentos”. Na opinião do encenador da companhia Teatro Pé de Vento, e tal como é dito durante a peça, “o bem executa as suas tarefas com os mesmos instrumentos do mal” e considera que se “o mundo antigo tinha raízes, o futuro não se sabe do que é” feito.

No texto de apresentação do espetáculo, Gonçalo M. Tavares explica que “a vida, em muitas das suas ocasiões, no seu pano de fundo, é mais ou menos uniforme – escolher um lado ou outro de um acontecimento não salva nem envia ninguém para o inferno”. Acrescenta ainda o escritor que “é, então, em redor deste Bem, deste Mal e deste enorme Assim-Assim que as personagens caminham, verbalmente falando”.

O ator Rui Spranger, com uma enorme experiência a interpretar e a organizar sessões de leitura em torno de autores portugueses, confidencia que Gonçalo M. Tavares é um dos seus escritores preferidos. Acerca do texto, que considera, apesar de tudo, “divertido”, destaca as “imensas mensagens políticas e sociais escondidas”.

A dramaturgia d’“O Bem, o Mal e o Assim-Assim” ficou a cargo de Maria João Reynaud, com cenografia de João Calvário e com composição musical a cargo de Pedro Junqueira Maia.

As récitas podem ser vistas à quarta-feira, pelas 19h, de quinta a sábados, às 21h30, e ao domingo à tarde, com início às 16h. Na sessão deste domingo a peça conta com tradução e mediação para Língua Gestual Portuguesa, que é uma das apostas do Teatro Nacional São João – que gere o TeCA – para tornar os espetáculos mais inclusivos.