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Fuocoammare: memorize esta palavra

Samuele Pucillo tem 12 anos e quer ser pescador como o pai

D.R.

Significa “Fogo no Mar”. E é uma tragédia

Helena Bento

Jornalista

Gianfranco Rosi disse numa entrevista recente a Patrick Kingsley, correspondente do "Guardian" sobre migrações e autor do livro "A Nova Odisseia – A História da Crise Europeia dos Refugiados”, que, para ele, fazer um filme é “fechar uma porta, em vez de a abrir e relevar tudo”, como “uma estátua de Giacometti, que se vai tornando cada vez mais fina até finalmente quebrar. “Gosto de dar menos informação e, de algum modo, mais espaço para a interpretação.” Isso explica que o seu mais recente filme, “Fogo no Mar”, vencedor este ano do Urso de Ouro no Festival de Berlim – onde também foi distinguido com o Prémio da Amnistia Internacional –, tenha dado a azo a algumas discussões sobre qual terá sido, afinal, a intenção do realizador e sobre a própria natureza do filme: é ficção, é documentário?

“Fogo no Mar” ("Fuocoammare") começou por ser uma encomenda do organismo estatal italiano do cinema, o Istituto Luce, sobre a ilha italiana de Lampesusa, mas transformou-se depois num testemunho de duas realidades que, sendo tão próximas em termos geográficos – nunca coincidem realmente. A realidade dos migrantes que vêm do norte de África, metidos em barcaças ou botes – verdadeiros caixões insufláveis, como dizia alguém –, apinhados no convés ou apinhados e esmagados e encharcados de gasolina ou urina ou vomitado no porão. E a realidade da pequena comunidade que habita Lampedusa, onde atualmente vivem cerca de seis mil pessoas.

Samuele Pucillo tem 12 anos e quer ser pescador como o pai, como todos os homens da ilha desde tempos imemoriais, apesar de enjoar e vomitar quando anda de barco e de ter um "olho preguiçoso" que o faz falhar os alvos a que faz pontaria quando vai explorar a ilha com o seu amigo Mattias, quando não está na escola ou em casa da avó, Maria. Maria, Maria Signorello, é também o nome da mulher que vemos a cozinhar e a beijar a fotografia do marido e a telefonar para a rádio local para participar no programa de discos pedidos. Pietro Bartolo é médico. Dá consultas no hospital da ilha, de que é também diretor, e assiste os migrantes quando é chamado de emergência por causa de algum barco que naufragou. A dada altura, diz já ter visto praticamente cada um dos 250 mil homens, mulheres e crianças que passaram pela ilha. Ele é a única ponte entre a comunidade local e os migrantes, separados pelo mar e pela terra e pelo resto. Quando Maria ouve na rádio sobre o naufrágio de mais um barco carregado de migrantes, ali não muito longe, reage dizendo apenas: “Pobres coitados”. É indiferença, que o realizador, que passou largos meses com os habitantes da ilha antes de começar a filmar, justifica com o facto de hoje em dia não haver qualquer contacto entre as duas partes, devido a operações de salvamento como a Mare Nostrum – cancelada por Itália no outono de 2014, face à inércia dos restantes países de Europa –, que fez aumentar o número de barcos-patrulha no Mediterrâneo e impedir os requerentes de asilo de irem simplesmente dar à costa, metidos em coletes cor de laranja com documentos dentro. “Os desembarques foram institucionalizados”, disse Gianfranco Rosi numa entrevista recente.

Pietro Bartolo é, aqui, uma figura absolutamente central. Além ser o único elo entre as duas realidades – tanto osculta Samuele Pucillo quando ele se queixa de falta de ar e dificuldades em respirar, como faz uma ecografia a uma requerente de asilo (ou refugiada?) grávida de gémeos, que não entende a sua língua –, é ele que descreve, profundamente deprimido, as condições deploráveis em que os migrantes, vindos sobretudo da Somália, Eritreia e Etiópia, fazem as viagens por mar. Numa entrevista ao jornal italiano “Internazionale”, Gianfranco Rosi fala em três narrativas que “se entrelaçam, mas nunca se cruzam”: a do centro onde os requerentes de asilo vindos do mar são revistados e limpos e acolhidos de forma temporária, a do miúdo Samuele e de outros locais e a do naufrágio ao largo da ilha que o realizador italiano acompanhou e filmou, uma experiência descrita pelo próprio como muito “intimidante” e complicada em termos emocionais.

