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O poço das ilusões

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CINEMA NO TRINDADE. Após 16 anos de ausência, o cinema de autor e em estreia volta ao mítico Trindade, e a baixa do Porto passa por fim a ter exibição regular de cinema. Na imagem “Julieta”, de Pedro Almodóvar.

d.r.

Visto à superfície, o Porto é hoje uma cidade cosmopolita por onde se passeia um inusitado dinamismo económico. Carradas de turistas desembocam todos os dias no centro histórico, uns atraídos pela efetiva beleza de alguns dos recantos e paisagens naturais, outros tão só por ser barato. Muito barato.

Para qualquer residente na Europa do Norte, uma viagem de vários dias ao Porto, ou até qualquer outra cidade portuguesa, representa uma substancial economia de vida. Em alguns casos, mesmo com o preço do avião, pode ficar mais barata a deslocação a Portugal do que permanecer no país de origem.

Todos os dias abrem novos espaços comerciais na cidade. Vêm-se muitas gruas nas ruas. Há uma infinidade de novos hotéis já em construção ou prontos a arrancar em projeto. Percebe-se um enorme fervilhar, e é notória a disputa de espaços por grandes marcas internacionais na área do consumo. Há uma corrida aos prédios com espaços arrendáveis, com consequências inevitáveis nos preços das rendas e da habitação em geral.

Encontrar um andar na baixa do Porto está a tornar-se cada vez mais caro e inacessível aos locais. Tal como em Lisboa, são inúmeros os prédios cujos andares passam a estar disponíveis, mas para alojamento temporário de turistas.

O perigo de gentrificação do porto é real e cada vez mais evidente. Na imagem turistas junto ao café Majestic

O perigo de gentrificação do porto é real e cada vez mais evidente. Na imagem turistas junto ao café Majestic

RUI DUARTE SILVA

Em si mesmo, isso não será um mal. Depende do modo como a cidade, e em particular os seus responsáveis, souberem acomodar este movimento avassalador. Não custa imaginar que este poderá ser o grande desafio e o grande teste à gestão de Rui Moreira, também ele um dos grandes dinamizadores da publicitação externa da imagem da cidade.

O perigo da gentrificação é real e cada vez mais evidente. Para quem viveu o Porto nos deprimentes anos de 1980 e 1990, por exemplo, chega a ser comovente caminhar hoje numa cidade pejada de gente, seja de dia, seja de noite, seja na parte mais central da baixa, seja noutras zonas não tão evidentes.

Neste contexto, ganha uma importância acrescida a notícia de que o mítico cinema Trindade reabrirá as portas em meados do próximo mês.

Apesar da riquíssima oferta proporcionada nas mais diversas vertentes culturais, gastronómicas ou de lazer, o Porto continua a viver o paradoxo de não possuir uma única sala de cinema de rua. A oferta cinematográfica regular resume-se às salas de um centro comercial junto ao estádio do Dragão, e a uma sala no Teatro do Campo Alegre. Quer uma, quer as outras, bem afastadas do centro da cidade.

Fechado há 16 anos, o Trindade – cuja imagem de marca passava por uma criteriosa escolha dos filmes a exibir – reabre agora com duas salas. Uma, com 183 lugares, para as estreias nacionais de cinema de autor; a outra, com 168 lugares, mais dedicada a ciclos de cinema, sessões de festivais ou propostas de outros programadores.

O grande cinema passou pela Trindade. Conseguirá aguentar-se? (Na foto, “La Dolce Vita”, de Federico Fellini)

O grande cinema passou pela Trindade. Conseguirá aguentar-se? (Na foto, “La Dolce Vita”, de Federico Fellini)

O projeto é dinamizado por Américo Santos, da Nitrato Filmes, ele próprio um dos principais responsáveis pelo festival de cinema Luso-Brasileiro, que há quase duas décadas decorre em Stª Maria da Feira.

O Salão Jardim Trindade foi inaugurado em junho de 1913. Dispunha, então, de uma sala com perto de 1 200 lugares. Muitas décadas depois, empurrado por novos ventos, sofreu – e como aqui este é o verbo adequado – uma conversão. Passou a dispor de duas salas estúdio e uma sala de bingo. Quando encerrou as portas ao cinema teria, diz-se, uma média pouco superior a sete espectadores por dia.

Se isso aconteceu, não foi apenas porque entretanto se consumara o verdadeiro cerco da cidade por um vasto conjunto de grandes superfícies comerciais, todas equipadas com numerosos espaços para a exibição cinematográfica.

Há um outro fator muito relevante e que poderá ganhar nova atualidade. As décadas de 1980 e 1990 foram também o tempo em que, em resultado de desgraçadas políticas sociais e urbanísticas, a população da cidade diminuiu de forma drástica. Os portuenses foram expulsos para os subúrbios e a cidade era um quase deserto.

Há muita gente no Porto, nos tempos que correm. Mas é gente de passagem, que em muitos casos está a ocupar as casas às quais não chegam os potenciais e jovens moradores portuenses. Os que ficam. Os que dão vida continuada à cidade. Os que asseguram o ritmo quotidiano. Os que estão cá, faça chuva, faça sol.

O grande cinema tem estado ausente da baixa do Porto (na foto, “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick)

O grande cinema tem estado ausente da baixa do Porto (na foto, “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick)

Nenhuma cidade se aguenta apenas como parque de atrações. Nenhuma cidade resiste a um processo de gentrificação. Não há vida comunitária se se negligencia a oferta de casas para alugar a jovens casais no centro da cidade.
O regresso do cinema Trindade é tanto um sinal como um teste. Ou o Porto mostra que não é um poço de ilusões, ou na Trindade (a igreja ali mesmo ao lado) não tardaremos a ouvir o indesejável toque de finados.