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4 de julho, 8 de novembro

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1939. Henry Fonda, em “Young Mr. Lincoln” (“A Grande Esperança”)

d.r.

Reinaldo Serrano

Quando um mês nos separa do ato eleitoral que há de escolher o sucessor de Barack Obama como inquilino maior da Casa Branca, ocorreu-me a eventual possibilidade de ter no evento do próximo dia 8 de novembro o pretexto para preencher com a costumeira singeleza o espaço hebdomadário que o Expresso tão generosamente me ofertou há mais de 2 anos.

Afinal de contas, quer o cinema, quer a televisão, têm abundantes (mas nem sempre felizes) exemplos de filmes ou séries cuja figura central é o Presidente dos Estados Unidos. Pondo de parte exemplos caricatos como o inacreditável “Air Force One”(1997), o sobrestimado “Marte Ataca” (1996) ou o delicodoce “Uma Noite com o Presidente”(1995), tentemos focar-nos em trabalhos porventura menos conhecidos mas de indubitável relevância no grande e no pequeno ecrã.

O primeiro exemplo remonta a 1939, o ano que marca a primeira colaboração entre John Ford e Henry Fonda. O filme é, naturalmente, “Young Mr. Lincoln” que, sabe-se lá porquê, recebeu entre nós o título de “A Grande Esperança”. Obra singular de mestre Ford, a longa-metragem (há quanto tempo não ouvia esta palavra?) incide nos anos de formação humana e académica do então jovem advogado que havia de tornar-se um dos mais icónicos chefes de Estado do continente americano.

O desempenho de Fonda é uma lição de contenção, de naturalidade e desarme, por oposição à complexidade da personagem que interpreta, a braços com um caso de homicídio e com as dúvidas e lutas naturais de quem está a afirmar-se perante si próprio e perante os outros. Este percurso, que acompanhamos com a singularidade do olhar de Ford, rigoroso e patriótico, torna-se assim num imenso mosaico que pré-anuncia as características únicas de uma figura incontornável na história dos Estados Unidos e cujo caráter se ergue e se revela em função das vicissitudes que encontra e que supera até ingressar no universo que o tornou célebre: o da política.

Esta é omnipresente num curioso filme realizado em 2000 por Roger Donaldson. “Thirteen Days” ou “Treze Dias Que Abalaram o Mundo”, baseia-se no livro homónimo que Robert F. Kennedy escreveu no ano da sua morte: o senador, irmão de John F. Kennedy e antigo Procurador-Geral dos Estados Unidos, foi assassinado em junho de 1968. Deixou este relato detalhado e surpreendente sobre os 13 dias em que a administração Kennedy teve de lidar com a crise dos mísseis de Cuba, a maior ameaça à paz mundial desde o fim da Segunda Guerra.

2000 “Thirteen Days” (“Treze Dias Que Abalaram o Mundo”)

2000 “Thirteen Days” (“Treze Dias Que Abalaram o Mundo”)

Para a consistência deste filme, que não foi um sucesso comercial, estão os desempenhos sólidos de Steven Culp, Bruce Greenwood e Kevin Kostner, além uma narrativa com o tempo certo e, coisa rara no cinema norte-americano, com uma dose qb de patriotismo que não torna exacerbada a suposta “vitória” norte-americana sobre o “império do mal” – na verdade, foi preciso sensibilidade e bom senso de ambas as partes para travar um terceiro conflito mundial e impedir a colocação de mísseis nucleares soviéticos em solo cubano. 16 anos após a sua estreia (que creio não ter passado por Portugal), “Treze Dias Que Abalaram o Mundo” merecem visionamento agradável e, quem sabe?, até pedagógico sobre um incidente diplomático de larga escala.

De escala não pequena é a teoria explanada pelo controverso Oliver Stone em “JFK”. As iniciais do malogrado Presidente norte-americano titularam o filme de 1991, cujo sucesso junto de público e crítica foi premiado com a atribuição de dois óscares: Melhor Fotografia e Melhor Edição, justamente atribuída a Joe Hutshing e Pietro Scalia. Já Oliver Stone viu o seu trabalho reconhecido com o Globo de Ouro para Melhor Realizador.

As mais de 3 horas de “JFK” narram os acontecimentos que rodearam o assassínio de John Fitzgerald Kennedy a 22 de novembro de 1963, em Dallas. Escrito pelo próprio Stone, em parceria com Zachary Sklar, o filme reflete necessariamente a visão do realizador sobre os eventos subsequentes ao assassínio do Presidente e do atirador Lee Harvey Oswald, atingido mortalmente por Jack Ruby. Esta visão é personificada na figura de um Procurador Distrital de Nova Orleães, que duvida da versão oficial dos factos. A narrativa, não sendo propriamente obscura, é tida por muitos como um exemplo paradigmático do que é a transposição para o cinema de uma teoria da conspiração; o que não é difícil, tendo em conta as muitas e diversas teses que, mais de meio século depois do que aconteceu em Dallas, ainda proliferam e preenchem estantes e documentários televisivos.

Justamente em matéria de televisão, cumpre aqui destacar a extraordinária série que retrata a vida do segundo presidente norte-americano: “John Adams”, realizada em 2008 pelo oscarizado Tom Hooper (“O Discurso do Rei”), reflete ao longo dos seus 7 episódios a notável influência que Adams teve nos anos iniciais dos Estados Unidos da América. Paul Giamatti, Laura Linney, David Morse e Tom Wilkinson destacam-se num elenco de primeiríssima água que, juntamente com os valores de produção, contribuem para o assinalável e justo sucesso desta série vencedora de 4 Globos de Ouro.

Outros exemplos poderiam ser dados, como “Frost/Nixon”(2008), “Nixon” (1995), também de Oliver Stone, ou o mais recente “All The Way” (2016), onde Bryan Cranston tem um desempenho notável como Lyndon Johnson. O cinema e a televisão gostam da Sala Oval (quem pode esquecer “West Wing” ou “All The President´s Men”); a mesma sala que teve ocupantes mais ou menos inesquecíveis, mais ou menos brilhantes, mais ou menos inteligentes. A mesma sala que se prepara para receber o próximo “dono” ou “dona”. A palavra cabe aos desconcertantes eleitores norte-americanos. E se, nos EUA, existir o adágio que nos diz: entre um e outra venha o diabo e escolha, a imensa nação saberá desde já quem é o vencedor das presidenciais norte-americanas.