Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Resgatar a verdade

  • 333

SINAGOGA DE JEDWABNE. Desde 1660 que uma comunidade judia vivia nesta cidade polaca. Em 1941, centenas de pessoas foram assassinadas pelos seus vizinhos católicos, que lhes ficaram com as terras

FOTO TEOFIL PYCZ

Em Jedwabne, cidade no nordeste da Polónia, uma comunidade católica assassinou os seus vizinhos judeus. E nunca mais quis falar sobre isso.

Foi lançado no país natal da autora e jornalista, a polaca Anna Bikont, há mais de uma década, em 2004. Foram necessários sete longos anos para o lançamento da versão em francês, que arrecadou, em 2011, o European Book Prize. E foi preciso esperar por 2015 para ter o lançamento nos mercados inglês e americano, altura em que suscitou diversas recensões e artigos. No início deste mês, o jornal “The Guardian” decidiu adicionar “The Crime and The Silence”, à sua livraria virtual (bookshop.theguardian.com), por menos de dez libras. Vale a pena, ainda que a leitura se antecipe difícil. Não por desmérito da escrita de Bikont, muito elogiada pela crítica, mas pelos vários murros no estômago que o leitor sentirá ao mergulhar numa Polónia conservadora, obscura e preconceituosa, que não apenas permitiu mas perpretou, ela própria, pelas mãos do seu povo, um dos massacres mais odiosos da História da humanidade. Desta vez, humanidade escreve-se mesmo em minúsculas, porque se ela lá estava, não foi encontrada. E se se passou numa pequena cidade da Polónia é indiferente, porque foi um mal do mundo.

Em Jedwabne, no nordeste do país, o dia 10 de julho de 1941 foi de trevas. Na cidade, que já tinha sido tomada pela Alemanha Nazi, mas que fora tomada pela União Soviética e acabara de cair novamente sob o domínio alemão, centenas de judeus, homens, mulheres, velhos e crianças, foram forçadas a sair de suas casas, espancados e fechados num celeiro. Um grupo de homens regou o edifício a gasolina e deitaram-lhe fogo. Ninguém sobreviveu. A versão oficial fala em 340 pessoas, outros estudiosos mencionam 1600 pessoas.

Depois disso, as suas casas foram pilhadas e, em várias reuniões comunitárias, as suas propriedades e terrenos divididos pelo resto da comunidade de Jedwabne.

O que choca é que, ao contrário da versão (silenciosa e silenciada) que ficou para a história nas décadas seguintes e que hoje, ainda muitos, continuam a dizer acreditar, naõ foram os nazis os autores do hediondo crime. Mas sim pelos seus vizinhoas, a comunidade de Jedwabne, profundamente Católica e antisemita — um sentimento que continua a ser alimentado pelas alas da extrema-direita, no poder, e que, volvidos 75 anos sobre a barbaridade, mantêm um discurso racista. A Anna Bikont, que durante quatro anos investigou o tema, entrevistou centenas de pessoas e manteve um diário pessoal (que também surge transcrito no livro) sobre a sua busca pelos factos e pelas memórias das vítimas e dos seus opressores, questionaram permanentemente as razões para estar a “desenterrar” o acontecimento, com a conivência de judeus. A justificação, para muitos, só podia residir no facto de, por exemplo, os judeus quererem de novo “conquistar” a Polónia. Havia mesmo quem dissesse que o estavam a fazer porque “queriam ouro”, o que denota um subconsciente perfeitamente racista e xenófobo que se mantém vivo.

A autora, que descobriu tarde que era de descendência judia por parte da mãe, encetou a sua investigação em 2000, depois de o académico polaco Jan Tomasz Gross, com o seu livro “Neighbors: The Destruction of the Jewish Comunnity in Jedwabne, Poland”, ter voltado a despertar os fantasmas do acontecimento, o que motivou fortes críticas e uma “indiferença furiosa” por parte de uma parte da sociedade polaca, a que se seguiu uma investigação do Instituto da Memória Nacional. Ao contrário da versão oficial, que chegou a motivar um monumento em Jedwabne, no local da barbárie, o massacre não havido sido cometido sob pressão dos nazis, mas exclusivamente pela vontade dos católicos da cidade.

The Crime and The Silence — A Quest for The Truth of a Wartime Massacre, de Anna Bikont, William Heinemann Ltd, 560 páginas, €18,40 (preço na Amazon)

The Crime and The Silence — A Quest for The Truth of a Wartime Massacre, de Anna Bikont, William Heinemann Ltd, 560 páginas, €18,40 (preço na Amazon)

Em 1949, dez homens da comunidade e um alemão foram condenados pelo crime. Bikont consegue encontrar três desses homens, irmãos. Defendem-se dizendo que agiram de acordo com as ordens nazis, depois de estes terem sido provados por um grupo de judeus, que lhes atirou bolas de neve. Justificações como estas são muitas e contraditórias: a memória coletiva é poderosa, dá imagens, lembra-se dos uniformes dos alemães que deram as ordens e dos grupos de judeus, riquíssimos e que ostentavam o seu ouro, a fugir em carros. Caros, claro. Contudo, estes episódios são contados por cada um de forma diferente, contradizem-se, rapidamente se esfumam, tornam-se anedóticos. O grande trabalho está em resgatar as histórias verdadeiras. Ainda que os murros no estômago sejam frequentes. De leitura obrigatória. Para encontrar respostas e culpar. Porque é preciso.