Se pelo médico ficamos a saber como é encontrar crianças, mulheres e homens, corpos moribundos, muitos deles desidratados, esfomeados, feridos e queimados, é pelo nigeriano que entretém, numas instalações da guarda costeira, um grupo de migrantes com um rap desesperado e banhado de lágrimas que ficamos a saber as agruras e as provações que todos eles enfrentaram durante a travessia por terra e mar - as areias sem fim do Saara, com a sede a deturpar a vista e a levar à loucura, e os raptos, os subornos e a tortura na Líbia; os encontros inesperados com os jiadistas do Daesh; as viagens em carrinhas ou camiões onde são acomodados como lixo, sem ar e sem nada, e as esperas intermináveis por barcos e bote que são, ao mesmo tempo, a sua tragédia e a sua salvação. “O mar não é uma estrada. Mas, oh! Hoje estamos vivos. A vida em si mesmo é um risco. Nós fomos para o mar e não morremos”, canta. Sem qualquer contextualização nem voz-off, com imagens que se vão sucedendo a um ritmo lento, deixando respirar cada plano, “Fogo no Mar” constrói-se pela voz destes dois homens, o médico e o nigeriano, testemunhas e vítimas da desgraça.

Durante algum tempo, Lampedusa esteve no epicentro da crise humanitária que eclodiu no final de 2013. Nas últimas décadas, cerca de 400 mil requerentes de asilo desembarcaram na ilha italiana, vindos da Líbia e com o objetivo de alcançar a Europa. Há três anos, em outubro, num só naufrágio ao largo da ilha morreram cerca de 400 requerentes de asilo. Em abril de 2015, morreram outros 800, naquele que foi considerado o naufrágio mais mortífero da atualidade no Mediterrâneo.

Gianfranco Rosi diz que o documentário não é apenas sobre migrantes e refugiados. Que é também, e sobretudo, sobre Samuele Pucillo, o miúdo forte e determinado que caça pássaros e destrói umas enormes tabaibeiras, na praia, com a sua fisga, ao mesmo tempo que sofre por ter um “olho preguiçoso”, por ser filho e neto e bisneto de pescadores e não conseguir enfrentar a ondulação numa ilha de homens do mar, e por sentir um peso no peito que não o deixa respirar quando está ansioso. “Ninguém fala sobre Samuele, mas ele é 80% do documentário”, disse Gianfranco Rosi na entrevista a Patrick Kingsley.

Há uma razão muito prática para “Fogo no Mar” focar-se sobretudo em Samuele e nos restantes habitantes de Lampedusa. É que o realizador, devido a questões burocráticas, não pôde estar com os migrantes o tempo que pretendia, como esteve com o miúdo ou com o médico ou com Maria Signorello, que acompanhou durante muitos meses, só os ‘obrigando’ mais tarde a confrontar com a câmara. É verdade que lhe deram permissão para entrevistar migrantes, mas não era isso que ele queria fazer. “Não gosto de fazer entrevistas num documentário – nunca faço isso”. Quem faz isso são os jornalistas e a ele, o que lhe interessa mesmo, é, como já aqui dissemos, dar “espaço para a interpretação”, fechar uma porta em vez de a abrir e revelar tudo.

A atual crise migratória e as questões políticas que ela espoleta permanecem aqui, contudo, em estado latente. Depois de “Fogo no Mar” ter vencido o Urso de Ouro em Berlim, o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, disse que ia oferecer um DVD do documentário a cada um dos representantes dos 27 Estados-membros “para encorajá-los a discutir a crise migratória de uma forma diferente”. Esperamos que já o tenham visto.